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Soja

À espera de melhor preço, produtor de soja ‘segura’ venda


Valor Econômico - 17 nov 2022 - 09:39

As vendas da produção de soja que será colhida nesta safra 2022/23, que está em fase de plantio, caminham a passos lentos no Brasil. Segundo a Safras & Mercado, até o dia 7 de novembro, a comercialização antecipada chegou a 20,6% da produção prevista, menos que os 30,6% observados em igual período do ano passado e bem abaixo da média dos últimos cinco anos (34,2%). Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a colheita, que foi de 125,6 milhões de toneladas no ciclo 2021/22, deverá alcançar 153,5 milhões de toneladas nesta safra.

Luiz Fernando Gutierrez, analista da consultoria, afirma que a boa rentabilidade que os produtores obtiveram na safra 2021/22 afastou parte deles dos negócios desta nova temporada - principalmente os do Cerrado, que não sofreram com a quebra que afetou a região Sul e parte de Mato Grosso do Sul.

“Na safra passada, os produtores venderam bem, por preços mais altos. Isso faz com que eles se deem ao ‘luxo’ de esperar preços melhores no Brasil para retornar ao mercado, uma vez que o valor da saca para 2022/23 está R$ 15 menor que o da safra antiga”, diz.

Segundo a Safras & Mercado, as vendas de soja colhida em 2021/22 alcançaram 89,2% do total até 4 de novembro. No ano passado, o percentual de comercialização do volume de 2020/21 era de 92%.

Vendas antecipadas

De acordo com Gutierrez, as vendas antecipadas da soja de 2022/23 deverão se intensificar com a aproximação da colheita da soja, que ganhará força a partir de janeiro - e diante da necessidade de o produtor de fazer caixa. O preço poderá subir antes disso, colaborando para esse “aquecimento”. “O aumento poderá acontecer seja por causa de uma eventual alta do dólar ou mesmo por problemas de oferta em outros países da América do Sul, provocadas pelo clima”, pontuou.

Em Mato Grosso, maior produtor de soja do Brasil, o atraso das vendas chama a atenção. Em outubro, a comercialização da colheita futura chegou a 32,8% da produção estimada, segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). Em igual período do ano passado, 44,4% da safra estava comprometida, e a média para os últimos cinco anos é de 44,27%.

“Estamos vendo nesta safra [2022/23] uma mudança no comportamento dos produtores, que começou em 2020/21. Naquele ciclo, devido ao aumento das cotações, os produtores negociaram bastante produto, mas quando chegou o pico de preço, em 2021/22, eles não conseguiram tirar proveito. Então agora, com os agricultores capitalizados, esse ritmo de venda antecipada tende a ser menor”, explica Monique Kempa, coordenadora de inteligência de mercado do Imea.

Ela acredita que o ritmo dos negócios em Mato Grosso deverá aumentar até o fim do ano, mas não na mesma velocidade de duas safras atrás - quando, no início da colheita, os produtores do Estado já haviam negociado 50% de sua produção. A coordenadora do Imea concorda que a colheita poderá estimular as vendas, a depender do desempenho das lavouras. O Imea estima produtividade de 59 sacas por hectare em 2022/23, 0,54% menor que no ciclo anterior.

Na SLC Agrícola, uma das maiores empresas produtoras de grãos do país, e que tem a soja como carro-chefe, a comercialização está dentro do esperado. “Temos mais de 60% da safra de soja ‘hedgeada’, patamar igual ao dos últimos quatro anos. Seguimos com nossa estratégia de vendas futuras para fixar receita e garantir margem”, diz o CEO da SLC, Aurélio Pavinato.

Ele lembra, que ao optar pelo hedge, o produtor se protege da volatilidade do mercado. “À medida que ele fixou o preço da soja a um custo mais alto, se ele está pouco hedgeado, está exposto, e pode perder oportunidade de uma margem adequada se o preço cair”, comenta. Na SLC Agrícola, dos 667,8 mil hectares semeados com grãos na temporada atual, 349,7 mil foram destinados à cultura da soja, que deverá ocupar uma área 4,4% maior que a do ciclo anterior.

Paulo Santos – Valor Econômico