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Revolução Industrial

entrevista
Marcelo Luis Cantele e sua Transfertech pretendem catalisar uma verdadeira revolução tecnológica na indústria brasileira de biodiesel
Edição de Ago / Set 2013 13 min de leitura
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Marcelo Luis Cantele e sua Transfertech pretendem catalisar uma verdadeira revolução tecnológica na indústria brasileira de biodiesel

entrevista
Marcelo Luis Cantele e sua Transfertech pretendem catalisar uma verdadeira revolução tecnológica na indústria brasileira de biodiesel


Fábio Rodrigues, de São Paulo

O engenheiro Marcelo Luis Cantele é dessas pessoas que conseguem falar a respeito do futuro do setor de biodiesel com a facilidade de quem descreve as paisagens que viu durante uma viagem. Ele travou contato com o setor pela primeira vez no começo dos anos 2000, quando era diretor da Intecnial, e viu nessa nova atividade um mercado promissor. Acabou encontrando mais do que isso. Em 2004 fundou a Transfertech, empresa dedicada ao desenvolvimento de inovações tecnológicas que prometem chacoalhar boa parte das verdades estabelecidas no ramo. Foi sobre isso ele conversou com BiodieselBR.

Revista BiodieselBR – Como começou seu envolvimento com o biodiesel?
Marcelo Luis Cantele
– Isso aconteceu por volta do começo dos anos 2000, quando a Intecnial recebeu uma consulta de um cliente da Argentina. Ele já tinha produção de soja, tanto própria quanto de terceiros, e queria montar uma planta completa de extração de óleo e produção de biodiesel. Foi isso que nos despertou para o biodiesel. Começamos a ver os reflexos aqui no Brasil de um movimento que estava começando a acontecer nos Estados Unidos e na Europa. Foi então que começamos a estudar o assunto para ver onde ia terminar.

Revista BiodieselBR – Hoje você não está mais com a Intecnial, certo? Então qual é o seu envolvimento com o setor?
Marcelo Luis Cantele
– Embora eu não seja mais executivo da Intecnial, continuo como acionista. Mas também estou envolvido numa outra empresa chamada Transfertech, que é dedicada a pesquisa e desenvolvimento (P&D) e à implantação de inovações. Ela entrou no mercado em 2004 a partir de um modelo de sucesso de gestão de tecnologia que a gente havia implantado na própria Intecnial. Nosso objetivo é funcionar como um elo intermediário entre a academia e as empresas.

Revista BiodieselBR – E como vocês perceberam que havia um nicho a explorar fazendo essa interface?
Marcelo Luis Cantele
– A academia e as empresas são entes diferentes e que trabalham em velocidades distintas. Acabamos percebendo que havia uma oportunidade tentando aproximar essas duas mentalidades. Isso surgiu porque um dos sócios da Transfertech é oriundo da academia: ele foi diretor do Centro Tecnológico da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – a URI de Erechim –, que tem cursos de excelência em nível nacional. Como boa parte da equipe vinha de São Paulo e do Rio de Janeiro, onde já existe um padrão de interação com o setor empresarial, eles já chegavam a Erechim com essa mentalidade, e a Intecnial foi uma das catalisadoras desse movimento. Como esse conceito funcionou bem, resolvemos institucionalizá-lo e criamos a Transfertech.

Revista BiodieselBR – E a Transfertech trabalha exclusivamente com biodiesel?
Marcelo Luis Cantele
– Não, a gente trabalha com diversas outras áreas, embora quase sempre ligadas à agroindústria. Através da Intecnial, sempre trabalhamos com projetos de grande escala. A gente via muitas oportunidades em agregar valor aos subprodutos dessas indústrias.

