Paulo Anselmo Ziani Suarez

Metanol ou Etanol: algumas considerações


Paulo Suarez - 20 fev 2008 - 06:45 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:23

Na coluna deste mês gostaria de trazer uma discussão que tenho acompanhado desde que comecei a participar, em 2001, de discussões, seminários, encontros e palestras sobre biodiesel, além das reuniões do PNPB: qual deveria ser a rota tecnológica preferencial para o processo de transesterificação - etílica ou metílica? Pela tradição do Brasil na produção de álcool etílico e dependência externa do álcool metílico sempre houve uma tendência a se pensar que a rota etílica seria o caminho natural a ser seguido pela nossa indústria de biodiesel. No entanto, toda nossa comunidade sabe que a rota metílica parece dominar a nossa indústria biodiesel.

Inicialmente, vou colocar alguns dos vários argumentos contra o uso de álcool metílico. Em primeiro lugar, acredito que a principal desvantagem do metanol é a sua alta toxicidade, que pode levar indivíduos expostos a ele a sofrer diversos males como cegueira e morte, exigindo muito cuidado com a sua manipulação. Exemplos não faltam de contaminação de pessoas com metanol no nosso país, as quais sofreram lesões irreversíveis e mesmo morte ao ingerir bebidas contaminadas este álcool. Em segundo lugar, vou citar o fato de que o metanol é produzido a partir de gás natural, sendo, portanto, um produto de origem fóssil, o que diminui um pouco a alcunha de “verde” ao nosso biodiesel. Claro que é possível produzir o metanol a partir de biomassa, mas hoje, por razões econômicas, isso não é feito. Em terceiro lugar, particularizando esta discussão para o caso do Brasil, ele é um produto importado, diminuindo, assim, a vantagem de melhorar a nossa balança comercial ao substituir o diesel importado por um produto totalmente nacional.
 
Pensando nestes três argumentos, seria fácil pensar que o etanol seria a escolha natural, pois a sua toxicidade é muito menor, é um produto de origem vegetal e nacional. Mas por que isso não acontece? Quem já foi para uma bancada de laboratório ou trabalha numa fábrica conhece muito bem a resposta para esta pergunta: é muito mais fácil fazer biodiesel com metanol. Gostaria de salientar que aqui me refiro à biodiesel como o combustível que atende as especificações de qualidade da ANP, e não simplesmente a uma mistura obtida a partir da reação de transesterificação de um óleo.

Existem duas razões que tornam a rota metílica mais fácil. A primeira é a própria reatividade do metanol. Diversos trabalhos, realizados no meu laboratório ou em outros laboratórios do Brasil ou exterior, mostram que, independentemente do catalisador ou das condições em que se realize a transesterificação, o metanol será sempre mais eficiente que o etanol, seja em velocidade quanto no rendimento final da reação. Ao falar sobre isto em alguns eventos já fui perguntado se estaria querendo dizer que é impossível fazer biodiesel com etanol e a resposta é não, estou apenas dizendo que será sempre mais fácil fazê-lo com metanol. De fato, pode-se otimizar a transesterificação etílica e se obter altos rendimentos, mas será necessário um maior excesso de álcool, maior temperatura e maior tempo. Estas condições mais drásticas acarretarão um maior custo de produção. Por outro lado, sabe-se também que o etanol favorece a formação de emulsões no final da reação, sendo necessário destilar o álcool para conseguir uma boa separação da glicerina, o que dificulta e encarece a purificação do biodiesel.

Assim, a rota etílica somente é eficiente se o custo do etanol for bem mais baixo do que o do metanol. No entanto, quem acompanha os preços dos dois álcoois sabe que, mesmo sendo importado, o metanol tem apresentado sempre um preço inferior, o que explica a opção que a nossa indústria de biodiesel tem feito pelo metanol. No entanto, caso essa realidade do mercado se altere, não tenho nenhuma dúvida de que temos tecnologia suficiente para produzir biodiesel etílico de alta qualidade.

Paulo Anselmo Ziani Suarez é engenheiro químico, colunista BiodieselBR.com, com pós-doutorado pelo National Center for Agricultural Utilization Research dos Estados Unidos.
E-mail: psuarez@unb.br 
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