Impacto indireto do petróleo na inflação pode ser maior que o esperado, aponta Itaú
Além do efeito direto que a alta do petróleo tem sobre a inflação, via preços mais altos de combustíveis e energia, os impactos indiretos podem alcançar entre 0,75 e 1,25 ponto porcentual (p.p.) no IPCA este ano, de acordo com um exercício de economistas do Itaú Unibanco.
O intervalo de estimativas é maior que o efetivamente incorporada ao cenário base da instituição, que prevê alta de 5,2% para o IPCA neste ano. O exercício, portanto, sugere um risco altista para a sua projeção, diz a economista Luciana Rabelo, que assina o estudo com Julia Gottlieb.
O trabalho busca mapear o repasse da alta do petróleo para a inflação, em especial os efeitos indiretos - mais difíceis de mensurar por ocorrerem de forma mais difusa e com defasagens - a partir de duas abordagens. A primeira foi emprestar e adaptar um exercício econométrico retirado de um box do Relatório de Inflação do Banco Central para estimar qual costuma ser, historicamente, o repasse de um choque de petróleo, aqui entendido como a inflação importada, para os preços livres.
O modelo mostrou que um choque de 10% do petróleo implica alta de aproximadamente 0,40 p.p. sobre a inflação de preços livres, ou 0,30 p.p. sobre o IPCA cheio. Ele também revela que em períodos de hiato negativo, o repasse diminui pela metade. De forma similar, ele mostrou que o repasse é assimétrico - em choques baixistas, a intensidade do repasse em termos de deflação é aproximadamente metade do que a inflação registrada quando o sentido é o contrário.
Dito de outra forma, o repasse do petróleo é mais intenso quando a economia opera acima de sua capacidade e quando o choque é altista, duas características do atual momento da economia brasileira. Por outro lado, foi testado se a ancoragem das expectativas de inflação importa no choque de petróleo - algo importante justamente porque as expectativas já estavam desancoradas no Brasil e pioraram desde então. Neste caso, no entanto, os resultados foram inconclusivos.
O segundo exercício utilizou a Tabela de Recursos e Usos e (TRU) para classificar os itens da cesta do IPCA segundo o uso direto e indireto de petróleo e derivados e, com isso, estimar os efeitos diretos e indiretos de uma alta surpresa da commodity. Aplicando o mesmo choque de 10%, o que se encontrou foi um efeito maior, de aproximadamente 0,70 ponto para os preços livres e 0,50 ponto para o IPCA cheio, além de 0,20 ponto de impactos diretos.
“Vale notar que este resultado indica o potencial de um repasse integral da alta dos combustíveis”, ressalta Rabelo.
O segundo exercício também permite reponderar a cesta do IPCA segundo o peso indireto dos derivados do petróleo dentro dos preços livres. Dessa forma, ajuda a entender qual a real importância dos combustíveis na formação desses preços.
O diesel, por exemplo, respondia por apenas 0,23% da cesta do índice cheio em fevereiro, levando em consideração apenas o efeito direto. Já o efeito indireto, acumulado ao longo da cadeia produtiva via custos maiores com transporte, energia, embalagens e insumos industriais, pode alcançar 2,3% dos preços livres. Somando todos os derivados de petróleo, o peso indireto dos combustíveis e derivados do petróleo dentro da categoria livres chega a 7,4%.
Desde o início do conflito no Oriente Médio, o Itaú elevou sua premissa para o preço médio do barril de petróleo em 2026 para US$ 85, mas cortou a projeção do dólar para R$ 5,15. Somados, esses vetores se traduzem em uma alta de 25% do preço do combustível em relação ao cenário anterior. E, à luz das duas abordagens criadas, permite antever um impacto indireto potencial sobre o de 0,75 ponto a 1,25 ponto.
“Em nosso cenário atual, já contamos com um impacto de 1,10 ponto porcentual trazido pelo petróleo, sendo 0,50 ponto de efeitos diretos e 0,60 de indiretos. Ou seja, é possível que o impacto indireto seja maior do que o que já está incorporado”, diz Rabelo. Para 2027, esses resultados se propagam principalmente através da inércia, segue a economista. “É algo que também pode puxar as expectativas para o ano que vem para cima, já que significam uma inflação corrente maior”, diz.
O banco não antevê deflação dos preços de combustível no próximo ano, ou seja, não vê ajuda para a inflação via efeito direto. “Por outro lado, esperamos sim alguma desaceleração tanto em alimentos quanto bens industriais, o que reflete os efeitos indiretos de um barril mais barato”, diz a economista. O Itaú espera um barril de petróleo voltando a US$ 75 e a alta de alimentos baixando de 7% para 5%, ao passo que a de industriais passa de 3% para 2%.
Marcelo Osakabe – Valor Econômico


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