Revista BiodieselBR – Existe a percepção de que a tecnologia de produção de biodiesel está madura. Ainda existe espaço para aprimorá-la?
Marcelo Luis Cantele
– Quando falamos dos grandes volumes de biodiesel, a tecnologia está mesmo consolidada. O mercado brasileiro está dividido entre quatro tecnologias: a da Crown/Iron Works com a Intecnial, a da Dedini com a Desmet Ballestra, a da Somar e a da GEA Westfalia. A Lurgi é uma quinta opção, mas é mais cara e só é usada pela Cargill. As demais ficam com produções pequenas e, acho, tendem a sumir. Acontece que a pesquisa brasileira na área de biodiesel está muito concentrada na reação, os pesquisadores não dão muita atenção às fases anteriores e às fases posteriores do processo, que são fundamentais para determinar a viabilidade financeira.

Revista BiodieselBR – Uma boa parte das pesquisas relacionadas ao setor de biodiesel tem como foco a etapa agrícola, a produção de biomassa. Essa é mesmo a prioridade?
Marcelo Luis Cantele
– Produção da biomassa é mesmo o grande diferencial. A originação é um ponto realmente importante, especialmente do ponto de vista da verticalização da cadeia. Quanto mais verticalizado, mais competitivo. Se você pegar um gráfico das cotações do óleo e do preço médio do biodiesel nos leilões, você vai ver que, ao longo do tempo, o delta está diminuindo, e a verticalização garante mais controle sobre o preço da matéria-prima. Ela não te deixa à mercê do mercado e permite fazer hedge natural.

Revista BiodieselBR – Como você avalia a articulação entre governo, academia e empresas nas iniciativas de P&D voltadas ao biodiesel?
Marcelo Luis Cantele
– Acho que o governo e as empresas estão fazendo sua parte, e também temos a Embrapa, que está atingindo a maturidade na área de agroenergia, com os laboratórios se estruturando e o número de pesquisadores crescendo. Mesmo assim, aqui no Brasil, há um delay muito grandeporque a indústria não investe em P&D. Ela espera que o governo faça isso. Fica um jogo de espera.

Revista BiodieselBR – Essa não é uma particularidade do setor de biodiesel. É um entendimento geral o de que o Brasil faz pesquisa de ponta nas universidades, mas tem dificuldade em fazer esse conhecimento chegar à indústria. Onde está o nó?
Marcelo Luis Cantele
– Um dos problemas é a métrica pela qual a academia é avaliada, que hoje é o número de publicações. Isso leva os pesquisadores a focarem seu trabalho na publicação de papers e não na aplicação. Se eles não fizerem isso, podem até ter suas universidades penalizadas. As patentes até são consideradas na métrica, mas acho que ainda não da forma como deveriam. Essa é uma amarra que precisa ser desatada. Na Transfertech a gente precisa levar isso em conta e ajudar os pesquisadores para que eles continuem publicando. No nosso modelo, conseguimos protocolar mais de dez patentes nos últimos quatro anos.

Revista BiodieselBR – Em outros países existe uma cultura forte de inovação pelo setor privado, principalmente no Vale do Silício, nos EUA, cujo modelo é emulado em outras partes do mundo. E aqui no Brasil?
Marcelo Luis Cantele
– Nosso problema não é competência, nossos pesquisadores não estão atrás dos norte-americanos. A questão é massa crítica e a quantidade de capital de risco disponível. Lá um pesquisador pode bater na porta de um fundo de investimento e conseguir os recursos que precisa para viabilizar uma start-up que é derivada de um projeto de pesquisa. E não é só capital privado, também tem muito dinheiro do governo. Aqui no Brasil, o fomento à inovação até existe, mas é quase inacessível para as pequenas empresas, que são vistas como um risco. Até os órgãos governamentais pensam dessa forma. Basta pegar os resultados dos últimos editais da Finep, que deveria ser o motor para as pequenas empresas de base tecnológica, para ver que os selecionados são sempre gente que tem trânsito e credibilidade. Quem não tem pedigree não consegue. A filosofia de capital de risco no Brasil ainda é muito incipiente, mas acredito que ainda vai ser possível você, armado só com uma boa ideia e uma apresentação de PowerPoint bem feita, conseguir os recursos para viabilizar seu negócio aqui no Brasil.

