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Opiniões

Energia flácida


Folha de S.Paulo - 28 ago 2015 - 10:05
EditoriaFolha 280815
À parte os chistes sobre metas não estipuladas que se cumprem e são então duplicadas, o planejamento em Brasília é mesmo uma ocupação peculiar. No setor de energia, por exemplo, ou se fixam objetivos alcançáveis por mero crescimento vegetativo, ou se perseguem quimeras com efeitos práticos desastrosos.

Da segunda modalidade estão aí as contas de luz para dar prova. No intuito de baixar na marra os custos de energia elétrica, o primeiro governo da presidente Dilma Rousseff (PT) – ex-ministra de Minas e Energia, recorde-se – lançou-se numa aventura intervencionista que resultou no seu oposto.

Não faltará no Planalto disposição para atribuir à estiagem a culpa pelo aumento dos preços, assim como todas as mazelas da economia derivariam apenas da crise internacional. Pura fabulação; quem tem os olhos abertos sabe que a imperícia federal é a fonte primária de tantas dificuldades.

Governar implica decidir o que fazer e fazer o que se decidiu. Quem tem pouca aptidão para a tarefa recorre a embustes, como decidir fazer o que já está sendo feito. É o caso das energias renováveis.

Ao visitar os EUA em junho, Dilma anunciou com o presidente daquele país, Barack Obama, que, para combater a mudança do clima, o Brasil teria sua matriz elétrica com 20% de fontes limpas em 2030. Dessa conta se excluía a hidreletricidade, cujas barragens originam considerável impacto ambiental.

O compromisso foi também formulado conforme o conceito de energia primária, que, além da eletricidade, abrange o combustível consumido no setor de transportes, por exemplo. Nesse caso, as renováveis passariam a representar no mínimo 28% dentro de 15 anos.

Pois bem: como mostrou nesta quinta (27) a série de reportagens "O Brasil que Dá Certo", desta Folha, o país não está muito distante do primeiro objetivo, com 13% de fontes limpas na capacidade instalada para gerar energia elétrica.

Na segunda acepção (energia primária), de acordo com o critério mais estrito da oferta interna de energia, temos de partida 27,9% (4,1% de geração eólica e solar, 15,7% de bagaço de cana e 8,1% de lenha e carvão vegetal). Missão cumprida, portanto, década e meia antes do prazo, faltando apenas arredondar 0,1%.

Planejar como metas os resultados já obtidos com energia renovável não hidráulica equivale a não fixar meta nenhuma. É somente o corolário do desdém com que o Planalto sempre a encarou, em favor de obras faraônicas de hidrelétricas, tão ao gosto das empreiteiras implicadas na Operação Lava Jato.

Agora que os riscos da mudança do clima e a queda vertiginosa dos preços das energias eólica e fotovoltaica as impõem como opção incontornável, o governo federal quer fazer parecer que adotou objetivos ambiciosos –quando se propõe somente a tentar acertar o passo com setores que já andam pelas próprias pernas.