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Vinicius Boreki, de Curitiba
O setor de biodiesel tem um histórico de minimizar a importância de seus coprodutos. Levou um bom tempo até que as usinas deixassem de ver a glicerina como um problema e a entendessem como fonte de renda extra. No caso dos ácidos graxos, então, o tratamento chega a ser ainda pior, especialmente em se tratando de um elemento do processo produtivo com o qual todas as usinas precisam lidar. Presentes tanto no sebo quanto nos óleos vegetais, aos poucos eles estão ganhando importância dentro do setor para aumentar a rentabilidade das fábricas.
Se forem devidamente separados antes da fabricação do biodiesel, os ácidos graxos apresentam um mercado extenso: as indústrias de sabões, de alimentação animal e de mineração são todas compradoras desse coproduto. Mas com a devida tecnologia, as próprias usinas podem aproveitar o material para fabricar biocombustível.
A verdade é que o setor ainda engatinha no aproveitamento dessa matéria-prima. A produção de biodiesel a partir de ácidos graxos usa o processo de esterificação e não o de transesterificação. Até agosto do ano passado, não havia produção registrada de biodiesel dessa fonte. De setembro em diante, o processo saiu do zero: foram produzidos 587 m3 em setembro, 425 m3 em outubro, 533 m3 em novembro, e 752 m3 em dezembro.
Em 2013, a produção parecia querer engatar uma segunda, com uma produção superior a 1,2 milhão de litros registrada em fevereiro. Mas desde abril a matéria-prima simplesmente desapareceu dos Boletins Mensais do Biodiesel, onde a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) publica os números oficiais das matérias- -primas utilizadas pelo segmento. No total, durante os sete meses em que apareceu nas estatísticas oficiais, o biodiesel de ácido graxo somou irrisórios 4,4 milhões de litros fabricados. É algo que não chega a fazer sombra às principais matérias-primas – até junho haviam sido fabricados 1,032 bilhão de litros de biodiesel de óleo de soja e 266,8 milhões de litros a partir do sebo bovino.
A primeira razão para a produção baixa está na quantidade pequena de ácido graxo presente nos óleos e gorduras: menos de 5% nas fontes de origem vegetal e cerca de 3,5% no sebo bovino. Considerando o atual mix de matérias- -primas usadas pela indústria, estamos falando de aproximadamente 64 milhões de litros de ácidos graxos gerados nos primeiros seis meses desse ano. Aliás, o ácido graxo usado como matéria-prima para biodiesel é normalmente o de origem animal, porque o vegetal costuma ser reaproveitado em outros segmentos.
O segundo fator é que boa parte das fábricas que usam sebo ainda não investiu na tecnologia necessária para transformar essa substância em biocombustível.
“Na produção de biodiesel, a remoção dos ácidos graxos livres presentes é de fundamental importância. É desejável que os óleos vegetais tenham baixo teor de acidez”, afirma a engenheira química Nicéia Chies da Fré, professora da Fundação Liberato, de Novo Hamburgo (RS). No caso da gordura animal, o tratamento usado é o refino físico, destilando os ácidos graxos, enquanto no caso do óleo vegetal bruto, o processo é químico. Ou seja, o principal objetivo dessa etapa específica é ampliar a qualidade do produto final.
No processo tradicional de obtenção de biodiesel, gera-se um subproduto muito comum: a borra. Formada basicamente de água e sais de sódio de ácidos graxos, entre outros elementos, esse subproduto acaba seguindo para mercados como a indústria do sabão. “A partir da borra é possível produzir sabão em barra de boa qualidade e com preço acessível, porém esta não é a única opção para o aproveitamento deste resíduo”, ressalta Nicéia.
Para se tornar biodiesel, o ácido graxo passa por um método distinto, conhecido como esteri-ficação ácida. “O processo produtivo se torna mais complexo se comparado ao método tradicional, usando óleos vegetais. Contudo, diversas pesquisas estão sendo desenvolvidas a fim de produzir biodiesel a partir de matérias- -primas alternativas”, explica a professora.
Perdas
O setor de biodiesel, como qualquer outra indústria, busca sempre aumentar a rentabilidade e reduzir perdas por meio de decisões e processos assertivos. Diretor comercial e de novos negócios da JBS, Alexandre Pereira da Silva afirma que a lógica financeira do aproveitamento de ácidos graxos baseia-se “na diferença entre o preço de venda do biodiesel e do ácido graxo”. Na JBS, uma das principais usinas na utilização de sebo bovino, toda a matéria-prima para a produção de biodiesel é aproveitada. “Todo o ácido graxo é separado antes da produção e vendido”, diz Pereira da Silva.Segundo Moisés Rocha, diretor comercial da Prisma Brazil, que atua nos ramos oleoquímico e de bioenergia, as fabricantes de biodiesel têm optado por vender o ácido graxo em vez de aproveitá-lo em seus processos fabris devido à qualidade final do biocombustível. O principal problema, de acordo com Rocha, está na coloração mais escura do biodiesel feito a partir de ácidos graxos, o que torna o produto incompatível no critério “aspecto” determinado pelas especificações da ANP.
