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Fábio Rodrigues, de São Paulo
Agricultores são pessoas naturalmente desconfiadas e pouco afeitas a invencionices. Por isso mesmo, não chega a ser uma surpresa assim tão imensa que, no fim das contas, eles tenham respondido com um sonoro “não, obrigado!” às insinuações de que deveriam arriscar investir nas tais oleaginosas alternativas para dar uma forcinha à indústria do biodiesel.
Além de faltar à imensa maioria das cultivares apresentadas com esse propósito um histórico comprovado de produtividade e de rentabilidade – as experiências com a mamona e o pinhão-manso vêm à mente –, a ideia de que os agricultores devessem abrir mão de suas culturas de verão para produzir óleos vegetais os levou a desconversar e sair de fininho. Afinal, normalmente é da safra de verão que os agricultores dependem para deixar suas contas no azul. Abrir mão delas por algo duvidoso é um risco que a imensa maioria não pode, ou não quer, correr.
“O governo desenhou o programa, que não deveria estar ancorado na soja. Por isso se falava tanto em mamona, pinhão-manso e girassol no começo do PNPB. Esse foi um erro de avaliação por parte do próprio governo”, avalia o engenheiro agrônomo e coordenador de fomento da BSBios, Fábio Benin. Ao desenhar sua estratégia para diversificar a produção de oleaginosas no Brasil, ainda nos primeiros tempos do PNPB, o governo federal acabou não levando em conta que, inevitavelmente, a cultura mais bem posicionada para atender às demandas de matéria-prima da indústria seria a soja, apostando ao invés disso em culturas “muito pouco expressivas”. “Foi um erro de análise, e o mercado por si só respondeu a essa situação”, descreve Benin.
É mais ou menos esse também o argumento de Lucilio Alves, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Esalq/USP. “Entre as alternativas disponíveis, o produtor sempre opta pela que for mais rentável”, sintetiza.
Inverno
No entanto, há uma saída simples para o impasse: a safrinha de inverno. Como ela é menos central para a renda dos produtores rurais, abre-se aí uma brecha por onde seria possível convencer os produtores a investir. Aliás, uma parte considerável deles sequer se dá ao trabalho de plantar no inverno, optando por fazer o pousio de suas terras.Foi essa brecha que a BSBios enxergou. “Percebemos que teríamos dificuldades se a gente resolvesse estimular uma cultura que competisse com a principal cultura aqui da região Sul [a soja de verão]. Mas a gente também percebeu que tinha uma área grande disponível para o cultivo de inverno”, diz Benin.
A quanto corresponde essa área exatamente, ninguém tem muita certeza, mas vários dos entrevistados nesta reportagem concordaram que estamos falando de vários milhões de hectares. Segundo a edição mais recente do Acompanhamento da Safra Brasileira de Grãos 2012/213 da Conab, as principais culturas de verão ocupam quase 42,8 milhões de hectares, enquanto as de inverno, menos de 11,3 milhões. Numa continha bem simples, temos 31,5 milhões de hectares que não sabemos como estão sendo usados durante quase metade do ano.
Para o coordenador geral de oleaginosas e fibras do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Sílvio Farnese, a disponibilidade de terras para a safra de inverno não é assim tão grande. “Não existe mais aquele agricultor que só ficava capinando. Hoje o agricultor brasileiro é umempresário que precisa lidar com financiamentos e maquinários sofisticados e produz para o mercado internacional. Com a terra valendo R$ 20 mil ou R$ 30 mil o hectare, ninguém vai simplesmente deixar um bem desses parado”, pondera. “A safrinha é mais diversificada”, acrescenta, sinalizando que a diferença seria coberta por uma variedade de outras lavouras, mas, principalmente, pasto.
E não é só a terra. A safra de inverno também multiplica as oportunidades para que os fazendeiros diluam os custos de suas propriedades. É o que destaca o coordenador de biocombustíveis do Ministério do Desenvolvimento Agrário, André Machado. “No sentido econômico, [a safrinha de inverno] reduz os custos de capital imobilizados ao intensificar a utilização de máquinas e equipamentos agrícolas, e proporciona a diversificação da produção e da renda do agricultor”, avalia. É uma linha de pensamento reforçada por Gilberto Omar Tomm, agrônomo e pesquisador da Embrapa Trigo. “A amortização dos investimentos vem mais rápido. É por isso que a safrinha vem se desenvolvendo tão rapidamente”, concorda.
