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Amyris inicia produção de biodiesel de cana


DCI - 02 mai 2011 - 06:15 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:16

Com a intenção de concorrer no mercado de biocombustíveis no Brasil, a empresa Amyris, que inaugurou, na ultima semana uma unidade para produção industrial de diesel à base de cana-de-açúcar em Piracicaba (SP), já prepara investimentos para mais duas unidades no ano que vem. Além disso, a empresa norte-americana está em negociação com São Paulo e Rio de Janeiro para fornecimento do combustível para abastecer a frota pública de ônibus destas cidades. E planeja investir US$ 150 milhões para atender a futura demanda.

Desde julho do ano passado, a Amyris testa o biodiesel à base de cana-de-açúcar em alguns ônibus da cidade paulista. A fase de demonstração acabou em janeiro deste ano. Segundo Adilson Liebsch, diretor de Marketing da empresa, os resultados foram muito satisfatórios, tanto pela redução de gases tóxicos no ar quanto pela autonomia gerada pela biocombustível em comparação com o etanol.

Os testes mostraram uma redução média de até 30% na emissão de gases. "Os resultados nessa frota, que rodou 6 meses em São Paulo, mostraram que o parâmetro nomeado de opacidade, que é o grau de fumaça que sai do escapamento desses veículos, foi 30% menor em média. Além disso, a Mercedes-Bens fez testes no motor e notou que o nível de redução de materiais particulados, que muito mal fazem à saúde humana, foi de 9%, se comparado ao do diesel fóssil usado hoje", afirmou o executivo, com exclusividade ao DCI.

Com isso, a empresa de produtos químicos e combustíveis renováveis anunciou a conclusão da primeira planta em escala industrial de Biofene, que é a base para a produção do biodiesel da cana no estado paulista. Para isso foram investidos R$ 25 milhões a fim de garantir a produção de cinco milhões de litros de biodiesel por ano. Liebsch ressaltou que serão necessárias 100 mil toneladas de cana-de-açúcar. "Para suprir a demanda por matéria-prima, nós temos parcerias com as usinas São Martinho, Cosan, Bungue, Guarani e Paraíso para nos fornecer a cana necessária", comentou.

Segundo um plano diretor da cidade paulista, até 2018 toda a frota de ônibus da capital usará biocombustíveis, o que daria hoje 500 milhões de litros de diesel. As negociações com São Paulo estão avançadas e devem gerar uma grande demanda pelo diesel de cana nos próximos anos, segundo Liebsch. O diretor afirmou que para se preparar para este crescimento, investimentos de aproximadamente US$ 150 milhões serão aplicados em adaptações feitas em duas outras usinas paulistas: a San Martinho e a Paraíso. "No ano que vem devemos iniciar a produção na São Martinho e na Paraíso, no interior paulista. Essas duas unidades terão uma capacidade de produção de cerca de 150 milhões de litros por ano. Na verdade essa operação é uma forma de antecipar a produção industrial, mas ainda não está na escala que planejamos", disse Liebsch. A Amyris possui uma joint venture com as usinas San Martinho e Paraíso.

Outra cidade que também está negociando o uso do biodiesel com a empresa é o Rio de Janeiro, que possui uma demanda de 400 milhões de litros de combustíveis por ano para atender a sua frota de transporte público. Os testes devem começar ainda este ano. "Em um primeiro momento, o estado carioca será abastecido com a produção paulista, mas no futuro nada nos impede de produzir esse biodiesel em usinas cariocas", disse Liebsch. "Tudo dependerá da demanda. O Rio possui em torno de 10 mil ônibus rodando, que é um pouco menos que São Paulo, mas o consumo deles é bastante parecido com o paulista: algo em torno de 400 milhões de litros", confirmou.

Liebsch contou que o intuito da empresa, em um primeiro momento, é dedicar-se apenas ao abastecimento de frotas públicas com o biodiesel de cana-de-açúcar. "Não estamos pensando em expandir esse combustível para o público em geral, mesmo porque temos muito trabalho e demandas para atender com a frota pública. A abertura para o mercado em geral pode ser um segundo passo, mas estamos atacando onde a necessidade é emergencial. Mas a partir do aumento de escalas esse outro mercado passa a ser muito interessante", assegurou.

Demanda de cana
Para garantir a produção do biodiesel, a Amyris terá um problema para resolver. Na safra atual, o Brasil deve produzir 632 milhões de toneladas de cana, sendo que a necessidade atual para atender a demanda interna e externa é 23% maior, ou 775,6 milhões de toneladas. Segundo Marcos Jank, presidente da União da Indústria da Cana-de-açúcar (Unica), a produção de cana brasileira não será suficiente para garantir a produção de etanol e atender a demanda do mercado brasileiro a partir deste ano. Liebsch afirmou que isso não atrapalha os planos da empresa, pois, além das grandes usinas, a companhia ainda buscará mais parcerias para obter matéria-prima.

O executivo contou que o biodiesel de cana possui mais autonomia que o etanol, embora seja possível retirar menos litros por hectare de cana-de-açúcar. "Se pegarmos o etanol e o compararmos com o biodiesel de cana, em um hectare de terra se produzem 6 mil litros de etanol: isso será suficiente para fazer um ônibus andar de 5 mil a 7 mil quilômetros. Se pegarmos essa mesma terra e produzirmos diesel de cana, isso produzirá cerca de 4 mil litros, mas, como o diesel é muito mais eficiente, o ônibus rodará de 7,6 mil quilômetros a 9,5 mil. Ou seja, a cana necessária para abastecer os ônibus em São Paulo com diesel de cana será mais rentável, e a competição por cana será mais eficiente no uso do diesel", finalizou o diretor.