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Fecombustíveis: segundo semestre de decisões


Paulo Miranda Soares, Presidente da Fecombustíveis - 07 jul 2011 - 07:15 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:17

Após um primeiro semestre tumultuado pela disparada dos preços do etanol, entramos na segunda metade do ano de olho em importantes tarefas e definições que devem balizar o comportamento do mercado nos próximos meses.

Uma importante decisão que deve ser tomada pelos postos nos próximos meses, por exemplo, diz respeito à comercialização ou não do diesel menos poluente, o chamado S50 (com 50 partes por milhão de enxofre), a partir de 1º de janeiro de 2012. Para comercializar este diesel, o posto necessita de tanque e bomba segregados, uma tarefa relativamente simples para os grandes estabelecimentos e com forte atuação no diesel, mas que implica decisões comerciais mais sensíveis para os postos que não se enquadram nessas categorias. Quem não tem equipamentos ociosos nem está realizando uma reforma no seu posto agora, caso queria comercializar o S50, terá que abrir mão de algum outro produto com menor giro.

É importante lembrar, no entanto, que este novo diesel somente será utilizado pelos novos veículos, que começarão a circular em janeiro de 2012. A expectativa é por demanda inicial baixa, já que tais veículos deverão custar entre 8% e 15% mais caros e o preço do S50 também deverá ficar acima daquele cobrado pelo diesel atualmente comercializado nos postos.

De forma resumida, podemos afirmar que quem oferecer o S50 em janeiro assumirá os ônus e os louros do pioneirismo. Por um lado, investirá em algo que não trará grandes retornos num primeiro momento. Por outro, reforçará a confiança dos clientes tradicionais no seu estabelecimento, além de conquistar novos consumidores, ao oferecer um produto que provavelmente não será encontrado facilmente em todos os postos. Os novos veículos também irão utilizar, obrigatoriamente, o Arla-32, um novo produto que será introduzido no mercado e que será utilizado em tanque próprio nos veículos, o que deve gerar novas oportunidades de negócio.

Caso decida comercializar o S50, é necessário adequar seu posto para receber o novo produto, treinar seu pessoal (já que qualquer erro no abastecimento poderá trazer danos aos veículos) e contatar sua distribuidora (no caso dos bandeirados) ou seus principais fornecedores (em se tratando dos independentes) para saber se haverá oferta do produto em sua região. E, claro, antes de começar a vender o produto não deixe de atualizar seu cadastro junto à ANP, informando as mudanças realizadas.   

Para os próximos meses, esperamos também a conclusão dos estudos que estão sendo conduzidos pela ANP sobre os problemas relacionados à formação de borra em tanques e filtros, desde a introdução do B5 (diesel com 5% de biodiesel). A expectativa é que sejam anunciadas novas recomendações no manuseio do produto e até mesmo mudanças nas especificações do biodiesel e nos equipamentos dos postos, o que pode, inclusive, gerar maiores custos operacionais para todos os elos envolvidos na comercialização do diesel/biodiesel.

No front dos veículos de passeio, a safra de etanol chegou, mas isso não implica cenário tranquilo. Tanto os preços do anidro quanto os do hidratado seguem subindo nas usinas e encontram-se em patamares mais elevados que no ano passado. Lá fora, o barril de petróleo continua caro, enquanto o governo segue preocupado com a inflação aqui dentro. Segundo estimativas do Banco Central, os preços da gasolina devem fechar o ano 4% mais caros, ante projeção de elevação de 2,2% feita em abril.

Os usineiros têm repetidamente advertido que os investimentos em aumento na produção do biocombustível não têm sido suficientes para acompanhar a forte expansão da frota automotiva. Sem querer entrar no mérito da rentabilidade ou não da produção de etanol, o importante agora é que a ANP, com seus novos poderes sobre a produção deste combustível, faça as contas, cruze os dados, converse com os agentes do setor. E se detectar qualquer problema no horizonte, deve agir rapidamente, sugerindo ao governo a redução no percentual de anidro na gasolina ou, como última medida, a importação do produto.

Não é possível ignorar o estrago causado pela última crise à imagem do etanol. Portanto, é melhor pecar pelo excesso de zelo e evitar que problemas semelhantes ocorram e terminemos o ano do mesmo jeito que começamos: com consumidores revoltados, protestando contra os preços dos combustíveis nos postos.

Paulo Miranda Soares é advogado, formado pela Universidade Federal de Minas Gerais, e pós-graduado em Direito Comercial. É o presidente em exercício da Fecombustíveis desde abril de 2006.