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Vinicius Boreki, de Curitiba
Antes do aumento da mistura de biodiesel, ninguém nega que o segmento de biodiesel estava passando por dificuldades no Brasil. Desde o ano passado, vários players – alguns, inclusive, bastante tradicionais – anunciaram de forma ruidosa sua saída do mercado. Isso precipitou uma crise existencial precoce em usinas que ainda lutam para estabelecer o seu modelo de negócios. Para se manterem crescendo, elas buscam alternativas.
De maneira geral, o mercado enxerga duas opções: encontrar mecanismos para gastar menos e se tornar mais competitivo com o biodiesel ou aproveitar a estrutura já existente para diversificar a produção final e partir rumo a novas atividades.
Um sinal de que as empresas estão olhando ao redor em busca de um Plano B pôde ser visto na edição passada de BiodieselBR. Na entrevista “Nos pequenos frascos”, o presidente da Bio Óleo, Rodrigo Prosdócimo Guerra, mencionou a diversificação como um caminho que tanto a sua como outras usinas poderiam perseguir. “A indústria química é muito versátil e fértil. A parte fabril do biodiesel pode ser adaptada para outros afazeres químicos e substâncias. No pró-prio beneficiamento da glicerina, pode aproveitá-la internamente para fabricar produtos de limpeza”, afirmou.
Esta reportagem tentou ouvi- -lo novamente para aprofundar o tema, mas ele optou por não comentar o assunto, por considerá- lo estratégico para o futuro de sua companhia. O relevante é que a Bio Óleo não está sozinha.
José Olivério é vice-presidente de uma das maiores fornecedoras de equipamentos industriais do país, a Dedini, e confirma que nada menos que 11 empresas de sua carteira de clientes com atuação no ramo de biodiesel já sinalizaram interesse em analisar opções capazes de tornar suas plantas mais flexíveis.
Segundo as fontes consultadas por BiodieselBR, não chega a ser complicado readequar uma usina de biodiesel para que ela atue em novos mercados. Desde que haja aprovação dos órgãos reguladores do meio ambiente, bastam adequações relativamente pequenas na estrutura. A grande questão de ordem prática é o projeto original da unidade produtiva. Se a planta foi pensada apenas com a produção de biodiesel em vista, uma mudança nas operações pode requerer investimentos sem sentido do ponto de vista financeiro. Ou seja, qualquer mudança necessita de uma análise econômica criteriosa. “Isso significa analisar custo de investimento e operacional, disponibilidade de matéria-prima e, principalmente, o mercado”, diz Olivério.
Para Marcelo Cantele, diretor- técnico da Transfertech, companhia que atua no ramo da gestão da inovação no setor industrial, embora estejam em busca de opções, as empresas ficam menos propensas a arriscar durante momentos de incerteza. “Na crise, o mercado joga com as armas que têm à disposição”, avalia.
Apesar do “momento impróprio”, o coordenador do Laboratório de Análises de Combustíveis Automotivos (Lacaut) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Carlos Yamamoto, observa que há algumas oportunidades para as plantas de biodiesel diversificarem além da indústria química, sobretudo o ramo alimentício e de biolubrificantes. “As usinas que produzem metil éster fazem biodiesel. Mas o contrário requer adaptações”, explica o pesquisador.
Um exemplo de uma empresa do ramo que já trabalha de forma diversificada é a fluminense Cesbra. A empresa existe desde a década de 60 – muito antes do PNPB, portanto –, tendo sido fundada para produzir produtos químicos derivados principalmente do estanho. Entrou no ramo de biodiesel apenas em 2007. Ou seja, fez o caminho inverso do que planejam as plantas de biodiesel no momento atual. Este movimento inverso, conforme explicou Yamamoto, é complexo e exige adequações das plantas.
De acordo com o diretor da Cesbra, Carlos Omar Polastri, a possibilidade da companhia atuar em duas áreas distintas se deve à expertise de décadas e ao investimento em equipamentos. “Mesmo as maiores usinas de biodiesel não têm a aparelhagem necessária para atuar no segmento de estanho como fazemos, pois são indústrias químicas muito simples e específicas”, avalia. Outro ponto destacado por Polastri é a necessidade de se obter licenças ambientais, o que dificulta uma mudança de finalidade no curto prazo.
Oportunidades
Existem várias outras oportunidades em aberto para o setor. No caso do setor alimentício, é possível pensar nos monoglicerídeos e monodiglicerídeos – substâncias usadas como emulsificantes pela indústria de alimentos – que surgem do processo de transesterificação parcial. “Para aproveitá-los, seriam necessárias mudanças na planta e a inclusão de uma etapa de purificação, mas nada muito complexo, até mesmo para obter as licenças ambientais”, esclarece Yamamoto, também professor do Departamento de Engenharia Química da UFPR.Uma parte nada desprezível da nascente indústria de biotecnologia vem trabalhando justamente para encontrar fontes renováveis para a produção de monoglicerídeos e monodiglicerídeos. Há estudos em andamento com diferentes tipos de óleos – normalmente os mais nobres, como o de oliva –, visando ao uso da substância em alguns segmentos, especialmente nas indústrias alimentícia, cosmética e farmacêutica.
