Simoni Margareti Plentz Meneghetti

Alternativas para Ampliar os Usos e o Mercado da Glicerina


Simoni P. Meneghetti - 20 dez 2006 - 23:14 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:22

Para iniciar este artigo gostaria de citar alguns trechos da entrevista do engenheiro norte-americano Charles Vest que dirige uma das principais instituições da educação superior e da pesquisa científica no mundo: o Massachusetts Institute of Technology (MIT) publicada em 13 de dezembro, na Revista Isto Ė Dinheiro nº 482 (pág. 20-24). Questionado sobre desenvolvimentos tecnológicos e o sucesso empreendedor do MIT, além de oportunidades para a ciência nos próximos anos e sobre a situação e perspectivas no Brasil ele diz: - “O Brasil tem tudo para estar na vanguarda da pesquisa agrícola” ...... “E a agricultura é hoje um negócio de altíssima tecnologia”; - “......Mas o que eu diria é que os negócios ligados ao conceito de energia limpa e sustentabilidade ambiental são muito promissores”....

E acreditando na constante e crescente necessidade de investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação, que vou abordar aqui um assunto também ligado a essa temática: a ampliação das alternativas de uso da glicerina, que passará obrigatoriamente por pesquisa para a ampliação e descoberta de novas aplicações.

A glicerina é um dos principais co-produtos das indústrias baseadas em oleoquímica e, nas últimas décadas, com a introdução do biodiesel na matriz energética de vários países, a oferta tem aumentando significativamente face à demanda do mercado mundial, acarretando quedas de preço da glicerina (somente nos anos 90 esta queda foi da ordem de pelo menos 50%).

Existem alguns mercados para a glicerina que são tradicionalmente conhecidos. Ela é umas das matérias-primas da indústria de cosméticos, sabões, produtos farmacêuticos, alimentação, bebidas, filmes de celulose, papel, resinas entre outros. Porém sabe-se que estes mercados têm um limite para absorção da oferta crescente deste insumo.
Agregar valor a toda a cadeia produtiva da oleoquímica, no caso do Brasil especialmente no que tange à produção de biodiesel, passa pela valorização do glicerol. Além disso, é preciso evitar futuros impactos ambientais que este aumento de oferta possa causar. Estes desafios devem ser encarados sob dois aspectos: (i) desenvolvimento de novos usos para aplicações já existentes; (ii) identificação de novos usos.

{sidebar id=1} No caso das aplicações já existentes, vários estudos já demonstraram que a glicerina pode substituir produtos quimicamente análogos, como por exemplo, os polióis. Esta troca, que evidentemente terá que levar em conta aspectos de custo do composto a ser substituído, pode ser efetivada em produtos como pastas de dente, umectantes, cosméticos, entre outros.

No que tange à identificação de novos usos, é preciso salientar que isto poderá representar o surgimento de novos setores industriais, com crescimento econômico e, conseqüentemente, geração de emprego e renda. Aqui podemos citar inúmeros exemplos, sem ter a pretensão de esgotar as possibilidades: (i) sua utilização em rações animais ou como fonte de carbono em processos fermentativos; (ii) sua transformação, química ou microbiológica, em polióis de grande valor agregado, como por exemplo o 1,3-propanodiol. Este último pode ser empregado na fabricação de plásticos do tipo PTT (polimetileno tereftalato), análogo do famoso PET utilizado em garrafas de refrigerantes. Porém o PTT é muito mais resistente mecanicamente ou quimicamente que o PET; (iii) fabricação de poligliceróis que têm aplicação como emulsificantes e fluidos para diversas aplicações, (iv) síntese de poliuretanos, materiais que têm ampla gama de aplicações que vão da indústria automotiva à produção de próteses humanas e (v) oxidação na presença de nanopartículas de metais nobres, processo que pode dar origem a pequenas moléculas para a indústria baseada na química fina.

Porém é preciso salientar que há a constante e crescente necessidade de investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação nesta área, para que os profissionais capacitados possam estudar e concretizar algumas das possibilidades aqui citadas e, na melhor das hipóteses, descobrir novas e rentáveis opções de emprego da glicerina.

Simoni P. Meneghetti é colunista BiodieselBR. Saiba mais sobre a autora.