Mamona

Mamona, a semente que não vingou em AL


Gazeta de Alagoas - 28 nov 2011 - 07:21 - Última atualização em: 28 fev 2012 - 10:48

Quatro anos atrás, o plantio da mamona para a produção do biodiesel foi apontado pelo Estado como salvação para a agricultura familiar nas regiões Agreste e Sertão.

Na época, o governador Teotonio Vilela Filho (PSDB) foi à Brasília pedir a inclusão de Alagoas no Programa do Biodiesel, do governo federal, e distribuiu 16 toneladas de sementes, beneficiando 500 famílias de agricultores familiares que, em 2007, plantaram cerca de dois mil hectares da oleaginosa.

A despeito da expectativa da época, que era ampliar a área cultivada de mamona para 30 mil hectares, a produção continua tímida.

Segundo dados da Secretaria Estadual de Agricultura e Desenvolvimento Agrário (Seagri), em 2011 foram plantados aproximadamente 500 hectares de mamona e 240 pequenos produtores foram integrados ao programa estadual do biodiesel, o Probiodiesel, que cedeu tratores para arar a terra, distribuiu sementes e forneceu batedeiras.

Entretanto, o principal incentivo para o agricultor previsto no programa, a concessão de R$ 200 para ajuda de custo por hectare plantado, que poderia chegar no máximo a R$ 600 por beneficiado, não saiu do papel.

Cultivo consorciado é viável
As vantagens da produção da mamona são variadas, mas uma das mais importantes é que o agricultor não precisa abandonar o cultivo de gêneros de subsistência. Como é uma planta de porte alto e exige espaçamento para ganhar altura, normalmente é plantada em consórcio com culturas de ciclo curto, como feijão e milho, mas também não perde em produtividade se cultivada junto à mandioca, cujo ciclo chega até a um ano e meio.

A agricultora Marli Santos Silva, conhecida como “Lili”, moradora do povoado Bom Caradá, em Traipu, plantou mamona consorciada com feijão. De treze tarefas de terra, ela conseguiu colher 23 sacos de feijão e “bateu”, na última quinta-feira – com a ajuda de uma máquina da Capial – 869 quilos de mamona, que correspondem a, aproximadamente, pouco mais da metade da produção das suas terras. O restante deve ser colhido até o fim de dezembro.

Cultura não é muito exigente
Segundo o técnico agrícola José de Souza Irmão – que na semana passada começou a jornada de “bater” a mamona em municípios do Agreste, levando a batedeira da Capial –, a cultura da oleaginosa não necessita de muitos cuidados. “Duas ‘limpas’ na terra são mais do que suficientes para manter a mamona. A primeira é feita na época do plantio e a segunda perto da colheita, para facilitar a retirada dos cachos. Se o solo for adubado, melhor, mas não precisa de irrigação ou de qualquer outro cuidado além destes”, falou.

José de Souza explicou que a variedade de mamoeira cultivada em Alagoas, conhecida como cultivares nordestinos, tem alta produtividade. Uma mesma planta dá aproximadamente seis safras anuais e até mesmo a casca da mamona possui valor comercial. “Da mamona se aproveita tudo, e poucos cuidados são exigidos, por isso é uma ótima relação entre custo e benefício. A casca pode ser passada na máquina forrageira e ser transformada em uma torta crua, que é um ótimo adubo orgânico para ser jogado na roça”, ressaltou.

“Chico da Capial” vislumbra bom cenário
O presidente da Capial, Francisco de Souza Irmão, vislumbra um cenário de franco desenvolvimento para a cultura da mamona nos próximos anos, substituindo até mesmo parte da área plantada de fumo no Agreste. Segundo ele, quando a produção da oleaginosa em Alagoas for suficiente para colocar usinas de biodiesel em funcionamento, vai promover uma mudança na vida do homem do campo.

“Alagoas poderá ter até 100 mil hectares de área plantada de mamona nos 83 municípios zoneados. Quando chegar nesse patamar, todos os agricultores poderão obter financiamento da lavoura por meio dos bancos. A produção poderá chegar a 130 mil toneladas de mamona na área zoneada, que poderá produzir também 140 mil toneladas de feijão”, destacou.

Governo aposta no Probiodiesel
O gestor do Probiodiesel, Fernando Lamenha, mantém o discurso de que a produção de mamona irá mudar a vida dos agricultores no Agreste e no Sertão. Segundo ele, os ganhos dos produtores nos outros Estados é muito bom, mas o que impede a cultura da oleaginosa de se espalhar em Alagoas é a falta de crédito bancário.

“Já discutimos muito com os bancos sobre a possibilidade de financiamento para a mamona, mas, enquanto isso não se tornar real, a mamona nunca será a cultura principal. O agricultor vê a oleaginosa hoje como um abono de Natal, algo secundário, porque o feijão, o milho e a mandioca, que são plantados consorciados com a mamona, recebem financiamento”, justificou.

O técnico cita o exemplo do Ceará, que começou a investir no cultivo de mamona e na fabricação do biodiesel na mesma época que Alagoas, e lá foram produzidos 69,2 milhões do combustível limpo no ano passado. Os bancos financiam a produção dos agricultores e existem indústrias que beneficiam o combustível no Estado. Enquanto isso, aqui, a produção de mamona ainda é tão pequena que há apenas uma fábrica em funcionamento no município de Atalaia, que não tem capacidade para processar toda a oleaginosa produzida em Alagoas. A maior parte da mamona é vendida in natura para indústrias de beneficiamento da Bahia.

Patrícia Bastos

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