Girassol

Girassol, o potencial que floresce na segunda safra


BiodieselBR.com - 06 out 2020 - 10:10

O girassol, assim como o milho e a batata, são importantes culturas que tiveram origem no continente americano. Pouco sensível às variações fotoperiódicas e bastante tolerante ao estresse hídrico, pode ser cultivado em quase todos os países com sucesso. No entanto, não tolera acidez elevada e nem compactação do solo.

A expansão mais significativa do cultivo do girassol ocorreu na Europa durante a 1ª Grande Guerra, como cultura fornecedora de óleo comestível. A produção disseminou-se pelos quatro continentes, principalmente nos países do Leste Europeu, e hoje são produzidas cerca de 47 milhões de toneladas (Mt) de grãos, com a Ucrânia (13,6 Mt) e a Rússia (11,0 Mt) como os líderes globais da produção. Responsável por 9% da produção mundial de óleos vegetais, o girassol é o 4º óleo vegetal mais produzido, depois de dendê (35%), soja (26%) e canola (15%).

O estímulo ao cultivo do girassol no Brasil veio da vizinha Argentina, que apesar de haver substituído, nas últimas décadas, grandes áreas de girassol por soja, ainda figura como o terceiro maior produtor mundial, com produção aproximada de 3,0 Mt.

No Brasil, o girassol continua sendo uma lavoura secundária, com área e produção aproximadas de 80 mil hectares e 100 mil toneladas de grãos, respectivamente. Os estados de Mato Grosso, Minas Gerais e Goiás são os principais produtores de girassol, onde geralmente é cultivado em segunda safra, após a soja. É pouco para um país que conta com mais de 10 Mha de áreas consideradas aptas para o seu cultivo.

A principal atratividade do girassol é que o grão possui elevado teor de óleo de excelente qualidade para a saúde humana. Por conta disso, cerca de 90% da produção de girassol é processada para extração de óleo, que deixa um farelo de excelente qualidade (44% de proteína) como resíduo para alimentação animal. Os restantes 10% são empregados na alimentação de pássaros ou como ótima silagem (30% de proteína) para alimentação de bovinos. Além disso, as flores do girassol, que despertam o inusitado interesse de fotógrafos amadores nas plantações, são excelente matéria-prima para as abelhas produzirem mel, ao mesmo tempo que a polinização das flores contribui para o aumento da produtividade.

Do ponto de vista agronômico, o girassol é considerado uma boa alternativa de segunda safra após a colheita da soja na região do Cerrado, mas o milho e o algodão têm apresentado um melhor benefício econômico-financeiro, ganhando a preferência do agricultor. Seu uso como potencial lavoura para rotação ou sucessão com outras culturas visa reduzir os problemas fitossanitários relacionados ao cultivo repetido de uma mesma espécie de planta na mesma área. Além disso, o girassol é reconhecido por beneficiar a cultura em sucessão, por extrair nutrientes das camadas mais profundas do solo e deixá-los disponíveis para a próxima lavoura. Pesquisas mostraram rendimentos adicionais de 15% a 20% para o milho e de 10% para a soja, quando cultivados após o girassol.

Conforme informações do setor produtivo, a principal limitação para um avanço significativo da cultura no Brasil reside na falta de um mercado sólido para os produtos gerados a partir do grão. As indústrias demandam praticamente a mesma quantidade de girassol todos os anos. Para poder absorver a produção gerada pela eventual expansão da área cultivada, necessitariam ampliar seus negócios e sua capacidade de processamento da cultura, Assim, mesmo que se tenha uma boa perspectiva de lucro por hectare, o produtor atualmente não poderia produzir mais girassol, porque a demanda é praticamente inelástica.

A baixa atratividade mercadológica faz com que existam menos pesquisas agronômicas relacionadas ao girassol, comparando com culturas como soja, milho, arroz, feijão, algodão e trigo. Nesse contexto, tem-se uma menor geração de tecnologias, conhecimentos e práticas de manejo para o girassol, o que impacta negativamente no manejo da cultura, de tal forma que a produtividade (média nacional de 1.200 kg/ha), apesar de próxima àquela alcançada pelos principais países produtores, seja muito oscilante, com baixa estabilidade produtiva.

Um aspecto fundamental e que se torna um desafio para o avanço bem sucedido do girassol é que as indústrias esmagadoras do grão devem estar próximas às áreas de cultivo, pois é proibitivo transportá-lo em longas distâncias, em função do seu baixo peso específico. Vale ressaltar, ainda, a dificuldade de cultivar o girassol em pequenas plantações isoladas, por causa do intenso ataque de pássaros na fase de colheita.

Diante do cenário descrito, o sucesso do girassol no Brasil depende obrigatoriamente do crescimento do setor agroindustrial nacional. Adicionalmente, serão necessários avanços de pesquisa e o seu cultivo precisará ser feito adequadamente dentro de critérios técnicos, para garantir a produtividade na segunda safra, gerando oportunidade e renda para o agricultor. Para fazer parte do rol das principais culturas agrícolas do País, há ainda uma longa estrada a ser trilhada pelo girassol.

Amélio Dall’Agnol e Regina Maria Villas Bôas de Campos Leite, pesquisadores da Embrapa Soja