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Falta de estrutura em usinas atrapalha logística das distribuidoras


BiodieselBR.com - 31 mar 2011 - 07:00 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:16

O ideal é que todos os carregamentos de biodiesel sejam produzidos rigorosamente dentro das especificações e consigam fazer todo o trajeto entre a usina e o tanque de combustível do consumidor final sem se desviar um milímetro dos parâmetros mínimos de qualidade. Acontece que não vivemos num mundo perfeito e isso significa que, eventualmente, um lote de biodiesel vai apresentar problemas e terá que ser devolvido. As usinas precisam estar preparadas para esse tipo de contingência para que o prejuízo dela e das distribuidoras nesses casos seja o menor possível.

Quando uma distribuidora busca o biodiesel em uma usina é essencial para ela que isso ocorra o mais rápido possível. Quanto maior a velocidade menor os custos logísticos. Várias usinas se preocuparam em otimizar seu processo de carregamento de biodiesel para mostrar eficiência às distribuidoras. O problema é que muitos projetos não contemplaram a possibilidade de ter que receber uma eventual carga de biodiesel que apresentou problema.

Algumas grandes usinas de biodiesel no Brasil não têm estrutura de descarga de biodiesel e isso torna-se um transtorno duplo para as distribuidoras. Além de terem que fazer duas viagens com o caminhão para as usinas, é necessário esperar de um a três dias para que o caminhão possa ser descarregado e carregado novamente.

É preciso que as usinas tenham planos de contingência para receber de volta cargas problemáticas. Elas precisam ter tanques e equipamentos sempre a postos para descarregar um bitrem que tenha precisado dar meia volta. A BSBios de Passo Fundo (RS) é uma das usinas que pensaram nesse tipo estrutura desde o projeto da unidade. “Quando desenvolvemos o projeto da BSBios pensamos nessas eventualidades e, caso aconteça, podemos receber uma carga de volta sem que isso atrapalhe nossas operações”, assegura o diretor de operações, Erasmo Carlos Battistella.

Mas quem paga a conta quando isso acontece? É meio nebuloso quem arca com os custos das viagens extras e das diárias do caminhão do momento em que ele precisa dar meia-volta para devolver um carregamento até que ele consiga finalmente fazer a entrega que estava planejada. Como o atual sistema de leilões criado pelo PNPB torna a Petrobras corresponsável por todo o biodiesel comercializado no Brasil, a Gerência de Comércio de Biodiesel da estatal tem um canal de atendimento para resolver esses casos. Segundo Battistella, se o problema foi de produto fora de especificação, a usina vai ficar com o prejuízo.

Por que o biodiesel é devolvido

O setor está cansado de saber que o biodiesel é menos estável que o seu primo de origem fóssil. Por ser mais higroscópico – ou seja, tem maior capacidade de absorver e reter umidade –, o biodiesel é mais susceptível ao ataque de microorganismos e aumenta a formação de borra nos tanques de armazenamento de combustíveis. Seu maior poder de solvência também aumenta a corrosão em certos tipos de elastômeros e metais cuja presença deve, portanto, ser evitada em tanques ou tubulações que entrem em contato com o biodiesel ou qualquer mistura deste.

Mas, desde o começo do ano passado, a questão da qualidade do biodiesel se tornou um campo minado sobre o qual a maioria tenta desconversar. O índice de não-conformidades do óleo diesel, apurados pela ANP, começou a disparar – chegando a preocupantes 5,2% em março de 2010 – e as organizações representativas dos postos e dos distribuidores de combustíveis começaram a reclamar que algo estranho estava acontecendo com o óleo diesel. Segundo eles, conforme a mistura de biodiesel ia subindo, muitos donos de postos começaram a perceber aumentos significativos na formação de borra em seus tanques e filtros. Usineiros, distribuidores e revendedores passaram um tempo se estranhando sem saber direito de quem era a culpa ou o que fazer para resolver o problema [Veja mais detalhes sobre o assunto na reportagem “Algo errado com o B5?” ].

De lá para cá a situação melhorou com redução nos índices de não-conformidade e o setor negociou um novo Guia de Procedimentos de Manuseio e Armazenagem de Óleo Diesel B. Este manual traz recomendações para assegurar que o biodiesel e suas misturas não sofram alterações durante o processo de armazenamento, transporte e distribuição.

Mesmo assim, ainda é cedo para declarar que a missão está cumprida. Segundo o pesquisador da Divisão de Degradação e Corrosão do Instituto Nacional de Tecnologia, Dr. Eduardo Cavalcanti, se um biodiesel já sai da usina no limite da especificação ele não vai precisar de muito para estragar. Dependendo da distância do trajeto, pode até acontecer que um biodiesel saia em bom estado da usina e chegue imprestável na distribuidora.  

Mas se a viagem foi curta, então “o mais provável é que já tenha saído da fábrica fora da especificação”, pondera o pesquisador.

E considerando que, segundo levantamento do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom), o biodiesel roda, em média, 1.400 km no caminho entre a usina e a base de distribuição, as chances de algo sair errado não são poucas.

A necessidade de uma especificação um pouco mais rígida se faz necessário para evitar que um biodiesel não especificado entre na mistura B5, especialmente se o país quiser contar com percentuais mais elevados do biocombustível.

Decidir de quem é a responsabilidade do biodiesel que estraga pelo caminho pode não ser simples. O diretor de operações da BSBios, Erasmo Carlos Battistella alerta, contudo, que é preciso o olhar também para as condições do caminhão que fez esse transporte para ver seu estado de conservação. “O pessoal bate muito no biodiesel, mas não olha o caminhão”, diz.

Fábio Rodrigues - BiodieselBR.com