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Fábio Rodrigues, de São Paulo
O engenheiro químico Luís Carlos da Costa Filho leva uma vida dupla como diretor industrial da goiana Binatural e da paulista SP Bio. Embora partilhem alguns acionistas, as usinas não fazem parte de um mesmo grupo. Isso permite que o executivo tenha contado com realidades diversas de um mesmo mercado. Ele conversou com BiodieselBR sobre essa experiência e sobre a evolução – passada e esperada – do setor.
BiodieselBR – Como foi que você tomou contato com o biodiesel?
Luís Carlos – A primeira vez que eu ouvi falar de biodiesel foi no início dos anos 2000, ainda na faculdade. Eu estava em um congresso da Universidade Federal do Pará e um aluno da Federal do Ceará fez uma apresentação sobre o projeto de automação de uma planta de biodiesel. Ele trabalhava na Tecbio, que na época estava projetando a planta da Brasil Ecodiesel em Floriano (PI). Esse foi meu primeiro contato com o tema.
BiodieselBR – Mas como virou profissão?
Luís Carlos – Eu era estagiário do Cenpes [Centro de Pesquisas e Desenvolvimento] da Petrobras e uma colega de faculdade me mandou um e-mail com informações sobre vagas na área de laboratório na usina da Brasil Ecodiesel em Iraquara (BA). Como eu estava para terminar o curso, resolvi arriscar e mandei meu currículo. Acabei contratado para o cargo de supervisor de qualidade.
BiodieselBR – Quais foram os principais aprendizados nesses anos todos?
Luís Carlos – O aprendizado é diário, todo dia tem uma situação nova que faz rever suas decisões para tentar achar algo melhor. E a própria indústria passou por algumas transformações importantes nesses anos. Bem no começo, a produção era quase exclusivamente de óleo de soja e não havia uma preocupação tão grande com a preparação da matéria-prima ou com o custo industrial. Esses temas não eram muito falados. Só com o crescimento do mercado e o aumento da competitividade do setor foi que isso ganhou mais relevância e as empresas começaram a olhar mais para dentro de casa para rever seus custos e introduzir novos mixes de matérias-primas. Hoje, eficiência industrial se tornou uma obrigação. Se você quer mesmo participar do jogo, sua usina tem que ter eficiência. Mas eu acho que a maior evolução foi relativa à qualidade do biodiesel. Hoje temos um padrão de qualidade que está seguramente entre os mais rígidos do mundo.
BiodieselBR – E foi difícil chegar nesse ponto de maturidade?
Luís Carlos – Esse sempre é um processo custoso, mas tínhamos uma situação de mercado muito diferente da que temos hoje. Com menos players, o mercado não era tão concorrido. Mas eu também não acho que tenhamos chegado ao auge da maturidade em nosso mercado. Estamos falando de uma indústria que tem dez anos de existência, então ainda é uma coisa relativamente nova. Por isso, eu acredito que teremos novidades importantes nos próximos anos. Coisas que hoje são de ponta mas devem se tornar rotina para as usinas.
BiodieselBR – Tem algo em particular?
Luís Carlos – Acho que a eficiência em termos de matérias-primas alternativas é algo que está sempre na mira, porque tem potencial para baratear o processo produtivo. A tecnologia enzimática também é algo que tende a evoluir bastante nos próximos anos. Nós mesmos estamos estudando alguns projetos nessa direção.
BiodieselBR – As enzimas têm mesmo esse potencial todo?
Luís Carlos – Ainda não sei. Estamos apenas começando a estudar o assunto, ainda lendo o que já saiu por aí e fazendo testes de bancada. Mas os primeiros testes foram satisfatórios e achamos que é algo que tem potencial. Hoje, a grande questão é que, como são importadas, o preço das enzimas varia com o dólar e, nas cotações atuais, não tem viabilidade financeira. Se o dólar voltar a cair acho que será uma tecnologia relevante, porque permitiria usar matérias-primas com uma acidez elevadíssima. Certamente é algo que vale a pena você ficar de olho.
BiodieselBR – E como é a relação entre a Binatural e a SP Bio? As empresas fazem parte de um mesmo grupo?
