Energia

O futuro renovável


Correio Brasiliense - 13 jun 2006 - 20:15 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:22

Investimento na diversificação da matriz energética e em alternativas para o petróleo puseram Brasil na vanguarda mundial. País aposta no desenvolvimento do biodiesel para manter posição estratégica.

As apostas na energia renovável, como a hidrelétrica e os combustíveis derivados de cana, fizeram com que, em 20 anos, o Brasil ocupasse um lugar muito peculiar em comparação com os demais países do mundo. Hoje, temos 44,7% de nossa matriz fincada em energia capaz de ser renovada. Na média mundial, esse percentual está em 13,5%. Entre os países desenvolvidos, a participação dos renováveis é metade da média global.

“O Brasil está com uma matriz energética ímpar no mundo”, afirma o secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann. “Não somos só o país do futebol. Somos um exemplo para o mundo, principalmente para os países desenvolvidos”, acrescenta. E essa confortável posição à frente dos outros países traz vantagens para o Brasil tanto no mercado interno, quanto no externo. “Nós estamos alterando a matriz energética do Brasil fortemente e temos a possibilidade real de alterar a matriz mundial”, profetiza o diretor de Gás e Energia da Petrobras, Ildo Sauer.

Em tempos onde o petróleo está na faixa de US$ 70 o barril, ter outras opções para gerar energia é absolutamente estratégico. Com uma matriz diversificada, o país fica mais protegido também contra surpresas externas, como a que aconteceu há alguns meses com a nacionalização do gás boliviano. Na prática, o abastecimento do mercado interno de combustíveis torna-se mais seguro, assim como a própria geração de energia elétrica do país.

No campo externo, o Brasil também pode tirar proveito dessa variedade. O avanços nos estudos sobre biodiesel são a aposta brasileira para manter a liderança estratégica e transformar o país em um grande exportador de combustíveis renováveis. “O Brasil pode ser o que é a Arábia no petróleo ou a Rússia no gás. Ele é a próxima Cinderela dessa tragédia ou desse sucesso”, acredita Ildo Sauer.

Plantando petróleo

Nos últimos anos, o país passou a investir na entrada de novos combustíveis feitos a partir de plantas oleaginosas. Com uma forte bandeira social, o programa do biodiesel tornou-se conhecido entre pequenos produtores no Brasil e ampliou as culturas de produtos como a mamona, a palma, o dendê e o babaçu. Mas, por trás disso, existe um importante papel do programa na melhoria da qualidade dos combustíveis produzidos no Brasil e na redução do uso do petróleo de nossas reservas. “Hoje em dia, o produtor de soja, girassol, dendê, mamona está plantando petróleo”, afirma Sauer.

A Petrobras virou ferramenta fundamental nessa reviravolta energética. Além de viabilizar o biodiesel, comprando a produção dos pequenos agricultores a preços internacionais, agora a estatal irá investir em novas tecnologias de aproveitamento dos óleos vegetais. O carro-chefe é o H-Bio, anunciado há menos de um mês. A técnica consiste na mistura, em princípio, de óleo de soja ao petróleo ainda na refinaria. Essa fusão gera combustíveis mais limpos e eficientes. A notícia agradou de pronto os sojicultores, que terão agora um mercado cativo de venda do produto.

Sauer, porém, ressalva a importância de se olhar o lançamento do H-Bio em conjunto com o pacote do biodiesel. “É a primeira vez que se abre oportunidade para os produtores grandes e pequenos ganharem juntos”, relembra.

Custo-benefício

Apesar das vantagens, muitos possuem ressalvas sobre os investimentos feitos no programa de energia renováveis. O setor elétrico, por exemplo, questiona se o momento é realmente propício para essas mudanças e se essa alteração na matriz energética não acabará sendo paga por todos os contribuintes. “A gente tem que fazer uma conta. Se vale investir nessas alternativas ou explorar fontes mais baratas para depois construir o futuro”, pondera o presidente da Associação Brasileira dos Agentes Comercializadores de Energia Elétrica (Abraceel), Paulo Pedrosa, que já foi membro da diretoria da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

O atual diretor-geral da reguladora, Jerson Kelman, acredita no potencial do uso da biomassa no Brasil, inclusive na geração da energia. Porém, lamenta que o país ainda tenha tantas dificuldades de investir na mais barata fonte renovável de energia elétrica: a hídrica. “Na medida em que a construção de hidrelétricas passa a sofrer obstáculos, tanto ambientais quanto sociais, estamos sendo empurrados para um paradoxo, que é seguir sempre para uma opção mais cara”, explica o diretor.