Em relação aos biolubrificantes o processo é mais complicado, já que fabricá-los requer um desvio considerável na rota produtiva típica do biodiesel, exigindo a implantação de mais reatores e de um entendimento aprofundado de cada reação química necessária. “Cada alteração vai modificar a propriedade. É possível pendurar esses novos fins à cadeia produtiva do biodiesel. Nesse caso específico, porém, vai requerer projeto mais extenso e planejamento mais longo”, ressalta Yamamoto.
Nesse sentido, o professor reclama do excesso de timidez dos fabricantes brasileiros e dos próprios acadêmicos em relação à inovação tecnológica e da falta de contato entre universidades e iniciativa privada em prol do aproveitamento e desenvolvimento de pesquisas. “A interaçãoentre academia e mercado não é prática comum no Brasil, mas funciona na Europa e nos EUA e pode auxiliar qualquer setor a incrementar suas aplicações. ”
Custo produtivo
Em qualquer setor, poucas empresas são arrojadas a ponto de fazer investimentos representativos em momentos de crise. Dentro da cadeia produtiva do biodiesel, a situação não é diferente. Por esse motivo, embora poucos players estejam dispostos a buscar espaço no mercado internacional e a diversificação ainda pareça distante da realidade, uma resposta adequada seria encontrar meios de reduzir os custos de produção.Para o gerente de vendas de equipamentos de biodiesel Derek Masterson, da Crown Iron – fabricante norte-americana de equipamentos industriais para os setores de processamento de oleaginosas e oleoquímica – nem sempre a saída estará no downstream. Embora ele conheça plantas que tenham mudado seu fim, os clientes normalmente se referem ao início da cadeia produtiva ao citarem a diversificação.
Ou seja, buscam investir em processamento de oleaginosas e em novas fontes de matéria-prima. “As maiores questões estão ligadas às maneiras de usar fontes mais baratas que, mesmo que exijam o mesmo processo de pré- -tratamento, possam reduzir o custo produtivo”, diz. A Biopar, de Rolândia (PR), é um exemplo de fábrica que desistiu do mercado de biodiesel para se dedicar integralmente ao processamento de matérias-primas, segundo contou a BiodieselBR o engenheiro Moacir Tomazella, da companhia.
Enzimas
Para Marcelo Cantele, da Transfertech, outra possibilidade de corte de custos está no uso de tecnologias enzimáticas para reduzir gastos com a matéria-prima. De acordo com o executivo, as enzimas permitem a compra de óleos de menor qualidade a preços mais baixos, reduzindo o gasto com tratamentos. “O biodiesel enzimático suaviza o pré-tratamento e apresenta um custo parecido com o do óleo tradicional. Se houver redução do custo com a fonte, as demais etapas também serão mais baratas”, conta.Na avaliação de Yamamoto, da UFPR, o uso de enzimas em escala comercial ainda esbarra no valor da substância. “No aspectoteórico, o processo é bastante simples. Contudo, na realidade, é preciso fazer análise do valor gasto para adquirir a enzima. Ainda não tenho conhecimento do uso do biodiesel enzimático em escala comercial com sucesso”, afirma. Na mesma esteira, o pesquisador cita também o biodiesel etílico, estudado no Lacaut, que apresenta aspectos melhores do que o biodiesel tradicional, mas ainda sofre com o preço mais elevado.
Coprodutos
Outra possibilidade para as usinas aumentarem sua renda seria tornar os seus coprodutos mais rentáveis.O reaproveitamento dos ácidos graxos, mesmo se tratando de um elemento com o qual todas as usinas precisam lidar, ainda está longe do ideal. Eles estão presentes tanto no sebo quanto nos óleos vegetais – perfazendo, respectivamente, 3,5% e 5% do volume de matéria-prima. Se for devidamente separada, a substância apresenta mercado extenso dentro da indústria de alimentação animal, mineração e sabões – sua principal aplicação.
Aliás, com investimento em tecnologia, as próprias plantas poderiam usar os ácidos graxos para fabricar biocombustível a preços mais baixos do que seria possível com matérias-primas de primeira qualidade. No ano passado, os “materiais graxos” representaram somente 1,61% das fontes de produção do biodiesel no Brasil, segundo dados da ANP. Apesar dessa possibilidade, a maior parte das usinas ainda opta por vender a substância em vez de aproveitá-la, devido a sua coloração escura, que torna o produto incompatível com o critério de aspecto exigido pela ANP.
A opção de aumentar o uso dos ácidos graxos dentro das plantas seria providencial para torná-las mais rentáveis e competitivas. Olivério, da Dedini, ressalta que de 60% a 70% do custo do biodiesel está atrelado ao valor da matéria-prima. Por esse motivo, sugere que as usinas encontrem mecanismos para adaptar-se a diferentes fontes de biodiesel.
Outro coproduto já notório que auxilia na rentabilidade das usinas é a glicerina. O relatório Transparency Market Research aponta que o mercado mundial da substância deve movimentar US$ 2,1 bilhões por ano até 2018. O principal subproduto do biodiesel ganha valor comercial conforme aumenta o seu grau de pureza.
Em suma, as usinas brasileiras têm mais a oferecer do que somente biodiesel. Para que essas oportunidades se convertam em lucros, as empresas precisam estar não só atentas às oportunidades como dispostas a ousar.
