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[APROBIO] A memória que fica


Revista BiodieselBR - 28 set 2015 - 16:02 - Última atualização em: 29 set 2015 - 10:13
Texto publicado na última edição da revista BiodieselBR.

Quando o governo federal lançou o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB), em dezembro de 2004, quase ninguém imaginava que dez anos depois – a produção comercial só começou no ano seguinte – uma das mais sofisticadas fontes renováveis da matriz veicular do país estaria se consolidando como setor importante da economia brasileira. 

De lá para cá, a produção do biocombustível enfrentou muitas dificuldades, mesmo dentro de sua multifacetada cadeia produtiva, com diferentes segmentos e interesses econômicos. Pouco a pouco, cada uma delas foi sendo superada. E as que ainda não o foram, serão. Outras virão, é natural, e terão o mesmo tratamento.

Assim é o cotidiano dos empresários de qualquer cadeia de produção: resolver problemas pelo diálogo, pela interlocução propositiva com o mercado e as autoridades regulatórias, em nome do consenso, num jogo de soma diferente de zero, onde todos ganham.

No último bimestre de 2007, quando a Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil nem existia ainda e o biodiesel engatinhava nos 2% de mistura em caráter autorizativo, o site BiodieselBR.com lançou sua revista, de mesmo nome.

Como seu irmão digital, a publicação logo se tornou uma referência técnica na área de biocombustíveis, de repercussão internacional, dado o volume de consultas da imprensa estrangeira a ambos. Com a imprensa brasileira não especializada acontecia, e ainda acontece, o mesmo. Sempre que algum jornalista de economia de jornal ou revista vai escrever sobre o setor, procura antes se informar em BiodieselBR.

Os conteúdos que o site publicava, e ainda o faz, em velocidade expressa e com texto objetivo – como exige o jornalismo diário de hoje, mais instantâneo do que nunca, nervoso e quase ansioso com a emergência do tempo real da internet – a revista trazia de forma mais aprofundada e contextualizada, indicando tendências e interpretando fatos e opiniões, que ouvia de todos, sem exceção.

Para completar, todo ano o grupo promove o congresso internacional de biodiesel, outra referência técnica do setor, que formava um tripé de geração de conteúdo, debates, discussão de rumos das políticas públicas, decisões governamentais, experiências de outros países e movimentos do mercado a caminho do inexorável futuro.

Hoje o biodiesel avança cada vez mais na vida do brasileiro, que mal o conhece como combustível de seu carro, do ônibus que leva seus filhos para a escola ou do caminhão que recolhe o lixo na porta de sua casa.

Mas esse é somente um dos muitos passos ainda por se dar na longa jornada deste biocombustível que só traz benefícios à sociedade. Sejam eles ambientais ou de saúde pública, econômicos ou de inclusão socioeconômica, o biodiesel vai ocupando seu espaço, apesar das inúmeras resistências.

A revista BiodieselBR sempre foi a vitrine dessa trajetória de trabalho, com seus reveses e conquistas. Enquanto executivos do governo e empresários consultavam o site diariamente para se atualizar, inclusive no acompanhamento em tempo real dos leilões na ANP, a revista era lida com mais calma, concentração e discernimento, pois assim era produzida. Isso a transformava num fórum de reflexão e planejamento no processo de tomada de decisões.

A vida de quem produz biodiesel não é fácil. O óleo é sensível à ação do tempo, portanto exige mais cuidados nas condições de seu armazenamento. Para completar, os critérios técnicos que definem seu padrão de qualidade na ANP são dos mais rigorosos do mundo. A formação deseus custos e preços com margens que remunerem os investimentos resulta de uma série de variantes.

É a oscilação cambial do preço dos insumos importados e a incidência de impostos sobre eles, os custos de funcionamento de uma usina (sem mencionar as não amortizadas), o sobe e desce da cotação de commodities na Bolsa de Chicago, os dispêndios com a aquisição de matéria-prima da agricultura familiar e no fornecimento de assistência técnica ao pequeno agricultor. A revista BiodieselBR, tal como o site, sempre foi uma bússola nesse mar de informação, por vezes revolto, impreciso e traiçoeiro.

