[Conferência 2015] As matérias-primas do biodiesel
O painel 5 da Conferência BiodieselBR 2015 falou a respeito das perspectivas de fornecimento de matérias-primas para o setor.
BiodieselBR.com ··6 min de leitura
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Sempre que alguém sugere aumentar o uso de biodiesel, imediatamente alguém começa a fazer contas para tentar determinar se teremos a quantidade de matéria-prima necessária para fazer frente ao aumento na demanda. Com mais uma rodada de aumentos de mistura e o mercado autorizativo a caminho, dessa vez não seria diferente. Por isso, a Conferência BiodieselBR 2015 incluiu um painel para falar a respeito das perspectivas de fornecimento de matérias-primas para o setor com as presenças do coordenador de agroenergia do MAPA, Tiago Giuliani, e o gerente técnico da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra), Lucas Cypriano.
Sempre que alguém sugere aumentar o uso de biodiesel, imediatamente alguém começa a fazer contas para tentar determinar se teremos a quantidade de matéria-prima necessária para fazer frente ao aumento na demanda. Com mais uma rodada de aumentos de mistura e o mercado autorizativo a caminho, dessa vez não seria diferente. Por isso, a Conferência BiodieselBR 2015 incluiu um painel para falar a respeito das perspectivas de fornecimento de matérias-primas para o setor com as presenças do coordenador de agroenergia do MAPA, Tiago Giuliani, e o gerente técnico da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra), Lucas Cypriano.
Segundo Giuliani, embora o setor de biodiesel tenha avançado de forma relativamente rápida em outras frentes, na de matérias-primas ele ainda patina. Prova disso é a relação entre o custo da matéria-prima em relação ao preço do produto final que pode chegar a 90% – no setor de etanol, por exemplo, essa relação está em 60%. Esse é um desafio particularmente agudo para aumentar a sustentabilidade do modelo de negócios das usinas. “Os ganhos [de competitividade] estão nas matérias-primas, na fase industrial eles são muito pequenos”, aponta.
Não significa, necessariamente, que tenhamos que esperar o surgimento e consolidação de uma alternativa à soja – tarefa que vem se mostrando bastante elusiva ao longo de todos esses anos de PNPB. Para o representante do MAPA seria possível avançar bastante simplesmente melhorando as condições de escoamento da produção de soja. “No ministério termos a Câmara Temática de Logística onde a maior reclamação é o pareamento de preços entre os modais rodoviário e ferroviário”, destaca.
Balanço
Cara ou barata, o governo federal diz ter pouca dúvida sobre a disponibilidade física de matérias-primas para sustentar a produção da indústria brasileira. O problema, segundo Giuliani, é se esse material-estaria efetivamente disponível para a indústria. “Temos muita facilidade na exportação de soja o que poderia se tornar um problema para a produção de biodiesel”, resume o servidor.
Por isso, o MAPA criou um grupo de trabalho para acompanhar especificamente a questão da disponibilidade, fatorando os efeitos como o câmbio, demanda do mercado externo e nível de processamento interno especialmente da soja. “Esse é um acompanhamento que precisa ser feito pelo governo”, explica. Ao menos por enquanto a situação é de tranquilidade, mas que isso pode mudar o que poderia, num caso extremo, até justiçar uma eventual importação de biodiesel. “Se precisar, importaremos biodiesel como já fazemos com etanol”, completa.
Diversificação
Além de tentar encontrar formas de baratear as matérias-primas principais da indústria, o Ministério da Agricultura acompanha o desenvolvimento das cadeias produtivas das chamadas matérias-primas marginais – as que já têm sistema produtivo estabelecido, mas que ainda não contam com cadeias bem estruturadas. Não seria preciso nem caminhar para algo muito exótico. Guiliani aponta que, até hoje, o setor de biodiesel aproveita relativamente pouco do caroço de algodão disponível no mercado brasileiro.
Também há espaço para aumentar a oferta de sebo bovino. Cypriano conta que vem avançando uma iniciativa que vai permitir o recolhimento e reciclagem de carcaças de animais que morrem naturalmente antes do abate. “Só com isso temos o potencial de aumentar a oferta de gordura animal em 340 mil toneladas que, hoje, são descartadas”, afirma o executivo da Abra. Há entraves legais como, por exemplo, regras que exigem a incineração desses animais. Além disso, o segmento de reciclagem vive um ciclo de investimentos que permitirá uma separação mais eficaz das gorduras.
Fora isso, o Brasil tem apresentado um crescimento muito robusto na oferta de carnes. A produção se multiplicou por 14 desde os anos 1960 e tem tudo para continuar crescendo de forma acelerada em praticamente todos os ramos desse mercado puxado principalmente pela continuação no ciclo de expansão do consumo de proteínas animais no mundo. “A primeira coisa que alguém que só come arroz faz ao ter um pouco mais de renda é colocar carne no prato. E ainda tem muita gente na Índia e na China comendo só arroz”, elabora.
Isso abre um espaço para que mais gorduras animais sejam destinadas às usinas de biodiesel, até porque outros mercados consumidores tradicionais – como o de saboaria – estão perdendo espaço. Em apenas quatro anos, a demanda do biodiesel foi de 17,2% da oferta de gorduras para 38,2%.
Contudo, ele alerta que a oferta de gordura animal tem suas limitações. Primeiro porque ele é um rejeito da indústria de carnes que, compreensivelmente, vai agir ativamente para minimizar sua produção e “aproveitar ao máximo as carcaças”. Fora isso, ele pode vir a ter usos mais nobres do que a produção de biodiesel. “Embora no Brasil o sebo seja tratado como um insumo industrial, em outros países ele pode ir para a alimentação humana”, complemente.
O crescimento da demanda por gordura do próprio setor de rações tem superado o aumento da oferta o que pode reduzir a disponibilidade final desde insumo.
Alternativas
Já no que diz respeito a outras fontes de óleo, as perspectivas podem não ser tão imediatas. O setor de biodiesel sabe, por experiência própria, que viabilizar uma dessas alternativas não é tarefa simples. O caso da mamona foi exemplar nesse sentido.
Vedete dos primeiros tempos do PNPB, a mamona acabou se revelando uma frustração por diversos motivos. “Mesmo que a gente consiga resolver todas as questões técnicas e mudar a cultura do produtor rural do Norte e Nordeste (...) que é um sujeito conservador porque, se uma safra falhar, ele vai falir; o preço internacional do óleo de mamona não justifica a produção de biodiesel”, elenca.
Pesquisa
Mesmo com menos entusiasmo – e mais realismo – do que em anos anteriores, o setor continua procurando por sua bala de prata. Uma matéria-prima que, finalmente, reduza a dependência do setor em relação à soja.
Guiliani destaca que as pesquisas na área estão avançando, mas que o processo é necessariamente lento e os recursos para a área acadêmica tem estado mais escassos.