Univaldo Vedana

Biodiesel em contagem regressiva: 14 de janeiro de 2008


Univaldo Vedana - 03 set 2007 - 15:40 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:23

Estamos há menos de 150 dias para o início da obrigatoriedade da mistura de 2% de biodiesel ao diesel mineral, ou há mais de 885 dias da lei que regulamentou o biodiesel na matriz energética brasileira. E ainda alguns problemas graves de logística, distribuição e armazenamento estão pendentes de solução. Usinas de biodiesel não conseguem produção contínua por falta de armazenagem ocasionada pela não retirada do produto por parte das distribuidoras.

No início do ano de 2006 o problema de retirada de biodiesel nas usinas começou inclusive com troca de acusações, as usinas dizendo que as distribuidoras não estavam retirando e as distribuidoras afirmando que as usinas não tinham o biodiesel para entrega ou que o produto colocado a disposição não atendia os padrões de qualidade.

Já se passaram dezoito meses dos primeiros problemas e eles continuam até hoje. No relatório do segundo trimestre de 2007 a empresa Brasil Ecodiesel aponta a falta de retirada do produto por parte das distribuidoras que compraram biodiesel nos leilões como um dos problemas que causou a menor produção de biodiesel por falta de espaço de armazenamento e conseqüentemente fez aumentar o prejuízo da empresa no trimestre. 

É compreensível e até aceitável o biodiesel encontrar muitos problemas até conseguir se firmar como alternativa viável do campo ao tanque do consumidor final. O setor ainda não tem três anos de existência e apesar deste pouco tempo grandes avanços e conquistas aconteceram, erros também foram cometidos.

Temos hoje capacidade instalada de produção de biodiesel superior a 1,6 bilhão de litros por ano, conseguido em 30 meses a partir da lei 11.097 de janeiro de 2005. Esta capacidade de produção nos habilita a uma mistura de até 4% de biodiesel no diesel de petróleo. Porém, esta capacidade de produção não quer dizer produção efetiva de biodiesel. Existe um gargalo, ou melhor, um estrangulamento na oferta de matéria-prima não só no Brasil, mas em todos os países produtores de biodiesel. A Malásia e Indonésia são os maiores produtores de óleo de palma e o preço deste óleo inviabiliza a transformação em biodiesel, o mesmo acontece com o óleo de soja aqui no Brasil. Nos Estados Unidos, por enquanto as usinas conseguem produzir biodiesel com óleo de soja, graças aos subsídios. O mesmo acontece na Europa com o óleo de colza.

Voltando aos problemas brasileiros, a data de 14 de janeiro de 2008 para mistura obrigatória de biodiesel coincide com o pico da entre safra da soja. Nos próximos 90 dias as usinas de biodiesel precisam comprar ou contratar óleo de soja para produzir biodiesel a partir de dezembro em volumes três vezes maior do que está sendo produzido hoje. Dezembro e janeiro também são meses que muitas esmagadoras de soja param sua produção para a manutenção anual de suas indústrias, por isto a necessidade das usinas de biodiesel antecipar seus contratos de compra e receberem o óleo até o final de novembro.

Por outro lado, as usinas de biodiesel que anteciparem as compras de matéria-prima sem contratos de venda do biodiesel com preços definidos com as distribuidoras entram em situação de risco, pois não sabem qual é o preço que as distribuidoras estarão dispostas a pagar pelo produto.

Univaldo Vedana é analista do setor de biodiesel e responsável pela primeira fábrica de biodiesel do país abrangendo todo o processo de produção.