Luís Carlos – Não, Binatural e SP Bio são empresas diferentes, com estruturas societárias distintas, mas que têm alguns acionistas em comum. Esses acionistas acharam que valia a pena manter uma gestão industrial compartilhada, mas é só. Eu trabalho nas duas empresas, mas cada uma delas tem estruturas próprias.
BiodieselBR – Ficar trocando de chapéu assim não é complicado?
Luís Carlos – Como elas atuam em mercados regionais diferentes, elas não são concorrentes diretas. Por isso, eu não acho que haja um conflito de interesses. Os acionistas que, afinal, são os meus patrões também pensam assim e entendem que essa divisão de tempo vale a pena.
BiodieselBR – A SP Bio é um caso interessante. Ela passou um tempo relativamente longo sem vender biodiesel, mas voltou à ativa no L40. Por que isso aconteceu?
Luís Carlos – Isso se deveu a uma série de fatores. O ano passado foi complicado para o setor, com uma concorrência muito grande que jogou o preço do biodiesel para baixo, especialmente durante o 1º semestre. Ao lado disso, a SP Bio estava com um processo de ampliação de capacidade na ANP que demorou para sair. Como a fábrica era pequena, a falta de escala prejudicava a conta naquelemomento, por isso decidimos interromper a produção e aproveitar para fazer algumas melhorias na planta e nos prepararmos para a chegada do B7, na crença de que esse aumento tornaria o mercado mais atrativo em 2015. Infelizmente, os dois últimos leilões não corresponderam às expectativas.
BiodieselBR – O mercado está ruim de novo?
Luís Carlos – Eu não chegaria a dizer que está ruim, mas o mercado está complicado.
BiodieselBR – A SP Bio também usa óleos e gorduras recuperados, não?
Luís Carlos – A SP Bio sempre teve um volume considerável de consumo de óleo recuperado porque está instalada em Sumaré (SP), e isso favorece. É basicamente uma questão de escala. O estado de São Paulo tem diversos fornecedores com estrutura para fornecer óleo recuperado na qualidade necessária. Aqui em Goiás há uma dificuldade maior para você obter esse tipo de matéria-prima.
BiodieselBR – Quais as vantagens e desvantagens dessa matéria-prima?
Luís Carlos – A grande vantagem está no preço, que é baixo na comparação com o óleo de soja. Sem contar que esse é um material que geralmente acaba descartado na rede de esgoto, onde vira um passivo ambiental importante. A dificuldade está relacionada ao processamento. O óleo recuperado tem variações muito grandes na qualidade; ora ele chega com muita acidez, ora com muito umidade, ora com sedimentos. Isso tudo dificulta na hora de fazer o processamento desse material.
BiodieselBR – É mais difícil trabalhar com ele?
Luís Carlos – Sim. Existem técnicas para reduzir o risco. Você pode, por exemplo, fazer blends com um percentual maior ou menor de óleo recuperado, de acordo com a qualidade com que ele chega na fábrica. Mas a primeira coisa é mesmo selecionar fornecedores que consigam entregar um óleo com qualidade pré-estabelecida. Precisamos de empresas bem estruturadas que consigam receber, fazer um processo de decantação, filtragem e secagem desse material para que ele passe a atender padrões mínimos que permitam comprar um óleo padronizado, esteja você em São Paulo ou em Brasília. Para uma usina de biodiesel, fazer todo esse trabalho preliminar é algo muito desgastante e são poucas as regiões do Brasil que contam com empresas especializadas nesse mercado.
BiodieselBR – É um segmento que ainda precisa se estruturar, como aconteceu com a indústria de sebo?
Luís Carlos – Isso. Hoje, o sebo superou essa necessidade de definir padrões de qualidade. Claro que tem variações nos parâmetros, mas, no geral, você consegue comprar sebo com uma qualidade padrão.
BiodieselBR – O que muda entre gerir uma usina que está perto da matéria-prima, como a Binatural, e outra perto do consumo, caso da SP Bio?