O milho de inverno é o exemplo mais bem acabado desse movimento de adensamento produtivo. Nas dez safras mais recentes, a área plantada com milho durante a safrinha cresceu impressionantes 270%, indo de 3,3 milhões de hectares na safra 2003/04 para praticamente 9 milhões de hectares na atual temporada. Nas duas últimas safras, inclusive, a cultura de inverno do milho superou a de verão, tanto em área plantada quanto na produtividade das lavouras. Não que o crescimento do milho de safrinha ajude os fabricantes de biodiesel de alguma forma. Mas pelo menos sinaliza que tem algo fermentando aí e que os produtores rurais estão à cata de boas oportunidades para faturar um troco a mais durante o inverno. Falta encontrar a opção certa.
Desafios
Se fosse mesmo assim tão fácil, todo mundo já estaria plantando no inverno. A maior dificuldade é que, como a cultura de inverno não é o carro-chefe, ela precisa atender algumas exigências que não são feitas das culturas de verão. De acordo com Farnese, o maior cuidado a ser tomado é evitar que a lavoura de inverno funcione como uma ponte para que doenças e pragas atravessem de uma safra de verão até a próxima. “A recomendação seria alternar leguminosas e gramíneas”, pontua.Não atrapalhar é um passo fundamental, mas o chefe geral da Embrapa Agronergia, Manoel Teixeira Souza Jr., assegura que o melhor dos universos possíveis está em encontrar lavouras de inverno e de verão que possuam sinergias positivas entre si. “Algumas culturas de inverno têm uma sinergia e fazem a cultura de verão sair beneficiada. Questões como melhoria física solo e aumento da quantidade de matéria orgânica”, enumera.
Resolvido esse quebra-cabeças agronômico, é preciso levar em conta também que a safrinha precisa fazer sentido financeiramente. “Isso implica liquidez. Ele [o produtor] não vai caminhar para uma cultura que não vai compensar o preço de produção”, assevera Alves, do Cepea. Foi justamente aí que o trigo de inverno empacou, acrescenta o pesquisador, apesar de o país ter terras e demanda desobra. “Existe um motivo bem claro para o trigo de segunda safra não deslanchar no Brasil, mesmo com uma produção que atende apenas 50% da demanda e a disponibilidade de mais de 3 milhões de hectares para o plantio. Hoje, o produtor colhe e precisa esperar dois ou três meses com o trigo parado antes de vender”, argumenta.
São tantas as dificuldades que alguns produtores preferem simplesmente evitar aborrecimentos e ficar só com o cultivo de verão. “Como o agricultor tem tido boa rentabilidade com a soja no verão, pode se dar ao luxo de não arriscar no inverno”, comenta Fábio Benin, da BSBios.
Canola
Gilberto Omar Tomm é um dos maiores especialistas brasileiros em canola e não tem dúvidas de que ela seria a melhor alternativa para a produção de oleaginosas de inverno no Brasil. Hoje essa variedade da colza desenvolvida nos anos 70, no Canadá, é a terceira oleaginosa mais importante do mundo [veja gráfico]. Ou seja, não há absolutamente nada de exótico nela, e isso é uma enorme vantagem porque o sistema produtivo chega praticamente pronto e pode ser uma boa opção para a rotação de culturas com o milho.Sob a liderança de Tomm, a equipe da Embrapa Trigo está fazendo algo inédito no mundo: aprimorando uma variedade de canola que pode ser plantada em climas tropicais. “Originalmente, a canola é cultivada entre 35 e 53 graus de latitude, isto é, ao sul de Montevidéu. A tropicalização da canola é algo inédito que a gente está fazendo. Começamos no Centro-Oeste e estamos indo para o Nordeste”, anima-se.
