Biodiesel

Os caminhos do biodiesel no Brasil


Gazeta Mercantil - 08 jan 2007 - 11:30 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:22

Projetos ligados ao biodiesel são anunciados a todo momento por empresas nacionais e internacionais.  Espera-se que o Brasil, consumidor de 39 bilhões de litros de diesel e produtor de 53 milhões de toneladas de soja, se transforme em uma grande força no mercado mundial desse biocombustível.  Entretanto, nem todas as empresas serão bem-sucedidas.

A partir de 2008, ou ainda em 2007, a mistura de 2% de biodiesel (B2) no diesel passará a ser obrigatória, chegando a 5% (B5) em 2013.  Com o consumo atual de diesel, isso representa um mercado garantido de 0,8 bilhão de litros a partir de 2008, e de 2 bilhões de litros a partir de 2013.  Estes números deixam claro que, mesmo sem considerar o mercado externo, há muito espaço para projetos ligados ao biodiesel.

Para estimular o mercado, a Petrobras realizou três leilões de biodiesel, nos quais comprou 840 milhões de litros, para recebimento em 2006 e 2007.  Para entregar este volume com rentabilidade, algumas empresas terão que superar grandes desafios para obter capacidade de produção e gerir riscos.

Para 2006, foi anunciada uma capacidade produtiva de quase 1 bilhão de litros, enquanto o total anunciado para 2007 supera 2 bilhões de litros.  Se todos os projetos forem implementados, existirão mais de 50 plantas em operação até o final de 2007 - hoje são menos de 10.  Existem importantes ganhos de escala para plantas com capacidade anual acima de 100 milhões de litros, mas grande parte dos projetos anunciados terá capacidade muito inferior.O principal insumo para a fabricação do biodiesel é o óleo vegetal e, atualmente, apenas o óleo de soja está disponível para produzir grandes quantidades desse combustível no país.

Na safra 2005/06, o Brasil produziu 5,7 milhões de toneladas de óleo de soja, dos quais 2,6 milhões foram exportados como produto de baixo valor agregado.  Em 2007, este excedente já será quase totalmente absorvido na produção de biodiesel e, nesse cenário, o Brasil também deixará de importar 2,4 bilhões de litros de diesel/ano.

Apesar da hegemonia da soja no curto prazo, qualquer oleaginosa pode ser usada para produzir biodiesel e algumas alternativas, como a mamona e o pinhão manso, estão recebendo muita atenção.  No médio e longo prazo, estas culturas alternativas podem ser até mais vantajosas que a soja, já que apresentam maior rendimento, são mais adequadas à agricultura familiar e não competem com aplicações para consumo humano.

O óleo vegetal e o biodiesel têm lógicas de preço distintas, e esta falta de correlação entre os dois preços resulta em altos riscos.  Esta situação, certamente, pode mudar, na medida em que o próprio desenvolvimento do mercado de biodiesel venha a criar uma correlação entre alguns destes preços.

Com o preço do biodiesel próximo dos níveis praticados nos leilões, e o custo de óleo de soja a US$ 500/tonelada, o retorno anual é superior a 25%, o que é muito atrativo e explica o grande interesse pelo setor.  Entretanto, para ilustrar o risco do negócio, basta avaliar o impacto do custo do óleo de soja na rentabilidade.  Mantendo o preço do biodiesel, mas comprando óleo de soja a US$ 600/tonelada, a rentabilidade do projeto fica próxima de zero.  Não faz muito tempo que o óleo de soja FOB Paranaguá custava US$ 600-650/tonelada.

Os grandes operadores internacionais de grãos, como ADM, Bunge, Cargill e Dreyfuss, estão bem posicionados para competir no mercado de biodiesel.  Além de terem acesso ao óleo vegetal, possuem grandes habilidades de gestão de riscos, como travamento de margens, e têm a filosofia e os recursos para operar em grande escala.  Um exemplo é a planta anunciada pela ADM no Mato Grosso com capacidade de 200 milhões de litros/ano.  Outros possíveis vencedores no mercado de biodiesel incluem operadores nacionais de grãos, cooperativas e, ainda, grandes usuários de biodiesel, como operadoras de ferrovias, transportadoras e empresas de ônibus.  Ainda não existe muita clareza com relação ao futuro papel da Petrobras neste setor.

Estamos no início do jogo.  Apesar de ainda não sabermos quem vencerá, o fato é que haverá uma concentração do mercado e aqueles que tiverem escala, acesso privilegiado à matéria-prima e habilidades de gestão de riscos, terão maiores chances de êxito.

Tom Waslander
é sócio da Brasilpar.