Luís Carlos – Se fizer uma avaliação puramente industrial, tanto faz. Do ponto de vista da indústria, o que importa é o que acontece da balança para dentro da fábrica e de dentro da fábrica para os tanques. O peso dos fretes, tanto de matéria-prima quanto de produto acabado, é uma conta mais comercial. Mas, vamos pensar que a SP Bio está a cerca de 30 quilômetros de Paulínia: isso, com certeza, é um atrativo. Só que a concorrência está tão grande que essa vantagem logística desaparece. As usinas do Sul conseguem ser competitivas em colocar biodiesel a mil quilômetros de distância. A Binatural é um pouco diferente porque estamos ao lado de Brasília, que é um grande centro consumidor, e na porta da região Nordeste. E não estamos tão perto assim da matéria-prima quanto se poderia supor. Muitos de nossos contratos estão no Mato Grosso.
BiodieselBR – Qual é o segredo, então?
Luís Carlos – Você tem que ter um delta positivo entre o preço de aquisição da matéria-prima e o preço do biodiesel. Para isso, é claro que você precisa fazer o dever de casa do ponto de vista industrial, no sentido de ter o menor custo de transformação possível com boa eficiência em termos de consumo de insumos como metanol e metilato. E não adianta nada você ter tudo isso, se não atender às expectativas das distribuidoras em termos de agilidade no carregamento e qualidade do produto final. Se as distribuidoras não virem vantagem em comprar de você, não importa o quanto seu delta é positivo.
BiodieselBR – Em 2009, a Binatural se envolveu em um dos piores acidentes da história do setor. Como isso afetou a cultura de segurança?
Luís Carlos – Esse é um assunto chato de lembrar, mas que eu acredito já estar superado internamente. Sempre estivemos preocupados com a segurança, sempre fizemos investimentos grandes na área, mas desde o acidente redobramos a atenção tanto em nossas contratações, tornando o processo mais rígido, como ainda aumentando o treinamento antes de colocar um colaborador para trabalhar dentro de nossa planta. A legislação do setor também evoluiu do ponto devista de segurança. Tivemos alterações importantes nas resoluções que regulam o processo produtivo.
BiodieselBR – Qual o papel que a Binatural e a SP Bio querem assumir no mercado?
Luís Carlos – A Binatural vai continuar tentando ser o mais competitiva possível. Já temos uma posição consolidada no mercado e temos como meta continuar sendo eficientes e atrativos dentro de nossa região de atuação. Já a SP Bio vai explorar o diferencial de estar ao lado do maior centro consumidor de diesel do país, atuando de forma ágil para se tornar mais atrativa.
BiodieselBR – Estamos passando por um momento conturbado. De um lado, temos uma economia cambaleante, por outro temos o B7 que está blindando o setor. O que vocês estão esperando até o final do ano?
Luís Carlos – Eu diria que não estamos nem eufóricos nem pessimistas. Vamos continuar tendo leilões disputados, mas, como a colheita da safra de soja já acabou, acho que teremos leilões com preços mais justos, porque as usinas não deverão continuar com uma competição tão devastadora. Por isso, vejo que o mercado tende a se normalizar para o segundo semestre, com preços de biodiesel um pouco melhores em relação ao custo da matéria-prima.
BiodieselBR – E a mudança do setor na relação com a glicerina?
Luís Carlos – A glicerina deixou de ser um subproduto e passou a ter uma importância na conta da indústria. Ficou para trás o tempo em que tinha usina que alugava tancagem para estocar a glicerina porque não tinha onde colocar. Hoje, ela se tornou praticamente um segundo produto para as usinas, com rota própria tanto na área comercial quanto na industrial. Temos, inclusive, passado por um processo interno de padronização da produção e do controle de qualidade, que chega a mandar um lote de glicerina para reprocessamento quando ele está fora do padrão. Se bem que nos últimos meses o preço da glicerina tem estado bem ruim. Ele até deu uma melhorada, mas ainda está longe do que já foi.
BiodieselBR – Até hoje a expansão do mercado de biodiesel tem vindo com aumentos da mistura, o que deixa o crescimento do setor à mercê do governo. O que as usinas poderiam fazer para crescer por conta própria?
Luís Carlos – É um assunto complicado, mas acho que a primeira coisa é mesmo ter um marco regulatório com perspectivas de médio e longo prazos. Só assim os empresários vão conseguir planejar investimentos. Porque o empresário que faz jus a seu negócio trabalha para mantê-lo sempre atrativo, mas isso se complica quando você não tem segurança de qual vai ser o mercado nos próximos anos. Sem isso, falar de qualquer coisa vira uma incógnita. Até para falar de outras opções que precisam ser colocadas na mesa, como o B20 Metropolitano ou o B Agro. Essas opções também precisam ser reguladas por lei.