O Ministério de Minas e Energia, por sua vez, garante que história do álcool se repetirá e, em breve, o biodiesel será produzido em escala suficiente compensar os investimentos. “Quando a gente começou a produzir cana, a produtividade era baixíssima. Hoje o álcool é uma commodity. Por isso, eu tenho certeza que o biodiesel vai crescer muito no Brasil”, aposta Márcio Zimmermann.

BB investe na força dos ventos

Começa a funcionar ainda este mês no Rio Grande do Sul a segunda maior usina eólica do mundo. Construído no município de Osório pela empresa Ventos do Sul Energia S.A., o empreendimento terá capacidade para gerar 150 MW, o suficiente para abastecer uma cidade de 300 mil habitantes. A um custo total de R$ 670 milhões, o projeto foi todo estruturado pelo Banco do Brasil (BB), que juntamente com outras seis instituições, incluindo o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), emprestou R$ 465 milhões — sozinho, o BB desembolsou R$ 100 milhões, ou 21% do total.

Os recursos foram aplicados dentro das linhas de financiamento para projetos de investimentos. Trata-se de uma operação de Project Finance, que fornece crédito para novas operações de uma empresa ou investidor. “O projeto precisa ser auto-sustentável”, explica o diretor comercial do Banco do Brasil, Sandro Kohler Marcondes. “Fizemos toda a modelagem financeira do projeto, a estruturação da operação e o empréstimo, em conjunto com os demais bancos.” Também coube ao BB a negociação com os credores interessados em participar.

Ao longo de todo o ano passado, o BB desembolsou R$ 543 milhões para quatro projetos de Project Finance, todos na área de energia. Em 2006, já foram contratados mais R$ 215 milhões. Além do parque eólico de Osório, estão sendo financiadas três pequenas centrais hidrelétricas (PCHs). O projeto da Ventos do Sul, que já conquistou um prêmio da revista Euro Money, concorre agora à premiação do tradicional jornal inglês Financial Times, na categoria negócio financeiro com energia sustentável do ano. “Esses prêmios são importantes porque mostram ao mundo que aqui no Brasil há respeito ao meio ambiente”, diz Allan Toledo, gerente-executivo da Diretoria Comercial do BB.

Nova fonte no agronegócio

O Brasil acredita que pode ensinar ao mundo como extrair do campo — de forma barata e segura — a energia que o progresso tanto precisa. Com 140 milhões de hectares de área adicional agricultável, tecnologia própria e mão-de-obra disponível, o país não vê à sua frente adversários capazes de ameaçá-lo. Tantas vantagens têm despertado a curiosidade e o interesse de nações como Coréia do Sul, Japão, Estados Unidos, Reino Unido, França e Canadá.

Empresários e governos desses países procuram oportunidades e parcerias que resultem na produção — em território nacional ou no exterior — de energia a partir de cana-de-açúcar e do processamento de oleaginosas (mamona, dendê (palma), soja, girassol, algodão e amendoim). Entusiasta convicto, o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, tem se envolvido pessoalmente nas negociações. “A civilização do petróleo ainda não desmoronou, mas seus alicerces começam a tremer e estamos construindo um novo, de uma nova civilização, com base na agricultura energética, com base na biomassa”, resumiu o ministro a uma seleta platéia, em abril, no auditório da Embrapa.

De olho nos investimentos, o agronegócio brasileiro vislumbra o início de um círculo virtuoso sem precedentes. Razões para isso não faltam. Os coreanos, por exemplo, estudam adquirir destilarias de álcool e açúcar que vão processar a cana plantada em pequenas propriedades. O combustível tem endereço certo: Seul. Nos últimos cinco anos, as exportações para a Coréia do Sul cresceram 200% e o país asiático transformou-se no 16º mercado de destino das exportações nacionais.

Com os Estados Unidos, o Brasil iniciou conversas para viabilizar a exportação de álcool até 2015. Roberto Rodrigues apresentou ao governador da Flórida, Jeb Bush, uma proposta para vender 20 bilhões de litros de etanol por ano — quatro vezes a produção brasileira. O plano chegou ao presidente americano George W. Bush, que gostou e deve enviar uma missão ao Brasil até o fim do ano.