Outra que está apostando no sebo como matéria-prima é a novata Biofuga. Segundo Paulo José Fuga, gerente da unidade de biodiesel, a companhia separa a glicerina do ácido graxo e o revende para outras usinas. “O próprio setor do biodiesel começou a demonstrar interesse por essa matéria-prima, especialmente quem resolveu investir em uma tecnologia diferente”, analisa.
Em operação há três meses, a usina da Fuga tem vendido ácido graxo para a Oleoplan, um dos maiores players do mercado, com usinas no Rio Grande do Sul e na Bahia. Procurada pela reportagem de BiodieselBR, a Oleoplan não se pronunciou sobre o tema.
Já no caso da Minerva, o ácido graxo acaba sendo revendido junto com a glicerina, que há algum tempo deixou de ser resíduo e se tornou coproduto. Segundo um relatório da Transparency Market Research, o mercado mundial de glicerina deve movimentar US$ 2,1 bilhões nos próximos cinco anos. “Atualmente, quem compra a nossa glicerina sai ganhando, pois é tida como ‘glicerina gorda’, devido à presença dos ácidos graxos”, diz Marcelo Alcântara de Queiroz, diretor comercial da usina.
Quanto aos ácidos graxos, Queiroz revela que o investimento na tecnologia para produzir biodiesel a partir dessa matéria- -prima está nos planos futuros. “No momento, estamos atacando outras frentes com prioridadesmaiores em nosso planejamento estratégico. E o ácido graxo ainda tem um volume pequeno na nossa companhia”, diz.
Na avaliação da Dedini, que atua nas áreas de engenharia e fabricação de equipamentos para plantas de biodiesel, os ácidos graxos já são uma realidade pelo retorno econômico rápido que proporcionam. “Sabemos que a instalação de uma unidade de esterificação de ácido graxo em uma planta de biodiesel se paga em menos de dois anos”, diz José Luiz Olivério, vice-presidente de tecnologia e desenvolvimento. “A tecnologia é capaz de processar a oleína proveniente do processo produtivo de biodiesel e o ácido graxo do tratamento do óleo, convertendo-os em biodiesel.”
Os principais benefícios estão em evitar a geração de resíduos e aumentar a rentabilidade, já que o valor de mercado do biodiesel é maior que o dos ácidos graxos. Apesar disso, pesquisas conduzidas pela JBS apontaram que o custo-benefício da tecnologia ainda não é justificável. “Até o momento, estudos que realizamos não justificaram investimentos no processo de esterificação em nosso modelo de produção de biodiesel”, diz Pereira da Silva.

Mercado
Se há dúvidas sobre a viabilidade de investir na produção de biodiesel de ácidos graxos, o mercado para a venda da substância é diverso, e depende fundamentalmente da qualidade do produto final. Moisés Rocha, da Prisma Brazil, afirma que sua aplicação varia conforme a origem do produto: se animal (queima, sabões, tintas ou biodiesel), vegetal (vendido junto com a glicerina ou rações) ou mista, que oferece uma menor qualidade, reduzindo as opções de aplicação.Para alimentação animal, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) permite apenas o uso de ácidos graxos vegetais, excetuando-se o de algodão, por apresentar uma substância tóxica chamada gossipol. Os ácidos graxos animais estão vetados para esse mercado.
O material também é usado na indústria de mineração. A engenheira química Nicéia Chies da Fré, da Fundação Liberato, explica que os ácidos graxos são utilizados juntamente com outros produtos químicos para promover a separação de partículas minerais valiosas. “Eles são capazes de alterar a superfície das espécies minerais, revestindo seletivamente a superfície mineral de interesse. É o método de separação usado para o beneficiamento de uma porção considerável de minério no mundo”, diz.
Se destiladas, essas substâncias apresentam inúmeras outras aplicações, especialmente na indústria oleoquímica. “Esse segmento considera os ácidos-graxos uma valiosa matéria-prima por ser biodegradável, renovável e ter disponibilidade tanto animal quanto vegetal”, esclarece Nicéia. A professora explica que o aspecto principal para ampliar o valor comercial é a pureza: quanto mais puro for, maior será o leque de aplicações destes ácidos.
Qualidade
teor de ácidos graxos do biodiesel também é um dos parâmetros de qualidade avaliados pela ANP. A Resolução ANP 14/2012, de 18 de maio do ano passado, estabelece os patamares mínimos de especificação que o biodiesel deve apresentar. E a Norma 15.553, de 2008, determina que a quantidade de ácidos graxos presente no biodiesel não pode superar 1 mg/kg.De qualquer forma, esse problema não costuma constar entre os mais comuns nos relatórios de qualidade divulgados pela ANP. Queiroz, da Minerva, relata que, apesar dessas exigências, o ácido graxo não costuma gerar dificuldades para as usinas em termos de qualidade. “O biodiesel Minerva atende todas as recomendações da ANP e da Petrobras. Em alguns casos acontecem desvios padrão, que são reprocessados”, explica. “Mas o ácido graxo nunca esteve entre os problemas do processo industrial.”
Ou seja, do ponto de vista técnico o ácido graxo já se encontra devidamente dominado pela indústria do biodiesel. Falta apenas consolidar entre as usinas a percepção de que, seja como coproduto ou como matéria-prima, há espaço no mercado para aproveitar os ácidos graxos.