BiodieselBR – Liberar a compra opcional de biodiesel acima do B7 seria um caminho?
Luís Carlos – É uma ideia da qual eu gosto, especialmente com os preços praticados pelo biodiesel hoje. Ele já seria competitivo em várias localidades do interior do país, então não vejo por que não liberar para as distribuidoras comprarem. Até porque há outras questões envolvidas, como a questão ambiental. E não estou falando só das emissões, mas de um possível aumento no consumo de óleo recuperado, que é um passivo ambiental importante. O B20 Metropolitano traria ganhos fenomenais para a saúde pública ao diminuir a mortalidade e as internações por problemas respiratórios. Particularmente, acho que o setor deveria colocar essas questões mais na pauta. Falamos muito do preço do biodiesel e como ele se compara ao preço do diesel fóssil. Essa comparação é importante, mas deixamos de olhar outros custos e benefícios. Esse é um debate que o setor de biodiesel deveria trazer mais.
BiodieselBR – O das externalidades?
Luís Carlos – O setor deveria ampliar mais esse tipo de assunto porque é algo incontestável. É difícil alguém ficar contra algo que vai salvar vidas e tirar gente do hospital.
BiodieselBR – E temos capacidade para atender esses mercados opcionais?
Luís Carlos – Nunca faltou produto, nunca tivemos um desabastecimento no mercado de biodiesel. E olha que o B5 foi antecipado em três anos. Ele deveria ter entrado em 2013 e entrou em 2010. Basta o governo sinalizar que está disposto a fazer isso para o setor responder à altura.
BiodieselBR – Como você vê as perspectivas de futuro do mercado de biodiesel?
Luís Carlos – Esse é um mercado que já tem uma força grande e já se mostrou viável. Do ponto de vista industrial eu acho que vamos ver muitas alternativas de matéria-prima de baixo valor agregado e tecnologias voltadas ao barateamento do processo produtivo consolidadas. Os catalisadores enzimáticos, por exemplo. Já na área política, eu torço todos os dias para que sejam aprovadas leis que deem mais segurança ao setor.
BiodieselBR – Como foi que você tomou contato com o biodiesel?
Luís Carlos – A primeira vez que eu ouvi falar de biodiesel foi no início dos anos 2000, ainda na faculdade. Eu estava em um congresso da Universidade Federal do Pará e um aluno da Federal do Ceará fez uma apresentação sobre o projeto de automação de uma planta de biodiesel. Ele trabalhava na Tecbio, que na época estava projetando a planta da Brasil Ecodiesel em Floriano (PI). Esse foi meu primeiro contato com o tema.
BiodieselBR – Mas como virou profissão?
Luís Carlos – Eu era estagiário do Cenpes [Centro de Pesquisas e Desenvolvimento] da Petrobras e uma colega de faculdade me mandou um e-mail com informações sobre vagas na área de laboratório na usina da Brasil Ecodiesel em Iraquara (BA). Como eu estava para terminar o curso, resolvi arriscar e mandei meu currículo. Acabei contratado para o cargo de supervisor de qualidade.
BiodieselBR – Quais foram os principais aprendizados nesses anos todos?
Luís Carlos – O aprendizado é diário, todo dia tem uma situação nova que faz rever suas decisões para tentar achar algo melhor. E a própria indústria passou por algumas transformações importantes nesses anos. Bem no começo, a produção era quase exclusivamente de óleo de soja e não havia uma preocupação tão grande com a preparação da matéria-prima ou com o custo industrial. Esses temas não eram muito falados. Só com o crescimento do mercado e o aumento da competitividade do setor foi que isso ganhou mais relevância e as empresas começaram a olhar mais para dentro de casa para rever seus custos e introduzir novos mixes de matérias-primas. Hoje, eficiência industrial se tornou uma obrigação. Se você quer mesmo participar do jogo, sua usina tem que ter eficiência. Mas eu acho que a maior evolução foi relativa à qualidade do biodiesel. Hoje temos um padrão de qualidade que está seguramente entre os mais rígidos do mundo.