Pode ser até que a insuspeita canola seja a oleaginosa que vai abrir as portas do Nordeste para o PNPB. Tomm explica que os grandes produtores do Canadá e da Austrália a plantam justamente em áreas de baixa precipitação. “A canola tem um sistema radicular pivotante que penetra no solo e vai buscar água lá embaixo, então ela tem uma condição boa para o plantio nas condições do Semiárido”, conta. Não significa que dê para sair plantando a olho. Afinal, a canola é uma cultura que vem de climas bem frios e portanto precisa de baixas temperaturas, o que limita sua expansão a áreas acima dos 600 metros de altitude. Mesmo assim, nas contas do agrônomo, haveria alguns milhões de hectares disponíveis ao plantio.
A canola tem outras duas vantagens nada desprezíveis. Primeiro, as mesmíssimas maquinas agrícolas usadas nas lavouras de soja que acabam subutilizadas durante o inverno podem ser aproveitadas para a cultura da canola. Depois, por ter usos similares aos da soja, já há uma cadeia de processamento e comercialização mais ou menos preparada para recebê-la.
Foi em busca dessas múltiplas vantagens que a BSBios acabou se tornando uma das principais entusiastas da canola no Brasil, fomentando seu plantio na região Sul já há alguns anos e tendo inclusive grande participação na criação da Associação Brasileira dos Produtores de Canola (Abrascanola), da qual Fábio Benin é vice-presidente. “A canola se encaixa muito bem com o sistema produtivo aqui do Sul, sem competir com nenhuma outra cultura de inverno”, comemora.
O crescimento, segundo Benin, tem sido vigoroso. Os números da Conab apontam que, pouco mais de cinco anos atrás, a produção brasileira dessa oleaginosa era virtualmente inexistente, mas que na safra 2012/13 a área plantada chegou a 43,8 mil hectares. Nas contas da Abrascanola foram 50 mil hectares, e poderia ter sido ainda melhor, não fosse a seca do ano passado na Argentina que atingiu em cheio os campos de multiplicação de sementes. “Se a gente tivesse tido semente disponível, teríamos chegado a 60 mil hectares cultivados”, diz desapontado.

Crambe
Não é só de canola que vivem as esperanças de quem acredita que a safrinha tem muito a contribuircom o PNPB. Há cerca de dois anos, outra pesquisadora da Embrapa Agroenergia, Simone Fávaro, vem trabalhando no desenvolvimento da cultura do crambe como opção de cultura de inverno para a região Centro-Oeste, onde poderia se tornar uma espécie de plano B para o plantio de inverno. “O ciclo do crambe gira em torno de 90 dias, enquanto o do milho chega a 120 dias. Além disso, o milho de safrinha tem uma janela de semeadura, então, se por qualquer motivo, você perder essa janela, terá o crambe como uma segunda alternativa. Isso permitiria aproveitar áreas no Centro-Oeste que ficariam ociosas porque não tiveram tempo hábil para o milho”, garante. Ela aponta também o baixo custo e a boa resistência à estiagem como vantagens dessa nova cultura, cuja produtividade pode chegar a 1.500 quilos de grãos por hectare – aproximadamente 600 kg de óleo.Há também indícios, ainda não confirmados, de que o crambe pode dar uma força na safra de verão. “Temos tido relatos de que o crambe tem efeitos benéficos sobre a safra de verão seguinte porque ele diminuiria a população de alguns nematoides que afetam as lavouras de milho e de soja. Você não só tem um ganho no inverno, como ainda melhora seu rendimento no verão”, diz, tomando o cuidado de avisar que se trata de uma informação ainda não totalmente confirmada.
Preço
Farnese, do Mapa, aponta um problema evidente. Os óleos produzidos nas culturas de inverno tendem a ter usos mais nobres do que a produção de biodiesel – a canola na indústria de alimentos e o crambe na oleoquímica. “Fazer biodiesel com eles pode não ser rentável,” avisa.Para Manoel Teixeira Jr., não é esse o problema. Ele ressalta que, embora a indústria esteja suficientemente abastecida pela produção brasileira de soja atualmente, o que reduz o interesse na diversificação das oleaginosas, isso não passa de uma calmaria. “Não existe no Brasil um problema de falta de óleo vegetal, o que torna a diversificação desnecessária. Com o B5, ela seria muito mais para conseguir a inclusão social no Norte e Nordeste. Só que isso vai mudar. Cedo ou tarde, precisamos nos perguntar se vamos ser proativos ou esperar acontecer para correr atrás do prejuízo”, provoca.
