PUBLICIDADE
padrao padrao
Negócio

Goldman Sachs vê petróleo acima de US$ 90 no fim do ano


Valor Econômico - 28 mai 2026 - 09:06

Apesar da instabilidade e do vaivém nas negociações de paz entre Estados Unidos e Irã, os fluxos de navegação no Estreito de Ormuz devem se normalizar ao longo do mês de junho, conforme o conflito se torna cada vez mais caro para os dois lados. Ao menos é esse o cenário-base sustentado pelo Goldman Sachs, de acordo com o codiretor global de commodities do banco americano, Daan Struyven, que conversou com o Valor durante passagem pelo Brasil.

O executivo projeta o preço do petróleo tipo Brent a US$ 90 por barril no fim do ano e avalia que os riscos para a normalização dos fluxos de petróleo por Ormuz são elevados, na medida em que EUA e Irã apresentam visões distintas sobre a questão nuclear e a gestão do Estreito. “Até que haja clareza sobre uma passagem segura, pode levar mais tempo para que os fluxos se normalizem. Estimamos que cada mês adicional de atraso na normalização da oferta acrescenta aproximadamente US$ 10 por barril ao valor do petróleo bruto”, afirma.

O banco calcula que, desde o início do conflito, os fluxos pelo Estreito de Ormuz ficaram, em média, em torno de 10% dos níveis normais, que costumam ser de cerca de 20 milhões de barris por dia. No entanto, o Goldman Sachs acredita que, com o aumento no escoamento de petróleo por oleodutos e com uma queda na demanda, o déficit no mercado está entre 7 e 8 milhões de barris por dia, algo que é “bastante significativo, mas não tão grande”, na visão de Struyven.

Sem a guerra no Oriente Médio, o mercado de petróleo provavelmente estaria em superávit devido à forte oferta, enfatiza Struyven. “No início do ano, o crescimento da oferta fora do Oriente Médio era muito robusto”, afirma o executivo, ao destacar que a projeção do Goldman Sachs para o Brasil, por exemplo, é de um aumento na produção de cerca de 500 mil barris por dia no quarto trimestre deste ano em comparação com o mesmo período em 2025.

Ao ser questionado se pensar em uma normalização no Estreito de Ormuz no mês que vem não seria muito cedo, Struyven destaca que, quanto maior o tempo sem um acordo, maiores serão os custos para ambos os lados.

“Do lado iraniano, esperamos que os cortes de volume de produção aumentem ao longo do tempo, à medida que os estoques vão ficando cheios, o que aumentaria o custo econômico”, afirma. “Já no lado dos EUA e, de forma mais ampla, no lado global, quanto mais tempo esse conflito durar, mais os preços de produtos refinados, como gasolina e diesel, tendem a subir, e esses preços são politicamente muito importantes.”

O analista aponta ainda que o preço da gasolina no varejo dos EUA - um dos custos mais importantes para o consumidor americano - ronda os US$ 4,6 por galão no momento, pouco abaixo do pico histórico de US$ 5,1 atingido em 2022. “Quanto mais esse conflito durar, maior a probabilidade de voltarmos a esse recorde, e isso pode mudar os incentivos dos EUA para alcançar um acordo.”

Em meio aos prejuízos causados a estruturas de energia no Oriente Médio por conta do conflito, ele avalia que, até o momento, os danos foram mais expressivos sobre as refinarias do que sobre a produção de petróleo bruto. “Os danos reportados até agora foram relativamente limitados, embora não possamos ter total certeza de que não existam outros danos que simplesmente não foram reportados. Esse continua sendo um dos principais pontos de incerteza com os quais os participantes de mercado estão lidando”, avalia o analista.

Ele destaca também que o anúncio de um cessar-fogo entre ambos os lados, embora frágil, contribuiu para reduzir a probabilidade de danos relevantes às instalações de produção.

Para o curto prazo, o banco espera que os contratos futuros do petróleo tipo Brent, a referência mundial, continuem “andando de lado” e, depois, fiquem em torno de US$ 90 por barril no quarto trimestre. No entanto, Struyven destaca o risco de que o processo de normalização da oferta demore mais do que o esperado, o que implicaria em preços mais altos. Ele também aponta que, até o momento, o mercado tem se ajustado a esse grande choque de oferta por meio da redução de estoques acumulados, algo que não irá se sustentar indefinidamente. “O mercado pode precisar que a destruição de demanda se torne o principal mecanismo de ajuste e os preços de produtos refinados em particular provavelmente precisariam subir.”

O executivo do Goldman Sachs também ressalta que, embora o nível dos estoques de petróleo estivesse elevado antes do início da guerra, o ritmo de redução tem sido significativamente acelerado, acendendo um alerta para as reservas de produtos refinados, como o diesel, que poderiam chegar a um nível crítico já em agosto.

Struyven espera que os preços de produtos refinados permaneçam altos por ainda mais tempo do que os preços do petróleo bruto. “Pode levar mais tempo para a produção de refinarias se recuperar do que a produção de petróleo bruto em si”, explica o executivo, ao destacar que, ao contrário do mercado de petróleo cru, o de refino não contava com capacidade ociosa antes da guerra. “As refinarias já estavam operando com taxas de utilização muito elevadas antes do início da guerra, em parte porque houve muito pouco investimento no setor”, disse.

Para o petróleo tipo WTI, que é usado como a referência do mercado americano, o Goldman Sachs projeta o preço do barril em torno de US$ 83 até o fim do ano.

O spread entre o Brent e o WTI tem estado mais elevado que de costume desde o início da guerra, devido aos custos mais altos de transporte. “O Brent é precificado a partir de barris no Mar do Norte, na Europa, e a diferença entre as duas referências normalmente reflete o custo de transportar um barril dos EUA até a Europa”, explica Struyven.

“Como o mercado de transporte marítimo está atualmente muito apertado, com navios fazendo viagens mais longas e maior demanda por transporte, os custos de frete aumentaram significativamente”, o que justifica o spread maior.

Luana Reis – Valor Econômico