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O mercado de diesel

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O susto com as baixas aquisições do L36 mostrou a importância de monitorar a demanda no mercado de óleo diesel e os fatores que a influenciam
Edição de Jun / Jul 2014 9 min de leitura
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O susto com as baixas aquisições do L36 mostrou a importância de monitorar a demanda no mercado de óleo diesel e os fatores que a influenciam

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O susto com as baixas aquisições do L36 mostrou a importância de monitorar a demanda no mercado de óleo diesel e os fatores que a influenciam

Cátia Franco, de São Paulo

Desde que o novo modelo dos leilões de biodiesel foi implementado, em meados de 2012, não se via um resultado tão magro quanto o do Leilão 36, realizado em abril último. As distribuidoras compraram apenas 463,8 milhões de litros, um recuo de 15,6% em relação ao volume negociado no pregão anterior.

Descontada a frustração, esse episódio trouxe pelo menos uma grande lição para os produtores de biodiesel: a de que é preciso começar a prestar mais atenção aos sinais do mercado de óleo diesel. Isso porque uma das causas para a baixa aquisição de biodiesel no L36 foi um esfriamento repentino na demanda pelo derivado de petróleo, percebido pelas distribuidoras a partir do mês de março. A relação entre as vendas de diesel e as de biodiesel é, afinal de contas, como a das proverbiais corda e caçamba – a segunda vai no sentido que a primeira determinar.

Ficar de olho atento aos fatores que determinam a demanda do diesel, portanto, pode permitir um vislumbre do que vai acontecer com o mercado com meses de antecedência. E essa informação é importante para uma indústria que precisa fechar gordos contratos de fornecimento de matéria-prima antes de vender uma única gota de produto.

As influências

Mas, afinal, o que determina uma maior ou menor demanda de diesel no mercado interno?

“Existem diversos fatores que influenciam a propensão ao consumo, como preço, disponibilidade do produto, crédito, propaganda, questões fiscais, dentre outros”, diz o professor Breno Barros Telles do Carmo, da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa). Autor da tese de mestrado “Avaliação da Demanda por Biodiesel em função de um Modelo de Previsão de Demanda por Diesel”, Carmo explica que, para entender a demanda por diesel no Brasil, a chave é ficar de olho na demanda de atividades de transporte e logística. “O consumo de diesel está associado, em grande parte, ao setor de transportes”, afirma.

Segundo levantamento produzido pela equipe do Programa de Planejamento Energético do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) – órgão vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) –, o setor de transporte de cargas consumiu mais de 50% do diesel comercializado no país nos últimos anos. Para tal análise, o grupo levou em conta dados extraídos a partir do Balanço Energético Nacional e do Inventário Nacional de Emissões Atmosféricas do Ministério do Meio Ambiente.

Se, então, é o setor de transporte que puxa o consumo do derivado do petróleo no Brasil, fica fácil entender o porquê do nível de atividade econômica ter um papel decisivo na formação da demanda por diesel. “O desempenho da economia é a principal variável a ser considerada, uma vez que se a economia cresce, aumenta a demanda por bens e mercadorias em geral e, consequentemente, cresce a demanda por transporte”, aponta a Petrobras por meio de sua assessoria de imprensa.

O Ministério de Minas e Energia (MME) faz a mesma análise. “A variável que mais reflete na demanda de óleo diesel é atividade econômica do país, que tem reflexos diretos na taxa de utilização do transporte de cargas e de licenciamento de novos veículos”, diz Cláudio Akio Ishihara, diretor do Departamento de Combustíveis Derivados de Petróleo do MME. Ishihara observa que, de acordo com o Balanço Energético Nacional 2013, 78% do consumo de óleo diesel em 2012 foi efetuado por esse segmento econômico.

Dentre outros fatores preponderantes mencionados pelas fontes ouvidas por esta reportagem estão o preço – já que alterações nesse quesito fazem com que os transportadores procurem otimizar suas rotas, além de contribuir para a busca de outros tipos de transporte mais eficientes, como o ferroviário e a navegação de cabotagem – e o andamento das safras agrícolas.

“A evolução da área plantada e da produção da safra de grãos e de cana-de-açúcar também sãovariáveis importantes”, considera a Petrobras.

A Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), bem como a Petrobras e o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom), mencionam ainda a relevante participação das termelétricas no consumo do diesel. Essa “contribuição” das termelétricas tornou-se mais significativa nos últimos tempos, em função da prolongada estiagem que atingiu diversas regiões do Brasil. “O aumento da demanda por óleo diesel verificado em janeiro último, que refletiu numa alta na importação do produto, está vinculado ao despacho das térmicas, bem como a uma elevação na safra de grãos”, atribui a ANP por meio de sua assessoria de imprensa.
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Sazonalidade

A identificação dos fatores que influenciam a demanda de diesel no mercado brasileiro é fundamental para entender o comportamento de seu consumo no país. A análise do histórico de vendas de diesel no Brasil nos últimos dez anos mostra que o ciclo de consumo não é linear: começa a cair em novembro, sendo retomado a partir de fevereiro. “Isso significa dizer que a média de consumo anual não é representativa para cada mês, pois existe uma variação em função da sazonalidade”, expõe o professor Barros, da Ufersa.