BiodieselBR – E foi difícil chegar nesse ponto de maturidade?
Luís Carlos – Esse sempre é um processo custoso, mas tínhamos uma situação de mercado muito diferente da que temos hoje. Com menos players, o mercado não era tão concorrido. Mas eu também não acho que tenhamos chegado ao auge da maturidade em nosso mercado. Estamos falando de uma indústria que tem dez anos de existência, então ainda é uma coisa relativamente nova. Por isso, eu acredito que teremos novidades importantes nos próximos anos. Coisas que hoje são de ponta mas devem se tornar rotina para as usinas.
BiodieselBR – Tem algo em particular?
Luís Carlos – Acho que a eficiência em termos de matérias-primas alternativas é algo que está sempre na mira, porque tem potencial para baratear o processo produtivo. A tecnologia enzimática também é algo que tende a evoluir bastante nos próximos anos. Nós mesmos estamos estudando alguns projetos nessa direção.
BiodieselBR – As enzimas têm mesmo esse potencial todo?
Luís Carlos – Ainda não sei. Estamos apenas começando a estudar o assunto, ainda lendo o que já saiu por aí e fazendo testes de bancada. Mas os primeiros testes foram satisfatórios e achamos que é algo que tem potencial. Hoje, a grande questão é que, como são importadas, o preço das enzimas varia com o dólar e, nas cotações atuais, não tem viabilidade financeira. Se o dólar voltar a cair acho que será uma tecnologia relevante, porque permitiria usar matérias-primas com uma acidez elevadíssima. Certamente é algo que vale a pena você ficar de olho.
BiodieselBR – E como é a relação entre a Binatural e a SP Bio? As empresas fazem parte de um mesmo grupo?
Luís Carlos – Não, Binatural e SP Bio são empresas diferentes, com estruturas societárias distintas, mas que têm alguns acionistas em comum. Esses acionistas acharam que valia a pena manter uma gestão industrial compartilhada, mas é só. Eu trabalho nas duas empresas, mas cada uma delas tem estruturas próprias.
BiodieselBR – Ficar trocando de chapéu assim não é complicado?
Luís Carlos – Como elas atuam em mercados regionais diferentes, elas não são concorrentes diretas. Por isso, eu não acho que haja um conflito de interesses. Os acionistas que, afinal, são os meus patrões também pensam assim e entendem que essa divisão de tempo vale a pena.
BiodieselBR – A SP Bio é um caso interessante. Ela passou um tempo relativamente longo sem vender biodiesel, mas voltou à ativa no L40. Por que isso aconteceu?
Luís Carlos – Isso se deveu a uma série de fatores. O ano passado foi complicado para o setor, com uma concorrência muito grande que jogou o preço do biodiesel para baixo, especialmente durante o 1º semestre. Ao lado disso, a SP Bio estava com um processo de ampliação de capacidade na ANP que demorou para sair. Como a fábrica era pequena, a falta de escala prejudicava a conta naquelemomento, por isso decidimos interromper a produção e aproveitar para fazer algumas melhorias na planta e nos prepararmos para a chegada do B7, na crença de que esse aumento tornaria o mercado mais atrativo em 2015. Infelizmente, os dois últimos leilões não corresponderam às expectativas.
BiodieselBR – O mercado está ruim de novo?
Luís Carlos – Eu não chegaria a dizer que está ruim, mas o mercado está complicado.
BiodieselBR – A SP Bio também usa óleos e gorduras recuperados, não?
Luís Carlos – A SP Bio sempre teve um volume considerável de consumo de óleo recuperado porque está instalada em Sumaré (SP), e isso favorece. É basicamente uma questão de escala. O estado de São Paulo tem diversos fornecedores com estrutura para fornecer óleo recuperado na qualidade necessária. Aqui em Goiás há uma dificuldade maior para você obter esse tipo de matéria-prima.
BiodieselBR – Quais as vantagens e desvantagens dessa matéria-prima?
