Geopolítica faz petróleo do Brasil buscar novas rotas
Maior produtor de petróleo do mundo, os EUA têm peso relevante nas exportações brasileiras da commodity e derivados, respondendo por cerca de 11%. Em 2025, essas vendas, lideradas pela Petrobras, renderam US$ 6,3 bilhões, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).
No entanto, o tarifaço - que acabou isentando o petróleo, mas criou incertezas comerciais - e a guerra do Irã, reconfiguraram os fluxos comerciais brasileiros, que passaram a ter a Ásia como foco, especialmente a China.
Já no primeiro trimestre de 2026, as exportações de petróleo brasileiro para os EUA foram de US$ 632,3 milhões, cerca de 40% a menos do que no mesmo período do ano passado, com ausência da Petrobras e o espaço ocupado por petroleiras independentes.
Especialistas acreditam que o crescimento das vendas de petróleo e derivados aos EUA depende de oportunidades, uma vez que o mercado americano é visto como secundário. Isso porque, além dos recordes da produção estadunidense, há o apetite asiático crescente, especialmente da China, pelo petróleo brasileiro.
Por outro lado, o mercado dos EUA é o maior consumidor mundial do energético e o Brasil conta com a vantagem da proximidade logística. De forma que manter a perspectiva de mais vendas para lá, dizem os especialistas, serve para diversificar destinos, reduzindo a dependência da Ásia.
A Petrobras, principal exportadora de petróleo e derivados brasileiros, vendeu aos Estados Unidos em 2025, um total de 21,5 milhões de barris de petróleo cru, óleo combustível e gasolina. Em 2024, a venda total chegou a 32,5 milhões de barris. Não houve exportação de óleo bruto no primeiro trimestre de 2026, mas no mesmo período do ano passado, 1,9 milhão de barris brasileiros aportaram nos EUA. A estatal considera os EUA um mercado “de grande relevância, favorecido pela proximidade geográfica com o Brasil, o que assegura custos de frete competitivos”.
Pedro Souza, líder de óleo e gás da consultoria BIP, avalia que os EUA, embora relevantes, são também um mercado altamente competitivo, com fornecedores consolidados. “O Brasil vende para os EUA quando o preço, o frete, a qualidade do óleo e a demanda das refinarias fazem sentido.”
O óleo exportado para os Estados Unidos é do tipo pesado (“heavy oil”), lembra Manuel Fernandes, sócio-líder de energia e recursos naturais da KPMG. É, acrescenta ele, um tipo de menor demanda na Ásia - onde a preferência é pelo óleo de baixo enxofre. Por isso, as vendas para os estadunidenses têm uma importância crítica. “O Brasil não tem capacidade interna para processar todo o óleo pesado que produz. Além disso, precisar diversificar, reduzindo a forte concentração na Ásia”, diz.
A insegurança em rotas marítimas - especialmente pelo conflito no Oriente Médio - favorece fornecedores mais próximos geograficamente dos EUA. Isso porque reduz o custo com frete marítimo e oferece maior estabilidade de suprimento. Esse é um aspecto, observa João Victor Marques Cardoso, pesquisador da FGV Energia, que poderia alavancar a inserção do petróleo brasileiro nos EUA.
Os Estados Unidos, aponta ele, embora respondam por 11%, em média, das exportações nacionais de petróleo, têm uma dependência menor do Brasil. Apenas 3,2% do total importado pelos estadunidenses é brasileiro. “Outros players possuem maior penetração no mercado americano. O Canadá representa 63%, países do Golfo Pérsico, 8%; o México, 6% e Guiana, 3,4%”, diz Cardoso.
Em outra frente, grandes petroleiras americanas demonstram interesse em atuar em novas fronteiras exploratórias no Brasil. A ExxonMobil e a Chevron, por exemplo, adquiriram, em 2025, ativos na bacia da foz do Amazonas, na Margem Equatorial.
A primeira ficou com dez blocos, em parceria com a Petrobras, e a segunda arrematou nove, em consórcio com a chinesa CNPC. A atuação dessas empresas na exploração e produção no Brasil não necessariamente representa mais vendas ao seu país de origem. De modo geral, elas atuam pela lógica global de trading e otimização de portfólio.
“Olhando para a Opep [Organização dos Países Exportadores de Petróleo] e a situação geopolítica, além da geoeconomia atual, é bem provável que os Estados Unidos vejam o petróleo brasileiro como forma de diversificação”, diz o professor Roberto Dumas, do Insper.
O Brasil, afirma o professor, sendo um território sem guerras, pode fazer com que as petroleiras americanas se sintam propensas a investir aqui. “Mas ainda é cedo para dizer que há uma revoada desses investimentos”, avalia.
Simone Goldberg – Valor Econômico


.gif)