De acordo com a Petrobras, esses movimentos sazonais ocorrem justamente em função do ritmo de atividade econômica. “O período em que o consumo de diesel é mais baixo compreende o Natal e o Carnaval, quando a atividade econômica revela-se mais fraca. A partir de maio, há um crescimento contínuo do consumo do produto, que segue até outubro, mês em que normalmente se registra o maior consumo de diesel no ano. Em outubro, ocorre o auge da produção industrial e do transporte de mercadorias no país, visando a atender antecipadamente a forte alta no consumo de mercadorias no final do ano”, explica a estatal.

O diretor de abastecimento e regulamentação do Sindicom, Luciano Libório, salienta também a participação das safras agrícolas na constituição desses quadros sazonais. “O consumo [de diesel] é ligado ao transporte de safras agrícolas, que tem um período de forte baixa entre meados de novembro e o fim de janeiro, período do verão mais intenso e quando há menor atividade na indústria por conta das férias e festividades”, pontua Libório. “De fevereiro em diante, começa a colheita das safras de soja em Mato Grosso e no Rio Grande do Sul e outras safras, como a da cana e demais grãos em vários estados. Sendo assim, os picos de consumo são notados sempre entre agosto e outubro”, complementa.

O gráfico disponibilizado na página ao lado permite verificar que, entre janeiro (mês com a menor média de consumo de diesel) e outubro (quando há o maior consumo), ocorre um crescimento médio da demanda pelo derivado do petróleo de cerca de dois pontos percentuais – isto levando em conta o histórico de vendas dos últimos cinco anos bem como dos últimos dez anos. Ou seja, é um ciclo consideravelmente inelástico.
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Atípico

Os gráficos das médias mensais de consumo elaborados para esta matéria trazem outra informação bastante interessante: a existência de um tradicional pico de consumo no mês de março.

A trajetória de vendas do derivado do petróleo na última década mostra que no terceiro mês do ano o consumo médio de óleo diesel costuma ficar na casa dos 4 bilhões de litros. Em abril, ele cai para cerca de 3,7 bilhões de litros. Nos dois meses seguintes, engrena uma recuperação até julho, quando chega a superar o patamar de consumo de março.

Segundo o diretor de abastecimento e regulamentação do Sindicom, a explicação para a recorrência desse ciclo é encontrada no calendário do agronegócio. “As safras de soja e milho no Centro-Sul costumam ser mais fortesem março, diminuindo em abril, quando a safra de cana-de-açúcar ainda é iniciante. A partir de maio, a cana-de-açúcar começa a crescer e, em setembro e outubro, soma- -se ao plantio das safras de soja e milho, o que explica o recorde de consumo”, atribui Libório.

Apesar de ter um ciclo definido, com movimentos sazonais bem marcados, neste ano o consumo de diesel parece estar demorando um pouco mais para engatar a segunda marcha. Prova disso foi o que aconteceu no L36, quando temendo uma demanda menor no terceiro bimestre, as distribuidoras pisaram no freio e reduziram suas compras de biodiesel.

Para Libório, dois fatores têm contribuído para uma recuperação mais lenta do consumo do diesel em 2014: o fato de o Carnaval ter acontecido mais tarde, em março, o que refletiu nos índices econômicos, e a ocorrência de pouca chuva no Centro-Sul, que reduziu o resultado da safra de verão. “Enquanto fevereiro foi muito forte, março e abril, com muitos feriados neste ano, parecem estar num nível mais baixo que o anteriormente observado”, analisa o diretor do Sindicom, ressaltando que o nível de atividade econômica ainda precisa ser mais bem avaliado antes de se traçar um panorama definitivo.
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Ponto de partida

Embora cada distribuidora tenha uma metodologia própria para fazer a previsão de vendas de diesel, num mercado maduro como é o de combustíveis o histórico acaba tendo um peso bastante relevante, servindo de ponto de partida para se traçar as projeções.

“Entretanto, para que a previsão seja realista, é necessário que os fatores que influenciaram no passado continuem influenciando o futuro da mesma forma”, alerta o professor Barros.

Libório, do Sindicom, diz que, além de considerar o histórico de vendas, a previsão feita pelas distribuidoras leva em conta análises da conjuntura econômica (PIB), dos dias úteis do referido mês, de fatores internos e externos de cada empresa, tais como novos negócios e perdas das equipes comerciais, e, claro, a sazonalidade de safras agrícolas e andamento das mesmas no ano corrente.

O professor Barros evidencia a importância de se considerar os movimentos sazonais na hora de se fazer projeções. De acordo com ele, as previsões de vendas não exprimem exatamente a demanda futura, podendo apresentar erros bastante significativos. “Entretanto, se, além da característica tendencial, for contemplado o aspecto sazonal, os equívocos tendem a ser minimizados, desde que os fatores que influenciam a demanda se mantenham”, pondera.

Como se vê, traçar projeções para consumo de diesel é uma tarefa complexa – mas não impossível aos que estiverem atentos às variáveis pertinentes – e pode ser uma medida preventiva capaz de poupar muitas dores de cabeça às usinas. Também são um lembrete de que as engrenagens que movem a indústria do biodiesel vão muito além da movimentação de preços do óleo de soja no mercado internacional.
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