Conferência BiodieselBR 2021

S&P Global Platts: Bússola dos preços


BiodieselBR.com - 28 out 2021 - 14:10

A S&P Global Platts vem acompanhando há mais de um século o comportamento – não raro errático – dos mercados de commodities e energia. Tendo seus principais escritórios em Londres, Houston e Singapura a companhia conta com uma rede de especialistas espalhada pelo globo por meio da qual coleta informações sobre preços que permitem que seus clientes possam navegar com desenvoltura por águas quase sempre turbulentas.

Para entender melhor como a empresa tem olhado para as perspectivas dos fatores de precificação do biodiesel no Brasil, BiodieselBR.com conversou com Nicolle Monteiro de Castro que atualmente ocupa o posto de especialista sênior de preços da S&P Global Platts.

BiodieselBR.com – Nos últimos meses, os óleos vegetais têm vivido um rally. Que fatores vêm sustentando este ciclo de altas?

Nicolle Monteiro de Castro – Com certeza, podemos destacar os preços das matérias-primas. Considerando que o biodiesel do Brasil tem 70% de óleo de soja na composição, qualquer movimento de preço na soja ou no subproduto óleo, vai ter um impacto direto no biodiesel. E, pelo que temos acompanhado, os preços da soja e seus derivados tiveram uma alta expressiva tanto Bolsa de Chicago quanto, por se tratar de um mercado internacional, no Brasil e no restante do mundo.

BiodieselBR.com – E não tem para onde fugir. Os outros óleos também estão em alta...

Nicolle Monteiro de Castro – Sim! O óleo de palma e de girassol também subiram muito. Na Platts, temos a publicação de preços de biodiesel na Ásia, na Europa e nos Estados Unidos quando colocamos todos em um gráfico é possível ver que eles subiram praticamente na mesma proporção. Não foi o Brasil que teve um descolamento dos preços do biodiesel, estamos falando realmente de uma orientação internacional.

BiodieselBR.com – Além da alta nos óleos temos o câmbio pressionando os preços. Qual tem sido o peso desse segundo fator?

Nicolle Monteiro de Castro – É muito relevante. De fato, o Brasil é exportador líquido de matérias-primas e temos um câmbio que vem encorajando a exportação o que diminui a disponibilidade do produto no mercado interno. A questão cambial tem sido deixada de lado quando se discute o preço dos combustíveis no país. O impacto da forte depreciação que tivemos do real não está sendo discutida. Quando se olha para os preços do petróleo, o custo do barril voltou para o range entre US$ 70 e US$ 80 onde estava antes da pandemia. Já o real nunca mais voltou ao patamar que tinha antes da pandemia. Tirando alguns dias no final do ano passado, o câmbio vem se mantendo perto da faixa dos R$ 5,20 desde março passado. Com alguns picos. E quando você olha para o cenário político do próximo ano e para as incertezas que rodeiam as contas públicas é muito provável que tenhamos um câmbio mais depreciado.

BiodieselBR.com – O governo brasileiro vem promovendo cortes na mistura obrigatória de biodiesel. Como isso afeta a dinâmica dos preços das matérias-primas?

Nicolle Monteiro de Castro – O governo tem feito esses ajustes desde o ano passado. E tem de fato trazido muitas incertezas ao mercado, algo muito negativo para que o setor produtivo continue investindo em novas fontes de matéria prima e capacidade produtiva, dois fatores fundamentais para ampliar oferta e reduzir custo do biodiesel. Isso causa um problema de previsibilidade setorial porque há um reajuste em termos de alocação de matéria-prima que, às vezes, não pode ser feito em cima da hora. As empresas decidem antecipadamente quanta soja vai para exportação e quanta para produção de óleo e tiveram que reestruturar sua política de matérias-primas.

BiodieselBR.com – Nos últimos meses temos visto grandes players do setor de petróleo entrando no mercado de biocombustíveis, especialmente na produção de HVO. Como isso tende a afetar o mercado no longo prazo?

Nicolle Monteiro de Castro – De fato, estamos acompanhando uma evolução bem rápida do mercado de HVO. Especialmente Estados Unidos. Porém, quando a gente olha para o Brasil, isso ainda não está acontecendo. Em primeiro lugar, porque o marco regulatório ainda está sendo desenhado. Não sabemos como o diesel verde vai entrar na matriz energética brasileira. Se ele, por exemplo, vai ou não concorrer com o biodiesel para o cumprimento do mandato de mistura.

BiodieselBR.com – O diesel verde, deixou de ser uma novidade para se tornar uma alternativa consolidada. Como esse movimento deve afetar o espaço ocupado pelo biodiesel?

Nicolle Monteiro de Castro – Recentemente, começamos a nos questionar aqui na Platts se vamos ver o HVO assumindo o papel de um etanol hidratado que pode ser vendido puro enquanto o biodiesel fica na mistura. Acreditamos que essa poderia ser uma opção para uma política energética no Brasil. Mas, como disse acima, ainda estamos engatinhando nesse processo de definição sem o qual fica inviável estimar qual vai ser o tamanho desse novo segmento e de que forma ele vai competir com o biodiesel.