Luís Carlos – A grande vantagem está no preço, que é baixo na comparação com o óleo de soja. Sem contar que esse é um material que geralmente acaba descartado na rede de esgoto, onde vira um passivo ambiental importante. A dificuldade está relacionada ao processamento. O óleo recuperado tem variações muito grandes na qualidade; ora ele chega com muita acidez, ora com muito umidade, ora com sedimentos. Isso tudo dificulta na hora de fazer o processamento desse material.
BiodieselBR – É mais difícil trabalhar com ele?
Luís Carlos – Sim. Existem técnicas para reduzir o risco. Você pode, por exemplo, fazer blends com um percentual maior ou menor de óleo recuperado, de acordo com a qualidade com que ele chega na fábrica. Mas a primeira coisa é mesmo selecionar fornecedores que consigam entregar um óleo com qualidade pré-estabelecida. Precisamos de empresas bem estruturadas que consigam receber, fazer um processo de decantação, filtragem e secagem desse material para que ele passe a atender padrões mínimos que permitam comprar um óleo padronizado, esteja você em São Paulo ou em Brasília. Para uma usina de biodiesel, fazer todo esse trabalho preliminar é algo muito desgastante e são poucas as regiões do Brasil que contam com empresas especializadas nesse mercado.
BiodieselBR – É um segmento que ainda precisa se estruturar, como aconteceu com a indústria de sebo?
Luís Carlos – Isso. Hoje, o sebo superou essa necessidade de definir padrões de qualidade. Claro que tem variações nos parâmetros, mas, no geral, você consegue comprar sebo com uma qualidade padrão.
BiodieselBR – O que muda entre gerir uma usina que está perto da matéria-prima, como a Binatural, e outra perto do consumo, caso da SP Bio?
Luís Carlos – Se fizer uma avaliação puramente industrial, tanto faz. Do ponto de vista da indústria, o que importa é o que acontece da balança para dentro da fábrica e de dentro da fábrica para os tanques. O peso dos fretes, tanto de matéria-prima quanto de produto acabado, é uma conta mais comercial. Mas, vamos pensar que a SP Bio está a cerca de 30 quilômetros de Paulínia: isso, com certeza, é um atrativo. Só que a concorrência está tão grande que essa vantagem logística desaparece. As usinas do Sul conseguem ser competitivas em colocar biodiesel a mil quilômetros de distância. A Binatural é um pouco diferente porque estamos ao lado de Brasília, que é um grande centro consumidor, e na porta da região Nordeste. E não estamos tão perto assim da matéria-prima quanto se poderia supor. Muitos de nossos contratos estão no Mato Grosso.
BiodieselBR – Qual é o segredo, então?
Luís Carlos – Você tem que ter um delta positivo entre o preço de aquisição da matéria-prima e o preço do biodiesel. Para isso, é claro que você precisa fazer o dever de casa do ponto de vista industrial, no sentido de ter o menor custo de transformação possível com boa eficiência em termos de consumo de insumos como metanol e metilato. E não adianta nada você ter tudo isso, se não atender às expectativas das distribuidoras em termos de agilidade no carregamento e qualidade do produto final. Se as distribuidoras não virem vantagem em comprar de você, não importa o quanto seu delta é positivo.
BiodieselBR – Em 2009, a Binatural se envolveu em um dos piores acidentes da história do setor. Como isso afetou a cultura de segurança?
Luís Carlos – Esse é um assunto chato de lembrar, mas que eu acredito já estar superado internamente. Sempre estivemos preocupados com a segurança, sempre fizemos investimentos grandes na área, mas desde o acidente redobramos a atenção tanto em nossas contratações, tornando o processo mais rígido, como ainda aumentando o treinamento antes de colocar um colaborador para trabalhar dentro de nossa planta. A legislação do setor também evoluiu do ponto devista de segurança. Tivemos alterações importantes nas resoluções que regulam o processo produtivo.
BiodieselBR – Qual o papel que a Binatural e a SP Bio querem assumir no mercado?
Luís Carlos – A Binatural vai continuar tentando ser o mais competitiva possível. Já temos uma posição consolidada no mercado e temos como meta continuar sendo eficientes e atrativos dentro de nossa região de atuação. Já a SP Bio vai explorar o diferencial de estar ao lado do maior centro consumidor de diesel do país, atuando de forma ágil para se tornar mais atrativa.
