Canola

Biodiesel abre novo horizonte à canola no Paraná


Gazeta do Povo - 11 set 2012 - 10:54 - Última atualização em: 11 set 2012 - 14:25
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Considerada a “soja de inverno”, a canola ensaia nova expansão nos campos do Paraná nos próximos anos. Interessadas na oleaginosa para produção de biocombustível, as indústrias estão desenvolvendo programas de fomento junto aos produtores paranaenses. O objetivo é alcançar, no mínimo, 100 mil hectares de canola para viabilizar o início da fabricação de biodiesel – hoje a oleaginosa atende o mercado de óleo de cozinha.

Condições para que essa meta se concretize não faltam, dizem técnicos e produtores. “O preço acompanha a cotação da soja e o investimento necessário no campo é baixo. É uma cultura com potencial que dá um bom retorno”, avalia o agrônomo Sérgio Eusich, da Cooperativa Witmarsum, nos Campos Gerais.

De acordo com os dados da Secretaria Estadual da Agricultura e do Abastecimento (Seab), a área plantada com canola aumentou 300% nas últimas cinco safras, saltando dos 3,9 mil hectares na temporada 2007/08 para 11,6 mil hectares na safra passada – houve queda de 15% em relação a safra 2010/11 (veja quadro), num ambiente de competição direta com o milho sobrevalorizado.

A produção da oleaginosa teve crescimento ainda mais substancial (370%). São 20,8 mil toneladas na colheita atual, que segue até outubro, contra apenas 5,6 mil na de 2007.

Incentivo
A BSBios é uma das empresas que desenvolve trabalho de fomento junto aos produtores paranaenses de canola. A empresa opera há um ano uma usina de biodiesel em Marialva, norte do Paraná, mas vem usando soja como matéria-prima. A expectativa, no entanto, é usar o grão de inverno, quando a produção aumentar substancialmente. Por enquanto, o material recebido é repassado à indústria de alimentos.

“A melhor relação para substituir a soja no processo de produção do biodiesel é a canola. O grão de soja tem 20% de óleo, enquanto o de canola tem 40%”, relata o direto operacional da BSBios, Carlos Gaspar.

O programa da indústria consiste em oferecer o pacote técnico de assistência ao produtor e garantir a compra de 100% da produção, ao preço da soja. Segundo Gaspar, o trabalho tem obtido ótimos resultados e o número de agricultores aderindo à cultura é crescente.

“A cultura passou a ocupar as terras dos produtores que a deixam arada no inverno. Olhando o que estamos fazendo e as outras empresas do setor, a área de canola pode chegar a 21 mil hectares na próxima safra”, prevê Gaspar. Além do Rio Grande do Sul, onde a BSBios tem uma unidade em Passo Fundo, o programa também abrange produtores do Mato Grosso e São Paulo.

Mercado
A perspectiva de aproveitar a área que ficava “descansando” para incrementar a renda foi o que atraiu o produtor Marvin Epp, de 70 anos, para a canola. Ele está prestes a colher a sua quarta safra na fazenda em Palmeira, nos Campos Gerais.

“Fiquei sabendo do interesse das empresas que falavam em transformar a canola em biodiesel pela cooperativa [Witmarsum]. Como no inverno sobra área, resolvi experimentar”, conta. “A gente está pegando o jeito, testando para melhorar. Mas é uma boa alternativa. Quando comecei há quatro anos, vendi a saca por US$ 13 dólares. Hoje está US$ 45”, complementa.

Nos 95 hectares que destinou a cultura, o descendente de alemães projeta colher perto de 2 mil quilos por hectare – a média estadual na última temporada foi 1,7 mil. Ele espera vender a produção ao preço recorde da soja. 

Grão compete com pastagem, trigo e milho
Mesmo com o crescimento de área e produção nas últimas safras, a canola ainda tem um longo caminho a percorrer no Paraná. As tradicionais culturas de inverno – milho safrinha e trigo – ainda são as principais opções dos produtores paranaenses.

Prova disso é a queda da área de plantio da oleaginosa na última safra, segundo dados da Secretaria Estadual da Agricultura e do Abastecimento (Seab). Cerca de 11,6 mil hectares foram destinados a cultura em 2011/12 enquanto a área foi de 13,4 mil hectares na temporada 2010/11.

“A canola perdeu área para o milho, que está em bom momento”, explica o economista do Departamento de Economia Rural (Deral) da Seab, Marcelo Garrido. Esse quadro limitou as perspectivas da cultura no oeste e no sudoeste do Paraná, onde vinha sendo registrada forte expansão.

Em relação ao trigo, a falta de liquidez dos últimos anos tem desanimado muitos triticultores, o que abre espaço à canola. “Nós estamos pegando carona nesse momento ruim do trigo e focando nos produtores que estão deixando a terra parada. O custo da canola é baixo e o preço pago é igual ao da soja”, aponta o direto operacional da BSBios, Carlos Gaspar.

Pastagem
Para o agrônomo Sérgio Eusich, da Cooperativa Witmarsum, o principal adversário da canola nos Campos Gerais são as pastagens usadas na pecuária leiteira. Como a região tem forte tradição na produção de leite, os agropecuaristas precisam de vantagens concretas para rever o uso da terra. “Aqui a cultura é de bacia leiteira e as áreas viram pastagem no inverno. O pessoal ainda está despertando para cultura e a tendência é que a coisa mude”, diz.
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Carlos Guimarães Filho e Igor Castanho
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