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Alimentos x combustível: o que é fato e o que é ficção


BiodieselBR.com - 06 jan 2009 - 16:22 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:08

A acentuada queda nos preços globais do petróleo e dos grãos precipitada pelo tumulto econômico dos últimos meses literalmente – e, tudo indica, apenas temporariamente – tirou a energia do acirrado debate “alimentos x combustível”. De repente não se ouve mais clamores de que o etanol está tirando o milho da mesa dos famintos para colocá-lo no tanque dos mais ricos.

Quando o barril de petróleo chegou a custar três a quatro vezes mais que agora, acusou-se o crescente uso do etanol de causar a alta no preço dos alimentos, a fome dos mais pobres e os violentos protestos que se seguiram. Jean Ziegler, executivo-sênior da ONU, chamou de “crime contra a humanidade” o uso de safras de alimentos como combustível. Demagogos antiamericanos como Hugo Chávez e Fidel Castro aproveitaram a oportunidade para lançar uma cruzada contra o etanol. Análises divergentes sobre as causas do aumento no preço dos alimentos – como a atuação de especuladores, o aumento do preço do petróleo e a maior demanda por carne na China e na Índia – foram prontamente rejeitadas pelos sabichões de plantão. Ironicamente, justo no momento em que o preço do petróleo atingia um pico histórico, o único combustível alternativo que podia impedir que o preço da gasolina aumentasse ainda mais enfrentava uma oposição feroz e irrestrita. As últimas semanas mostraram claramente que tudo não passou de uma farsa.

Um fato imutável está agora bem claro para todos: o preço dos alimentos acompanha o preço do petróleo, independentemente da quantidade de milho usada para se produzir etanol.

Com o preço do petróleo em alta, os custos de componentes essenciais de nossa cadeia produtiva de alimentos subiram – especialmente os custos de operação de maquinário agrícola, fertilizantes, embalagem, mão-de-obra e transporte. Quando esses custos caíram, o preço do milho acompanhou a queda.

Na verdade, o barril de petróleo agora caiu quase 50% em relação ao valor recorde de US$ 147 em julho de 2008. O preço do milho caiu na mesma proporção no período, de US$ 7,50 para US$ 4,00 o bushel (= 25,40 kg).

O preço do milho caiu porque usamos menos etanol? Não. Pelo contrário. Na verdade, a produção de etanol nos Estados Unidos aumentou em quase 10% desde então.

Está claro agora que não foi o etanol que alavancou o preço dos grãos, e conseqüentemente o dos alimentos, mas as mesmas forças especulativas que fizeram o preço do petróleo disparar. Quando a bolha criada pelos fundos de hedge e outros especuladores estourou na atual crise financeira, os preços das commodities caíram.

O que não quer dizer que o etanol não teve impacto no preço dos alimentos. Sim, teve. Mas foi um impacto marginal em comparação com outros fatores em jogo.

Mais significativo, no final das contas, foi o papel positivo que o etanol desempenhou na economia americana e do resto do mundo. No ápice da crise do petróleo, o etanol foi responsável por manter o preço do petróleo 15% mais baixo do que seria possível sem o seu uso. Isso significa que, vexatório como alguns consideram os US$ 5,6 bilhões de subsídios para o etanol, o uso desse combustível foi responsável por uma economia dez vezes maior para os Estados Unidos, quantia essa que poderia ter ido parar nos cofres de países exportadores de petróleo – muitos dos quais hostis ao país.

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos projeta para 2008 um aumento de 23% nas exportações de produtos agrícolas em relação a 2007, sendo que a capacidade de produção de etanol cresceu 60%, atingindo 41 bilhões de litros, evitando o consumo de quase um milhão de barris de petróleo no mercado global de petróleo por dia. Ao trabalhar na diversificação de sua matriz energética, os Estados Unidos estão claramente fazendo sua parte no desafio de alimentar o mundo.

É hora de percebermos afinal que o debate “alimentos versus combustível” não passa de um mito. E já passou da hora de responsabilizarmos as indústrias de alimentos, que propagaram essa polêmica para ocultar sua participação nos problemas alimentares globais.

Empresas como a Kraft, a Kellogg’s e a Nestlé foram rápidas em repassar para o consumidor os aumentos de custos quando o preço dos grãos disparou. Mas agora que os preços das commodities caíram, elas não parecem muito apressadas em reduzir os preços novamente. Em um momento em que a economia está em maus lençóis e muitos trabalhadores americanos lutam para colocar comida na mesa, produtores de alimentos – que agora pagam menos por suas commodities – registram aumento em seus lucros enquanto suas ações, embora em queda como o restante da economia, demonstram um desempenho muito melhor que as de outros setores.

As receitas da Kraft, por exemplo, cresceram 19% em relação ao ano passado, enquanto as da Kellogg’s cresceram 9,5%. O presidente da Nestlé, Peter Brabeck-Letmathe, que escreveu artigos atacando o etanol no Wall Street Journal quando o preço dos grãos estava em alta – dizendo que “os biocombustíveis são economicamente absurdos, ecologicamente inúteis e eticamente indefensáveis” – declarou recentemente ao mesmo jornal que “o preço de varejo dos alimentos poderá cair um pouco, mas não acho que vá ser nada de espetacular”. 

Se há alguém capaz de aliviar a crise do preço dos alimentos neste momento, não é a indústria do etanol, mas as próprias indústrias de alimentos. Quem culpou as gigantes do petróleo pela cartelização dos preços nas bombas de combustível, que veja agora o que as gigantes dos alimentos estão fazendo nas prateleiras dos supermercados.

Mais cedo ou mais tarde a economia retomará seu ritmo e o preço do petróleo voltará a subir, quem sabe até a níveis maiores do que os vistos durante o ano. Quando isso acontecer, sem dúvida a patrulha antietanol vai se agrupar novamente e recomeçar sua campanha capciosa e de má-fé contra o uso do etanol como fonte de energia alternativa. Que nesse momento os consumidores e administradores públicos americanos tenham em mente a verdade que veio à tona agora: o preço do petróleo é a principal variável de custo dos alimentos, e o etanol ajuda a manter o preço do petróleo em níveis aceitáveis.

Por Gal Luft e Frank J. Gaffney Jr.

Gal Luft
é diretor-executivo do Instituto para Análise de Segurança Global.
Frank J. Gaffney Jr. é presidente do Centro para Políticas de Segurança. Ambos são membros fundadores da Set America Free Coalition (organização que trabalha para livrar os Estados Unidos da dependência do petróleo).

Fonte: International Analyst Network
Tradução e adaptação BiodieselBR.com

Tags: Alimento