Revista BiodieselBR – Falta ousadia nos investimentos do setor?
Marcelo Luis Cantele
– Não. Ousadia os empresários do setor de biodiesel têm, porque eles foram muito audazes em investir milhões de reais num mercado que simplesmente não existia. O que falta é a cultura de fazer investimentos em P&D e em inovação.

Revista BiodieselBR – Quais são as tecnologias com que vocês estão trabalhando na área de biodiesel?
Marcelo Luis Cantele
– Nossos principais alvos abrangem processos enzimáticos, ultrassom, fluidos supercríticos e processos de separação. Essas são nossas áreas de excelência. A nossa grande aposta para o momento é a produção por rota enzimática, por mais que vocês tenham publicado na edição passada que isso ainda está longe [risos]. Temos uma grande empresa que está colocando uma nova enzima no mercado. Na semana passada terminamos os testes de laboratório e vamos começar testes em escala piloto.

Revista BiodieselBR – E qual seria a vantagem das enzimas?
Marcelo Luis Cantele
– No processo enzimático posso usar matérias-primas mais ácidas, que, pelo processo convencional, teriam de ser neutralizadas. Você troca um custo de operação e manutenção pelo de implantação, e isso paga as enzimas. A 1ª geração deverá ser instalada nas usinas já existentes, onde vão aproveitar uma matéria-prima bem mais barata, que, muitas vezes, vai ser formada por ácidos graxos não processados na linha principal – rejeitos. Isso vai ser interessante especialmente para quem trabalha com sebo. O óleo de fritura e o de palma, que são mais ácidos, também serão beneficiados.

Revista BiodieselBR – Se essa é a primeira, qual seria a segunda fase?
Marcelo Luis Cantele
– Na segunda, teremos projetos independentes. Usinas enzimáticas sozinhas. Para tanto, ainda temos que estudar mais sobre a parte da separação de fases no final do processo, porque sobra ácido graxo não reagido. Quando isso acontece em paralelo com uma produção convencional, dá para diluir no volume, mas para fazer biodiesel enzimático sozinho precisa de uma purificação final.

Revista BiodieselBR – Que reflexos isso deve ter para o setor?
Marcelo Luis Cantele
– Vai permitir uma descentralização da indústria. Hoje o que se justifica são grandes usinas perto da matéria-prima, mas o óleo de fritura está disponível nos grandes centros, o que já justifica usinas de porte razoável. Eu acredito muito na emergência de modelos de negócio alternativos para o biodiesel nos quais vai ser possível a produção para autoconsumo, e várias cidades terão plantas de biodiesel para reciclar seu óleo de fritura. Esse modelo me permitiria trabalhar sem precisar de escalas de produção tão grandes.

Revista BiodieselBR – O processo enzimático não foi a única tecnologia que você mencionou. Que outra tecnologia tem potencial?
Marcelo Luis Cantele
– Temos o biodiesel supercrítico. Eu esquento o óleo e o metanol a temperaturas acima de 270ºC e sob alta pressão. Isso quebra as moléculas sem precisar de catalisador. O problema é que esse processo usa muita energia e ainda deve levar de 5 a 10 anos para acontecer. Por isso, os esforços estão no enzimático.

Revista BiodieselBR – Vamos ver uma revolução tecnológica no setor de biodiesel?
Marcelo Luis Cantele
– Acho que sim. A primeira revolução é a que estamos vivendo agora, puxada por melhorias do processo industrial através da produção enzimática e supercrítica. A segunda revolução virá com a troca da base de matérias-primas, porque temos biomassas que, hoje, têm uso apenas secundário. São matérias-primas como bagaço e palha da cana-de-açúcar, sobras de madeira e resíduos sólidos urbanos, que, quando muito, são queimados para produzir vapor. Isso gera pouco valor agregado. Acredito que vamos caminhar na direção do processamento dessas matérias-primas por meio da pirólise e de outras tecnologias. O resíduo sólido urbano é particularmente interessante porque é rico em plásticos cuja estrutura já é naturalmente aparentada com a do diesel. Fica mais fácil reformatá- -la. As tecnologias estão vindo nesse sentido.