Outras parcerias estão mais adiantadas. Preocupados em diversificar suas fontes energéticas, e em busca de fornecedores internacionais confiáveis, os japoneses estão dispostos a investir em etanol e biodiesel. O primeiro passo será a assinatura, em outubro, de um contrato de R$ 1,28 bilhão entre o governo brasileiro e o Japan Bank Internacional Cooperation (JBIC) para custear a pesquisa e a fabricação dos combustíveis em solo nacional. O dinheiro será usado na difusão, capacitação de pessoal e gestão do programa, financiamento de produtores de cana-de-açúcar e instalação de novas usinas geradoras de energia a partir de biomassa, provavelmente, no Nordeste e no Norte. As primeiras liberações vão começar em abril de 2007.

Pool

Rodrigues, o governo e os empresários sabem que, sozinho, o Brasil não atingirá os objetivos comerciais que espera e necessita. A entrada de capital estrangeiro no segmento dos combustíveis alternativos depende da capacidade brasileira de dizer ao mundo que o país almeja ser um fornecedor robusto, mas não o único. Para o mercado internacional, essa é uma sinalização importante, pois garante opções ao comprador externo e ajuda a equilibrar o mercado.

Mesmo não se beneficiando de forma direta, o Brasil pode lucrar incentivando a implantação da indústria energética limpa e renovável em outros países — tão ou mais pobres. Projetos na África e na América do Sul, capitaneados por França e Reino Unido, baseiam-se no modelo desenvolvido no Sudeste, Norte e Nordeste. Com recursos estrangeiros, e o apoio brasileiro, pelo menos 20 países tropicais estariam aptos a abastecer o mundo, garantido segurança e regularidade ao fornecimento.

Produtor quer extensão de vantagens

Começa a ganhar força entre os grandes produtores a tese de que o governo precisa estender os incentivos concedidos à mamona também a outras matérias-primas. Quem planta mamona conta com vantagens tributárias e fiscais e a Petrobras compra todo o biodiesel produzido pelos agricultores familiares inscritos no programa federal.

Em escala mundial, enquanto a produção do óleo de mamona estacionou nos últimos 10 anos, a quantidade extraída por hectare plantado de dendê (palma) ou de soja cresceu entre 50% e 100%. “O óleo da mamona tem utilização restrita. O preço é alto e por isso foram criados substitutos sintéticos”, explica Marcello Brito, diretor comercial do grupo Agropalma, maior produtor de óleo de palma do país.

A opção do governo estaria inibindo novos investimentos. Sem as mesmas garantias dadas à mamona — que é produzida em escala quase artesanal — os empresários preferem esperar que um gesto político mude o rumo do programa de incentivo ao biodiesel. “Basear um projeto dessa magnitude só na agricultura familiar é uma utopia. Se a proposta tiver só o foco social não vai dar certo, assim como se tiver só o foco energético”, completa o especialista.

Apesar de não dar pistas de que pretende mudar o foco, o governo sinalizou que pode atuar junto aos agroempresários. Ao anunciar o H-Bio — feito da mistura de óleos vegetais ao petróleo, antes do refino — a Petrobras comprará parte da produção de soja. Com isso, o governo espera elevar a cotação dessa commodity e agradar os ruralistas. (LP)

Acordos flexíveis com estrangeiros

Ainda não há um modelo de negócios pronto e definitivo escolhido para balizar as relações do Brasil com o investidor estrangeiro. Quem manifesta interesse em produzir energia de biomassa discute com a iniciativa privada e o Ministério da Agricultura o que ajuda ou atrapalha a implantação dos projetos.

Sob a perspectiva de resultados, a ausência de um padrão aplicável a todos garante maior flexibilidade aos acordos. A fórmula tem sido elogiada pelos estrangeiros. Para o Brasil, também há vantagens. A principal delas é poder diversificar a aplicação dos recursos externos que chegam para custear plantações, usinas ou destilarias.

O governo tem estudado com mais atenção propostas que repercutem em investimentos diretos na produção, mas nem sempre isso acontece. Como alternativa, o país coloca sobre a mesa propostas de transferência de tecnologia ou acesso à capital humano especializado — governo e iniciativa privada atuam em conjunto. Com essa abertura, o número de potenciais parceiros praticamente triplica. “Nenhuma possibilidade está esgotada. Temos interesse em atrair, mas queremos ajudar a formar essa indústria onde for possível”, justifica um especialista do governo. (LP)

Mariana Mazza | Marcelo Tokarski | Luciano Pires