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Setor de biodiesel em franca recuperação nos Estados Unidos


BiodieselBR.com - 23 set 2011 - 06:44 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:17

Por mais de três anos, a usina da SoyMor Biodiesel permaneceu inativa, vítima de uma crise setorial que afetou mais de um quarto das unidades americanas.

Mas o biodiesel está novamente em alta, e um sinal desta retomada deu-se recentemente em Glenville, cidadezinha no sul do Minnesota. Funcionários reativaram a fábrica, e em pouco tempo a produção era reiniciada.

“Todos ficaram de dedos cruzados, esperando que as coisas voltariam bem mais rápido ao normal”, diz o operário recontratado Aaron Kuennen, enquanto descarrega óleo de soja de um caminhão-tanque, sobre o longo período de dispensa.

Por todo o país, usinas de biodiesel retomam as atividades ou ampliam a produção, estimuladas pela volta do crédito fiscal federal e por leis de uso obrigatório de energias renováveis. Segundo o National Biodiesel Board (NBB), órgão que representa os produtores de biodiesel, no mês passado a produção americana caminhava para um recorde anual após quebrar três recordes mensais consecutivos.

A recuperação vem após o maior baque da história do setor. Pelo menos 52 das 170 usinas de biodiesel do país ficaram paradas no ano passado, enquanto outras reduziram a produção, de acordo com a Agência de Proteção Ambiental (EPA). Nos últimos dois anos completados em dezembro, o consumo de biodiesel por caminhões e equipamentos pesados caiu 54%.

No Minnesota, a fábrica de Glenville foi uma das primeiras a fechar. Seus proprietários, que moram na cidade, venderam-na no mês passado para o Renewable Energy Group, empresa de Iowa que construiu e chegou a administrar a própria usina por algum tempo. O letreiro da fábrica está encoberto por uma placa improvisada com as iniciais da empresa: REG.

A indústria de biodiesel americana cresceu graças à vontade de plantadores de soja de buscar preços melhores, no começo da década passada.

O estado de Minnesota começou prevendo o acréscimo de biodiesel no diesel vendido nos postos, em 2005, e hoje obriga uma mistura de 5%. Outros 19 estados oferecem variados incentivos em acréscimo ao crédito fiscal do governo federal, que estimulou distribuidoras a misturar biodiesel no combustível vendido.

No começo, os produtores de biodiesel apostavam quase que integralmente no óleo de soja como matéria-prima, submetendo-o a uma reação química com álcool para produzir um combustível semelhante ao diesel de petróleo. Agora, algumas usinas têm tecnologia para processar óleo de cozinha usado de restaurantes e óleos e gorduras não processados vindos de agroindústrias, frigoríficos e do setor de etanol. Cerca de metade da produção americana ainda provém do óleo de soja, segundo funcionários do setor.

No primeiro boom da indústria, a produção americana octuplicou entre 2004 e 2008, chegando a um pico de 2,75 bilhões de litros por ano. “Foi uma euforia enorme”, diz Ed Hegland, fazendeiro da região de Appleton, Minnesota, que presidiu a NBB de 2007 até 2010.

Então vieram os problemas: o crash financeiro global, barreiras alfandegárias que atrapalharam as vendas para a Europa e o preço elevado da soja. É o que relatam Hegland e outros. O maior golpe veio no ano passado, quando o Congresso americano eliminou temporariamente o crédito fiscal de US$ 1 por galão que incentivava distribuidoras a usar biocombustível.

“Foi extremamente difícil ver uma indústria de energia renovável que começava a se erguer sobre as próprias pernas sofrer um baque tão dramático por conta de uma série de fatores fora do seu controle”, diz Hegland.

Para a usina de Glenville – uma das duas usinas grandes do Minnesota, com capacidade para 120 milhões de litros anuais –, o fim veio de forma súbita em março de 2008. Rachel Asmus, que retornou recentemente para gerir o laboratório da usina, lembra do choque e da tristeza que se abateu sobre todos. “Numa semana eu tinha emprego”, diz ele. “Aí eles vieram e disseram que estaríamos desempregados ao fim da semana.”

O renascimento do setor começou em dezembro, quando o Congresso renovou o crédito fiscal por mais um ano e a Agência de Proteção Ambiental estabeleceu misturas obrigatórias maiores com sua nova especificação de combustíveis renováveis.

Em algumas usinas, a produção foi alavancada imediatamente. Mas a usina da SoyMor em Glenville continuou inativa, até ser vendida em julho para a REG, maior produtora de biodiesel dos Estados Unidos, numa transação de ações.

Em uma série de lances que causou grande concentração no setor, a REG adquiriu outras três usinas nos últimos 18 meses. E agora quer angariar US$ 100 milhões por meio de uma oferta de ações na bolsa para adquirir uma usina que vinha arrendando. A empresa planeja ainda concluir a construção de outras três unidades, cujos trabalhos foram interrompidos com a crise.

Myron Danzer, diretor de três usinas da REG, incluindo a unidade de Glenville, diz que o recomeço se deu normalmente. “Alguns componentes foram danificados por uma sobrecarga da rede elétrica, um encanamento estragou porque congelou, outros tiveram que ser limpos, e tivemos ainda que testar tudo”, relata.

Ele contratou 20 pessoas, cinco das quais ex-funcionários, e na quarta-feira a primeira carga de óleo de soja foi bombeada no sistema. Seis horas depois, às 9h14 da noite, Danzer estava “sentado em cima de um tanque com uma lanterna, esperando que o óleo chegasse”. Quando os primeiros litros começaram a despejar, todos na usina se reuniram na sala de controle para comemorar.

“Está funcionando desde então”, disse o diretor, acrescentando que nas 24 horas seguintes já haviam sido processados 200 mil litros. Os caminhões-pipa começam a levar combustível para as distribuidoras esta semana.

Depois do baque por que passaram, muitos no setor se perguntam se esta e outras usinas continuarão a operar, dada a recente resistência do Congresso em estender o crédito fiscal do biodiesel. A indústria vem fazendo lobby pela manutenção do crédito de US$ 1 por galão, e o deputado Collin Peterson (Democrata/Minnesota), defensor do setor, é um dos proponentes do projeto de lei na Câmara.

Uma pergunta em aberto é se a lei de mistura obrigatória de biodiesel da Agência de Proteção Ambiental – sem o incentivo fiscal às distribuidoras – é suficiente para manter o crescimento da indústria. O efeito seria o de aumentar o custo do biodiesel para as distribuidoras, que fazem a mistura e abastecem os postos.

“Vai ser um desafio muito, muito grande, como o que vimos no ano passado com a suspensão do crédito fiscal”, diz Hegland, que é membro da diretoria da Associação de Sojicultores do Minnesota. “Acho que [a não aprovação da extensão do crédito] causaria um impacto negativo forte no mercado”.

David Shaffer, de Glenville
Los Angeles Times
Tradução e adaptação BiodieselBR

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