BiodieselBR – Estamos passando por um momento conturbado. De um lado, temos uma economia cambaleante, por outro temos o B7 que está blindando o setor. O que vocês estão esperando até o final do ano?
Luís Carlos – Eu diria que não estamos nem eufóricos nem pessimistas. Vamos continuar tendo leilões disputados, mas, como a colheita da safra de soja já acabou, acho que teremos leilões com preços mais justos, porque as usinas não deverão continuar com uma competição tão devastadora. Por isso, vejo que o mercado tende a se normalizar para o segundo semestre, com preços de biodiesel um pouco melhores em relação ao custo da matéria-prima.
BiodieselBR – E a mudança do setor na relação com a glicerina?
Luís Carlos – A glicerina deixou de ser um subproduto e passou a ter uma importância na conta da indústria. Ficou para trás o tempo em que tinha usina que alugava tancagem para estocar a glicerina porque não tinha onde colocar. Hoje, ela se tornou praticamente um segundo produto para as usinas, com rota própria tanto na área comercial quanto na industrial. Temos, inclusive, passado por um processo interno de padronização da produção e do controle de qualidade, que chega a mandar um lote de glicerina para reprocessamento quando ele está fora do padrão. Se bem que nos últimos meses o preço da glicerina tem estado bem ruim. Ele até deu uma melhorada, mas ainda está longe do que já foi.
BiodieselBR – Até hoje a expansão do mercado de biodiesel tem vindo com aumentos da mistura, o que deixa o crescimento do setor à mercê do governo. O que as usinas poderiam fazer para crescer por conta própria?
Luís Carlos – É um assunto complicado, mas acho que a primeira coisa é mesmo ter um marco regulatório com perspectivas de médio e longo prazos. Só assim os empresários vão conseguir planejar investimentos. Porque o empresário que faz jus a seu negócio trabalha para mantê-lo sempre atrativo, mas isso se complica quando você não tem segurança de qual vai ser o mercado nos próximos anos. Sem isso, falar de qualquer coisa vira uma incógnita. Até para falar de outras opções que precisam ser colocadas na mesa, como o B20 Metropolitano ou o B Agro. Essas opções também precisam ser reguladas por lei.
BiodieselBR – Liberar a compra opcional de biodiesel acima do B7 seria um caminho?
Luís Carlos – É uma ideia da qual eu gosto, especialmente com os preços praticados pelo biodiesel hoje. Ele já seria competitivo em várias localidades do interior do país, então não vejo por que não liberar para as distribuidoras comprarem. Até porque há outras questões envolvidas, como a questão ambiental. E não estou falando só das emissões, mas de um possível aumento no consumo de óleo recuperado, que é um passivo ambiental importante. O B20 Metropolitano traria ganhos fenomenais para a saúde pública ao diminuir a mortalidade e as internações por problemas respiratórios. Particularmente, acho que o setor deveria colocar essas questões mais na pauta. Falamos muito do preço do biodiesel e como ele se compara ao preço do diesel fóssil. Essa comparação é importante, mas deixamos de olhar outros custos e benefícios. Esse é um debate que o setor de biodiesel deveria trazer mais.
BiodieselBR – O das externalidades?
Luís Carlos – O setor deveria ampliar mais esse tipo de assunto porque é algo incontestável. É difícil alguém ficar contra algo que vai salvar vidas e tirar gente do hospital.
BiodieselBR – E temos capacidade para atender esses mercados opcionais?
Luís Carlos – Nunca faltou produto, nunca tivemos um desabastecimento no mercado de biodiesel. E olha que o B5 foi antecipado em três anos. Ele deveria ter entrado em 2013 e entrou em 2010. Basta o governo sinalizar que está disposto a fazer isso para o setor responder à altura.
BiodieselBR – Como você vê as perspectivas de futuro do mercado de biodiesel?
Luís Carlos – Esse é um mercado que já tem uma força grande e já se mostrou viável. Do ponto de vista industrial eu acho que vamos ver muitas alternativas de matéria-prima de baixo valor agregado e tecnologias voltadas ao barateamento do processo produtivo consolidadas. Os catalisadores enzimáticos, por exemplo. Já na área política, eu torço todos os dias para que sejam aprovadas leis que deem mais segurança ao setor.