Nos últimos anos, sobretudo em 2012 e 2013, muitas empresas fecharam suas portas por não ter como suportar um mercado de demanda reprimida quando a ociosidade industrial superava os 60%. Mesmo hoje, com o B7, ela ainda gira em torno dos 45%.

Esse foi um drama só superado pelo que aconteceu com as usinas de etanol, e que a revista acompanhou a cada nova notícia ruim, a cada planta que saía do mercado, a cada demissão de colaboradores.

Mais do que para enaltecer os benefícios do biodiesel, mas antes para comprová-los de fato, a APROBIO e outras associações do setor por mais de uma vez contrataram os serviços de instituições de respeito no mundo acadêmico, científico, econômico e de gestão para se debruçarem sobre essas externalidades positivas que a atividade encerra.

Assim, Fundação Getúlio Vargas, Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, Instituto Saúde e Sustentabilidade e outros grandes centros de conhecimento emprestaram suas reputações para mostrar ao país que o biodiesel polui menos, evita internações hospitalares, ajuda a salvar vidas e a economizar recursos dos sistemas de saúde pública e da balança comercial ao reduzir as importações de óleo diesel, o que também contribui para poluir ainda menos.

A interlocução com as autoridades do governo em suas três esferas e com a ANP sempre foi produtiva e respeitosa. Desde 2010, depois de o setor investir R$ 4 bilhões para erguer um parque industrial com quase 70 fábricas, gerando mais de 100 mil empregos, ele não para de levar informação ao governo para fundamentar suas decisões.

O ceticismo é natural nas tratativas do poder público com o setor privado em ambientes regulados. A revista e o site sempre noticiaram os bastidores desse ecossistema de interesses inauditos com rigor técnico e espírito crítico, como ditam as regras do jornalismo.

Essa postura independente, até onde se sabe, nem sempre teve a concordância de todos. A APROBIO mesmo, por mais de uma vez, discordou do enfoque da revista e do site para determinadas matérias, num estilo de texto editorializado que informa e opina a um só tempo, induzindo o leitor a conclusões previsíveis.

Contudo, a convivência do setor com as publicações, pelo menos no que tange a essa Associação, sempre se pautou pelo respeito mútuo. Respeitar, no entanto, não implica necessariamente concordar.

O importante é a garantia da liberdade de expressão, principalmente na imprensa, sem esquecer as palavras do filósofo iluminista francês Voltaire: “Não concordo com uma só palavra do que dizes, mas darei a vida para assegurar que o digas”.

O biodiesel brasileiro, uma criança de apenas dez anos de idade, tem um longo caminho pela frente. Não restam dúvidas que se faz necessária a evolução de seu mercado, inclusive na exportação. Somos o segundo maior produtor mundial do biocombustível, atrás dos Estados Unidos.

Assim, além de trabalhar pela mistura diferenciada de B20 nas regiões metropolitanas acima de 500 mil habitantes, pela evolução de 1 p.p. por ano da mistura obrigatória e a permissão para que as máquinas e equipamentos agrícolas possam utilizar misturas de 30% de biodiesel, ou superiores, a APROBIO e o setor como um todo não abrem mão de sua eterna bandeira pela edição de um novo marco regulatório.

Tudo o que queremos é o básico para qualquer cadeia produtiva operar com o mínimo de previsibilidade de médio e longo prazos. Ou seja, um conjunto de regras que confiram segurança jurídica e regulatória para garantir a normalidade do ritmo dos investimentos, em nome da continuidade do abastecimento do mercado com um combustível limpo e moderno.

Para o bem do Brasil, o biodiesel vai continuar. Para o mal do setor, a revista BiodieselBR vai nos deixar. O site continuará ativo e vigilante. Mas o espaço de estudo aprofundado e detalhado ficará na memória, como o que sempre foi: um documento importante do surgimento de um empreendedorismo de sucesso, como foi a própria revista.

APROBIO – Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil