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Matérias-primas alternativas

Projeto de estudantes da UEFS transforma licuri em biodiesel


Folha do Estado da Bahia - 24 ago 2026 - 12:00

O que começou como uma experiência em uma escola pública de Santa Bárbara, no interior da Bahia, hoje faz parte da trajetória acadêmica de um estudante da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Aos 19 anos, Adrian Mota, atualmente no terceiro semestre do curso de Geografia, integra a equipe responsável pelo projeto EcoLicuri, que desenvolveu, em pequena escala, um biodiesel produzido a partir do óleo extraído da amêndoa do licuri, palmeira típica do semiárido baiano.

A pesquisa foi desenvolvida quando Adrian e os colegas Andrei Ribeiro Maia, João Henrique Gomes de Lima e Kauan Mascarenhas ainda eram estudantes do Colégio Estadual Professor Carlos Valadares, em Santa Bárbara. O trabalho contou com a orientação dos professores Hevelynn Martins e Lamon Oliveira.

A proposta surgiu a partir de uma situação observada pelos próprios estudantes: o desperdício do fruto do licuri, encontrado em grande quantidade nas comunidades onde viviam.

“A gente queria testar se o licuri que tinha disponível, que estava caindo aos pés das casas dos meninos, poderia ser utilizado para produzir um biocombustível”, explicou a professora Hevelynn Martins.

Da amêndoa ao biodiesel

O licuri possui uma amêndoa rica em óleo, matéria-prima que já pode ser utilizada em diferentes produtos, como alimentos e cosméticos. No EcoLicuri, os estudantes investigaram a possibilidade de utilizar esse óleo também na produção de biocombustível.

Para isso, foi necessário extrair o óleo das amêndoas e realizar diferentes experimentos com reagentes e condições de produção até alcançar a chamada transesterificação, processo químico utilizado para transformar óleos vegetais em biodiesel.

Nem todos os testes apresentaram o resultado esperado. Em uma das experiências, por exemplo, o material obtido acabou sendo aproveitado para a produção de uma espécie de sabonete de licuri.

Os estudantes também buscaram utilizar outras partes do fruto. Resíduos foram empregados na produção de farinha, enquanto as cascas foram utilizadas para a fabricação de vasos.

Pesquisa começou sem laboratório

O projeto teve início em uma estrutura simples. Segundo a equipe, na época a escola ainda não possuía laboratório, e os primeiros experimentos foram realizados com materiais disponíveis, incluindo garrafas PET.

Com a evolução da pesquisa e a conquista de equipamentos, os procedimentos passaram a ser realizados com maior precisão.

“A gente brinca que só tinha um sonho. A gente foi lá e fez”, afirmou Hevelynn.

Para a professora, o projeto contribuiu para aproximar os jovens da pesquisa científica e demonstrar que o semiárido também pode ser espaço de produção de conhecimento e inovação.

Testes apontaram resultados promissores

O biodiesel foi produzido em pequena escala e submetido a testes para verificar características como densidade, viscosidade, acidez e inflamabilidade.

Segundo Adrian, os resultados obtidos pela equipe foram considerados promissores. Em uma estimativa realizada durante os experimentos, os estudantes calcularam que 50 litros de óleo de licuri poderiam resultar em aproximadamente 40 litros de biocombustível. O custo estimado pela equipe foi de cerca de R$ 1,80 por litro, considerando a produção manual realizada durante a pesquisa.

Os pesquisadores, no entanto, destacam que o produto ainda está em fase experimental e não pode ser considerado pronto para comercialização ou uso em larga escala.

“Não fizemos uma análise de ciclo de vida completa nem testes diretos de emissão de gases em motores. Por isso, ainda não temos uma porcentagem exata que mensure essa redução em relação ao diesel fóssil”, explicou Adrian.

Para uma eventual produção comercial, seriam necessários estudos adicionais envolvendo estabilidade, qualidade, desempenho, funcionamento em motores e emissão de gases, além de análises ambientais e econômicas.

Potencial para o semiárido

Para os estudantes, um dos principais diferenciais da pesquisa está justamente na utilização de uma matéria-prima encontrada no próprio território.

O licuri é uma palmeira nativa do semiárido e possui importância para comunidades rurais, além de desempenhar papel na alimentação de animais da região. A utilização da planta como fonte de matéria-prima para diferentes produtos, portanto, poderia representar uma alternativa de aproveitamento econômico, desde que acompanhada de critérios de sustentabilidade.

“É mostrar que o semiárido também tem potencial para produzir ciência e inovação”, afirmou Adrian.

A professora Hevelynn avalia que o licuri pode assumir papel relevante em iniciativas de desenvolvimento regional. Segundo ela, a planta reúne características que podem associar aproveitamento econômico, pesquisa científica e possibilidades relacionadas à transição energética.

Uma produção em maior escala, porém, dependeria de investimentos em equipamentos, laboratórios e estudos que garantam uma oferta suficiente de matéria-prima sem comprometer o meio ambiente.

Aproveitamento integral

Outro aspecto estudado pela equipe foi a possibilidade de utilizar diferentes partes do licuri.

Além do óleo destinado à produção do biodiesel, os estudantes pesquisaram alternativas para os resíduos. A torta resultante da extração do óleo, por exemplo, poderia ser estudada para utilização em ração animal, enquanto as cascas podem ser aproveitadas como fonte de energia ou na fabricação de outros produtos.

A professora ressalta, entretanto, que uma eventual exploração comercial precisa considerar o manejo sustentável da palmeira. Parte dos frutos deve permanecer disponível para a regeneração natural da espécie e para a alimentação de animais que dependem do licuri, como a arara-azul-de-lear.

De Santa Bárbara para outros países

O EcoLicuri ultrapassou os limites da escola e passou a ser apresentado em eventos científicos no Brasil e no exterior.

Os estudantes participaram de encontros e feiras em cidades como Juazeiro do Norte, no Ceará, e Vitória da Conquista, na Bahia, além de uma mostra online realizada no Peru.

Em junho deste ano, a equipe viajou para a Espanha para apresentar a pesquisa. O projeto também recebeu uma premiação que garantiu aos estudantes uma nova apresentação internacional em 2027, desta vez em Londres.

Para Adrian, as experiências fora da escola representam uma das principais marcas da trajetória do projeto.

“O mais emocionante foi perceber que todo o esforço, os testes e as dificuldades que enfrentamos realmente estavam dando resultado”, afirmou.

Projeto influencia trajetória acadêmica

Depois da experiência no ensino médio, os integrantes seguiram caminhos diferentes. Adrian Mota, hoje estudante do terceiro semestre de Geografia da UEFS, em Feira de Santana, continua ligado à formação acadêmica e à pesquisa.

Andrei Ribeiro Maia, também de 19 anos, está no segundo semestre do curso técnico de Manutenção Automotiva do Senai. João Henrique Gomes de Lima, igualmente com 19 anos, cursa o terceiro semestre da mesma formação.

Para Hevelynn Martins, acompanhar a trajetória dos jovens é um dos resultados mais importantes do projeto.

“A ciência e a educação, o investimento na educação, podem transformar a vida dos nossos estudantes. Eu acredito muito nisso”, declarou.

O EcoLicuri permanece como um projeto experimental, mas a experiência dos estudantes mostra como uma matéria-prima encontrada no cotidiano de comunidades do semiárido pode se transformar em objeto de pesquisa científica e abrir caminhos acadêmicos para jovens da rede pública.