Revista BiodieselBR – Mas usar plástico para fabricar biodiesel não eliminaria a vantagem de ser um combustível renovável?
Marcelo Luis Cantele
– Não estamos falando de pegar o resíduo urbano e simplesmente jogá-lo para fazer combustível, tem todo um sistema de separação. Hoje, o plástico vai parar nos lixões, onde tem um grande impacto ambiental de médio e longo prazos. É preciso encontrar formas de trazer esse material para a matriz industrial, e a produção de combustível faz isso.

Revista BiodieselBR – Mas a reciclagem não produz mais valor agregado?
Marcelo Luis Cantele
– O problema é que muito desse plástico chega tão contaminado que o custo ambiental e financeiro não compensa. É esse o plástico que vai virar combustível. Vamos fazer um cálculo grosseiro: entre 50% e 70% dos resíduos sólidos urbanos é fração orgânica, o restante é material reciclável do qual, aproximadamente, um terço pode ser de fato reciclado. Isso significa que, do volume de entrada, cerca de 20% pode ser aproveitado como combustível derivado de resíduos (CDR). Se pegarmos uma cidade como São Paulo, que produz 20 mil toneladas de resíduos por dia, estamos falando de 4 mil toneladas- -dia de matéria-prima, que tem um rendimento de três para um ao ser transformada em combustível. Isso dá mais de 1 milhão de litros por dia só em São Paulo. É muita coisa.

Revista BiodieselBR – Ainda vai levar muito tempo para que isso aconteça?
Marcelo Luis Cantele
– Vai levar algum. A gente estava perto de trazer um processo que está sendo desenvolvido na Europa, mas ele não teve o desempenho que esperávamos. Agora estamos de olho numa outra rota chamada depolimerização, que é um tipo de pirólise que trabalha com temperaturas e pressões mais baixas. Esse processo me permite trabalhar com materiais tanto de origem lignocelulósica como com plásticos e resíduos sólidos. Estamos em vias de fechar o primeiro contrato com essa tecnologia aqui no Brasil. Se tudo correr bem, vamos conseguir implantar a primeira planta de CDR no interior de São Paulo.

Revista BiodieselBR – E não seria possível aproveitar a fração orgânica, afinal ela também é biomassa?
Marcelo Luis Cantele
– Como a fração orgânica tem muita água, fica mais caro fazer CDR dela. É mais eficiente encaminhar os resíduos orgânicos para processo de biodigestão e produzir biogás para a geração de eletricidade. Para o biodiesel seria melhor usar matérias-primas secas como plástico ou papel.

Revista BiodieselBR – E por que usar essas matérias-primas para produzir biodiesel e não etanol de 2ª geração?
Marcelo Luis Cantele
– Porque o biodiesel agrega mais valor e os custos dos dois processos não são muito diferentes. Além disso, o mercado de etanol tem uma sazonalidade muito grande, enquanto o preço do diesel tem uma base mais estável, o que me deixa menos dependente em relação a políticas governamentais. Particularmente, prefiro o biodiesel porque o custo de instalação é menor e, como o produto tem uma margem melhor, a viabilidade do negócio é melhor. Isso se adequa melhor àquele modelo de produção descentralizado do qual estávamos falando há pouco porque, com uma barreira de investimento menor, consigo processar e obter resultados bons mesmo processando volumes mais baixos. Sem isso, vamos continuar repetindo o mesmo erro de jogar a produção de biocombustíveis para longe do consumo e trazendo biodiesel lá do Centro-Oeste ou do Sul aqui para o Sudeste.
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