Sebo bovino

Estudo aponta gargalos no uso do sebo bovino para biodiesel


BiodieselBR.com - 26 jan 2012 - 15:34 - Última atualização em: 27 fev 2012 - 00:35

O sebo bovino acabou se tornando a segunda fonte mais importante para a indústria brasileira de biodiesel – dados parciais sobre a produção do ano passado indicam que ela representou cerca de 12,5% da produção do período, atrás apenas da soja com seus 82,3%. Agora, uma dissertação de mestrado recém-defendida na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiros (Esalq) joga um pouco mais de luz sobre os desafios de lidar com essa matéria-prima.

A pesquisa desenvolvida pelo economista, Gabriel Levy, coletou informações de oito usinas de biodiesel que trabalham com essa matéria-prima. Contribuíram com o estudo as duas unidades do Grupo JBS – incluindo a paralisada em Colider (MT) –, a Minerva, a Bioverde, a Fertibom, a Amazonbio, a Biopar de Rolândia (PR) e a Frigol que, até 2009, possuía uma usina em Lençóis Paulistas (SP). Somadas, essas oito usinas representam cerca de 645 milhões de litros em capacidade produtiva.

Embora ressalte que os números do segmento não sejam dos mais precisos, Levy estima que em 2010 tenham sido produzidas por volta de 439 mil toneladas de sebo bovino no Brasil – calculo baseado no volume de abates produzidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ele calcula que entre 12% a 13% desse volume tenha sido absorvido pela indústria de biodiesel. Importante ressaltar que os dados do IBGE em relação ao sebo bovino desconsideram uma parcela significativa do rebanho nacional.

Algumas das fontes da pesquisa indicam que os produtores de biodiesel têm tido dificuldade em competir com os valores pagos por outros grandes compradores como as indústrias de ração animal e, principalmente, a de cosméticos.

Não é só na hora de disputar o insumo no mercado que as usinas de biodiesel sentem dificuldades. A falta de homogeneidade da matéria-prima também tem sido um problema sério para os usineiros que, muitas vezes, se veem às voltas com lotes imprestáveis. “Um produtor relatou que chegava a devolver três de cada dez carretas de sebo que ele comprava”, conta o pesquisador. Esse tipo de situação aumenta as incertezas e afugenta as usinas, que tendem a buscar matérias-primas mais confiáveis. Segundo o pesquisador, a maior fonte de dores de cabeça para os usineiros é o nível de acidez do sebo. “Embora essa característica possa ser tratada, ela aumenta a saponificação durante o processo de fabricação do biodiesel”, completa Levy.

Não contribui o fato do biodiesel de sebo cristalizar a temperaturas relativamente amenas, o que praticamente obriga as usinas a trabalhar com blends para conseguir manter seu produto final dentro das especificações da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) – especialmente na questão do Ponto de Entupimento. “O biodiesel de sebo tem especificidades como seu problema de cristalização. Ele não é o produto mais adequado para o clima da Região Sul”, explica. A atual revisão que a ANP está fazendo nas regras do produto está, ao menos em parte, relacionada ao uso dessa matéria-prima.

Para Levy, a solução para esses impasses passa por dois caminhos. O mais simples é um maior índice de verticalização. Se os grandes frigoríficos resolverem aproveitar o seu próprio sebo, fica mais fácil controlar a qualidade da matéria-prima. Uma outra saída seria estender para os frigoríficos e graxarias de menor porte o mesmo tipo de assistência técnica que hoje as usinas dão para os agricultores familiares como parte do Selo Combustível Social.

Fábio Rodrigues - BiodieselBR.com