BiodieselBR.com – O crescimento do HVO poderia pressionar os preços das matérias-primas no longo prazo?

Nicolle Monteiro de Castro – Isso também vai depender muito de como a política vai ser desenhada. Mas, se tivermos uma política pública que incentiva o uso de mais um biocombustível, podemos ter um impacto de alta no custo da matéria-prima que será demandada. Quando falamos em HVO também estamos falando do óleo vegetal. Então, veremos uma concorrência entre biodiesel e HVO por matéria-prima.

BiodieselBR.com – E segmento agrícola está preparado para aumentar a oferta de matérias-primas para o setor de biocombustíveis?

Nicolle Monteiro de Castro – A expectativa tenhamos uma maior produtividade. Temos vários estudos na Embrapa de melhoramento genético e melhoria na utilização do solo com o objetivo de ter um melhor rendimento. Isso é algo que a gente vem acompanhando ao longo da última década e eu acredito que a agroindústria do Brasil vai continuar evoluindo muito nessa direção de ter maior produtividade dentro da mesma área. Por outro lado, temos uma conjuntura climática problemática no globo como um todo que pode vir a afetar diretamente o agronegócio. É por isso, aliás, que o assunto biocombustível é tão relevante

BiodieselBR.com – E os esforços para a diversificação de matérias-primas?

Nicolle Monteiro de Castro – Para que tenhamos investimentos na diversificação de matérias-primas dos biocombustíveis, a indústria demanda políticas públicas muito claras e capazes de gerar previsibilidade. Sem expectativa de demanda, não há investimento. É onde eu trago novamente a questão da falta de previsibilidade que foi gerada nos últimos 18 meses e que pode, inclusive, represar possíveis investimentos. Como é que alguém vai fazer esse tipo de investimento de longo prazo em um país cujo mandato foi reduzido sem qualquer previsibilidade? Um mandato não pode ser reduzido em função de questões conjunturais de preço. Primeiro temos que resolver essa questão da previsibilidade para, aí sim, termos uma discussão mais eficiente sobre a ampliação na oferta de matérias-primas.

BiodieselBR.com – Que matérias-primas alternativas poderiam ser desenvolvidas no país?

Nicolle Monteiro de Castro – Uma das políticas públicas que poderiam ser aplicadas e que seriam, inclusive, benéficas para outros segmentos, seria no aproveitamento de óleo de cozinha usado. O óleo de cozinha é uma das principais matérias-primas na Europa, mas, aqui no Brasil, ainda tem um share mínimo. Se tivéssemos políticas públicas nos âmbitos federal, estadual ou municipal que orientasse uma política de resíduos e estimulasse a coleta de óleos e gorduras, teríamos dois problemas resolvidos ao mesmo tempo

BiodieselBR.com – A comercialização de biodiesel está para sofrer uma verdadeira guinada com o fim do sistema de leilões. Como essa mudança pode vir a afetar os preços do biodiesel no mercado brasileiro?

Nicolle Monteiro de Castro – Ainda não temos uma resposta clara para essa pergunta. O mercado vai sair de um mercado de leilão bimestral no qual você tem um preço máximo colocado como referência e total visibilidade de oferta. Dessa forma, as usinas ajustam seus preços sabendo o tamanho da oferta de seus concorrentes. A proposta da ANP modifica totalmente essa dinâmica setorial. As usinas já não conseguiriam mais saber quanto seus vizinhos estão ofertando. Muito possivelmente isso criaria um mercado mais competitivo, mas ainda não temos como confirmar isso.

BiodieselBR.com – Por ‘mercado mais competitivo’ podemos entender que teremos preços mais baixos?

Nicolle Monteiro de Castro – Um mercado mais competitivo pode, de fato, trazer uma movimentação de preços mais favorável ao consumidor. Mas precisamos voltar à premissa de que o custo do biodiesel é altamente correlacionado ao do óleo de soja. Logo, não é possível confirmar que o biodiesel vá ficar mais barato só porque teremos um novo ambiente de negociação.

BiodieselBR.com – Sem os leilões o mercado biodiesel tende a ficar mais opaco? Como a Platts pensa em atuar nesse segmento?

Nicolle Monteiro de Castro – Tudo vai depender do modelo de precificação que o mercado vai adotar como referência. Não queremos que o mercado fique menos transparente com o fim dos leilões o que poderia causar assimetrias de informação. Pelo contrário. Queremos que o mercado tenha mais transparência e liquidez. E a Platts é uma agência reportadora de preços com mais de cem anos de expertise na precificação de commodities e energias, temos metodologias capazes de refletir toda a heterogeneidade das negociações do mercado spot. Vamos colocar no mercado
uma metodologia clara para precificar o biodiesel no mercado brasileiro que trará mais transparência e segurança.

Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com