Biocombustíveis: muita conversa e pouca ação
É difícil imaginar o Brasil no papel hoje exercido por alguns países do Oriente Médio, como Iraque, Irã ou Arábia Saudita? Isto é, como o maior produtor de combustível líquido do mundo e por isso visado pelas grandes potências econômicas do mundo?
Em um primeiro momento esta idéia parece estranha. Entretanto, é fato que o petróleo mais cedo ou mais tarde vai se esgotar. E, segundo especialistas, é aí que entra o grande potencial do Brasil: como maior produtor do substituto da gasolina, o álcool, e do diesel, o biodiesel. Em 2004, o governo federal, pela primeira vez, criou o Programa Nacional de Produção e Uso de Biocombustíveis. Porém, a iniciativa ainda é tímida e prevê o acréscimo de somente 2% do diesel vegetal ao convencional.
Por isso, o físico, engenheiro civil e o ''pai'' do Pró-álcool (criado em função do embargo do petróleo há 27 anos e que fez 96% dos carros do Brasil usarem álcool como combustível) e ex-secretário de Tecnologia Industrial do governo Sarney (PMDB), José Walter Bautista Vidal, defende que é preciso vontade política para que o Brasil assuma o quanto antes seu papel como produtor mundial de combustível líquido renovável e limpo.
Folha - O Brasil vai ser a potência mundial de combustíveis renováveis e limpos no futuro? Por que?
Vidal - O petróleo é não renovável, está levando o mundo à guerra e é sujo. Então nós temos que partir para um combustível eterno, que vem do sol e é limpo e que acaba com essa história do efeito estufa, mudança de clima, etc. E isso só é possível nas regiões tropicais. E o Brasil é o continente dos trópicos. Não tem outro. Então estamos condenados a ser a grande potência do futuro energético limpo do mundo. Isso já foi reconhecido mundialmente.
Folha - Que tipo de combustível é esse?
Vidal - No caso da gasolina o substituto é álcool etílico. No caso do óleo diesel os substitutos são os óleos vegetais. Além disso se tem a celulose, a madeira, o carvão vegetal... Mas nós não estamos tomando as decisões políticas necessárias e estamos retardando o processo.
Folha - Por que está acontecendo este retardamento? Vidal - É um projeto que estamos discutindo a partir do óleo de dendê. São 40 milhões de hectares na Amazônia aptos ao dendê. E a produção do dendê é altíssima, de seis a oito mil litros por hectare por ano. Dá para produzir mais óleo diesel que a Arábia Saudita. São oito milhões de barris por dia que podemos produzir.
Folha - E o Programa Nacional de Produção e Uso de Biocombustíveis está funcionando?
Vidal - Muita conversa, mas pouca ação. Agora o Banco do Brasil está começando a se preparar para ter uma ação. Talvez aí os resultados sejam mais imediatos, mais importantes.
Folha - Tem alguma coisa implantada?
Vidal - Tem. Implantamos um programa no Rio Grande do Norte começando com 100 mil hectares de assentamentos. Tem mais 400 mil (hectares) no Rio Grande do Sul, envolvendo 22 municípios, com 13 mil famílias.
Folha - Então o biocombustível pode ser uma solução para a agricultura também?
Vidal - Claro. Gera emprego. É uma coisa importantíssima. É a produção para abastecer o mundo de óleo diesel vegetal.
Folha - Com este tipo de produção não corre o risco de haver desmatamentos?
Vidal - Não. O dendê, por exemplo, é o oposto, é plantar. Tem que fazer isso com critério, mantendo a biodiversidade. É a grande solução ecológica do mundo.
Folha - Na época em que o Pró-Álcool foi criado já exitiam pesquisas sobre o biodiesel?
Vidal - Nós implantamos o Pró-Diesel há 27 anos, depois do Pró-Álcool. E a Mercedez (Benz) da Alemanha, na época, sabotou porque eram ligados ao petróleo e não queriam um combustível que eles não dominam.
Folha - O biodiesel poderia estar há muitos anos no Brasil então?
Vidal - Há 27 anos já estava sendo implantado e o governo recuou com medo das pressões internacionais. Nós poderíamos ter economizado dezenas de bilhões de dólares em importações que foram feitas desnecessarimente.
Folha - A produção de biodiesel não é mais cara que a do diesel?
Vidal - Não há razão para ser mais cara. É claro que, por exemplo, se você partir para a mamona o preço do óleo de mamona no mercado internacional hoje é três vezes o preço do óleo diesel. Mas já o girassol é extremamente favorável. Isto é apenas uma questão de tecnologia e de aproveitar as condições naturais, como o dendê na Amazônia, que leva 50 anos produzindo.
Folha - Precisa de adaptação tecnológica muito grande?
Vidal - Tecnologia já dispomos. Há 27 anos estávamos implantando um programa para misturar 40% de biodiesel no diesel. E está tudo pronto.
Folha - E precisa de alguma adaptação no motor do carro?
Vidal - No caso do biodiesel o motor é o mesmo. Não precisa mexer nele. No álcool precisou.
Folha - E a potência é a mesma?
Vidal - O diesel vegetal tem potência maior que o diesel do petróleo. Como o álcool tem maior potência que a gasolina.
Folha - E o gás não pode ser uma outra alternativa?
Vidal - Não. O gás é petróleo. É poluidor e não renovável. É uma solução furada. E todo mundo que não tem energia renovável e limpa está usando o gás. Mas o gás é muito limitado.


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