convidado

Situação de risco para as usinas de biodiesel


Gonzalo Terracine - 01 out 2007 - 16:30 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:23

De um lado, a relação entre oferta e demanda se mostra desbalanceada. Em 2008, a demanda por biodiesel será cerca de 800-840 milhões de litros. Atualmente, a capacidade instalada para produção de biodiesel é de 1,2 bilhão de litros/ano. Para 2008, a capacidade instalada pode atingir quase 2 bilhões de litros/ano.

O único destino para a produção além da demanda obrigatória será a adição opcional de biodiesel ao diesel de até 5%. Entretanto, para que isso ocorra, o biodiesel deve ser competitivo em relação ao diesel mineral (isto é, ter preço igual ou menor que o preço do diesel mineral). Caso contrário, a demanda além da obrigatória será marginal.

Por outro lado, os preços do biodiesel são guiados pelos preços dos óleos vegetais, que são a principal matéria-prima do processo produtivo. No Sul e Sudeste, o óleo de soja está sendo negociado entre R$ 1.720,00 e R$ 1.880,00/tonelada, inviabilizando sua produção: os preços do diesel mineral é negociado entre R$ 1,40 e R$ 1,50/litro; os custos de produção do biodiesel nas usinas são equivalente ou mais altos.

Além do Brasil, outros países também estão sofrendo com a demanda elevada. Malásia e Indonésia, principais países produtores de óleo de palma, vêem um gargalo na oferta do óleo, o que inviabiliza a tranformação em biodiesel.

Mesmo com os leilões realizados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), onde foram vendidos lotes de biodiesel a uma média de R$ 1,83/litro, as margens de lucro dos produtores estão pequenas (aproximadamente 5% do custo).

Além disso, vale ressaltar que a obrigatoriedade da adição de biodiesel no diesel mineral começa em janeiro, período de pico da entressafra da soja. Muitas emagadoras param sua produção para manutenção nesse período. Portanto, as usinas de biodiesel devem antecipar os contratos de compra, para receberem a mercadoria em novembro.

O grande problema é que os contratos de compra serão elaborados sem que haja contratos de venda estabelecidos (e sem saber quanto as distribuidoras estarão dispostas a pagar pelo produto), expondo as usinas de biodiesel a uma situação de risco.

A produção economicamente viável de biodiesel (ou seja, com preços competitivos ao diesel mineral) dependerá de fatores exógenos (na medida em que o governo crie ferramentas de incentivo à produção) e do fator tempo (permitindo que a curva de aprendizagem do setor consiga atingir grandes produtividades de óleo e/ou redução dos custos no processo de produção industrial). Outros fatores dependerão do funcionamento de mercado (interno e externo) a partir de janeiro do próximo ano.

Em função do mencionado acima e das condições atuais do mercado, dos altos preços dos óleos vegetais e da relação atual de estoque/consumo de óleo de soja, vemos como uma vantagem competitiva aqueles que utilizam ferramentas de administração de riscos baseados em um plano estratégico de originação da matéria-prima.

Gonzalo Terracine é consultor de administração de risco da FCStone
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