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Negócio

Protestos contra alta do diesel viralizam e caminhoneiros voltam a falar em paralisação


O Estado de S.Paulo - 13 mai 2022 - 08:36

Os caminhoneiros voltam a discutir uma paralisação nacional, por causa de mais um reajuste no preço do diesel anunciado pela Petrobras, além da decisão do governo Bolsonaro, de agora afirmar que pretende privatizar a companhia.

Vídeos de caminhoneiros estão viralizando na rede social TikTok, nos quais trabalhadores aparecem em postos, abastecendo seus tanques. Em um desses vídeos, o caminhoneiro registra que o valor total na bomba ultrapassa R$ 5.500, para armazenar pouco mais de 600 litros do combustível em tanques. O litro, na região de Barreiras, na Bahia, é vendido por R$ 8,24.

“Não tem condições, vou ter que fazer outro abastecimento ainda, para chegar ao Mato Grosso. O frete foi R$ 11 mil. Não tem condições, os caminhões vão parar. É pane seca nas rodovias”, diz o caminhoneiro.

Em países como Canadá e Estados Unidos, o TikTok se transformou na principal ferramenta de mobilização dos caminhoneiros, que organizaram paralisações em diversas cidades.

Na segunda-feira, 10, a Petrobras anunciou um aumento de 8,87% no preço do diesel em suas refinarias. O preço do combustível nos postos já acumula alta de 96% no governo Bolsonaro, conforme dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

O presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava), Wallace Landim, conhecido como Chorão, pretende reunir representantes da classe no próximo domingo, para discutir uma paralisação nacional da categoria.

Além do novo reajuste nesta semana, outras duas ações de Bolsonaro ampliaram a crise com os trabalhadores do transporte. A primeira foi a demissão do ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque. Segundo o presidente da Abrava, não ficou claro de o gesto foi “para jogar para a torcida ou para o mercado financeiro”.

Seja qual for o ministro do MME, os caminhoneiros sabem que, na realidade, o que precisaria mudar é a política de preços praticada pela Petrobras, que hoje é completamente atrelada às oscilações do mercado internacional. “A situação passou de todos os limites e o diesel ainda está com o preço 10% defasado com base no preço internacional, ou seja, tem mais aumento nas bombas em breve”, afirmou a associação, em carta. “O cenário é de pré-caos.”

Outra decisão do governo que deixou os caminhoneiros revoltados foi anúncio de que o governo vai estudar a privatização da Petrobras. Na prática, trata-se de um plano praticamente inexequível, dado o ano eleitoral e o fim de mandato do governo. Por meio de nova manifestação, a associação declarou que recebeu a notícia com “surpresa e indignação”.

A leitura do gesto foi pragmática por parte dos caminhoneiros: se o governo sendo sócio da Petrobras já não controla seus preços, não será uma empresa 100% privada que o fará. “O Brasil precisa de uma estratégia de curto prazo para frear essa voracidade da Petrobras em saquear o bolso dos brasileiros, e não vender a PPSA e a Petrobras”, afirmou a Abrava.

A Petrobras foi a petroleira que registrou o maior lucro líquido no primeiro trimestre deste ano em todo o mundo, mostram dados compilados pela consultoria financeira Economática, a pedido do Estadão. Conforme o levantamento, o lucro líquido da Petrobras nos três primeiros meses do ano, de US$ 9,405 bilhões, foi quase o dobro dos US$ 5,480 bilhões registrados pela americana Exxon Mobil, a maior petroleira do mundo em valor de mercado.

Entre as dez maiores companhias que já divulgaram resultados do primeiro trimestre, o lucro da Petrobras foi maior do que o registrado por petroleiras que faturaram mais, como Chevron, BP, Petrochina, CNOOC, Eni Spa – a anglo-holandesa Shell ainda não divulgou o balanço financeiro do primeiro trimestre.

O assessor institucional da Confederação Nacional do Transportador Autônomo (CNTA), Wagner Jones Almeida, diz que a entidade está tentando unir forças para encontrar uma saída para o problema. "A solução não tem de vir só do caminhoneiro, tem de envolver toda a sociedade. É preciso discutir formas para que o impacto disso seja o menor possível."

Almeida destaca que a categoria hoje está escravizada, numa situação crítica. "Toda a cadeia que depende do diesel está à mingua. Não se consegue repassar esse aumento adiante", afirma o assessor. De qualquer forma, ele destaca que, por ora, não estão discutindo paralisação.

André Borges – O Estado de S.Paulo