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Supersafra com preços baixos?


Edição de Out / Nov 2012 - 30 out 2012 - 17:19 - Última atualização em: 13 dez 2012 - 10:39
materia supersafra soja
Supersafra brasileira do ano que vem deverá superar a norte-americana pela primeira vez. A dúvida é quanto o preço da soja recuará a partir de março

Vinicius Boreki, de Curitiba

Agricultores e indústrias dependentes da cadeia da soja sabem que é impossível prever com precisão tudo que irá acontecer nas próximas safras. Se possível fosse, haveria certeza sobre a interferência de uma possível supersafra brasileira no preço do produto – atualmente, em patamares recordes. Como é impossível, BiodieselBR resolveu ouvir fontes especializadas no assunto para identificar como deve variar o preço da principal fonte para a produção de biodiesel no Brasil em 2013.

A certeza do momento é que pela primeira vez na história a produção brasileira deve superar a dos Estados Unidos, atual campeão mundial na produção da oleaginosa. Isso se as interferências climáticas não forem desastrosas. As estimativas do Departamento de Agricultura americano apontam para uma produção brasileira de 81 milhões de toneladas na temporada 2012/2013. Em contrapartida, os Estados Unidos devem colher aproximadamente 71,6 milhões de toneladas no ano que vem [veja gráfico com as colheitas dos principais países produtores]. O resultado representa 11,6 milhões de toneladas a menos que os 83,2 milhões de toneladas que estão sendo colhidas este ano, índice considerado fraco para os padrões norte-americanos e que pode ficar ainda mais raquítico, uma vez que o país enfrenta uma das piores secas de sua história.

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Fonte: United States Department of Agriculture (USDA)

Perda de uns...

As dificuldades vividas pelos Estados Unidos explicam o aumento da produção brasileira. Com a carência do grão em um mercado onde a demanda é crescente, os agricultores daqui perceberam a oportunidade e estão até trocando outras culturas pela soja. “Há estimativa de aumento de aproximadamente 10% sobre a área plantada, já que muitos agricultores devem avançar a plantação de soja sobre outras culturas, como o milho”, analisa Flávio Roberto de França Júnior, diretor de produção da consultoria Safras & Mercado. Estima-se que, ao todo, a área da oleaginosa deva saltar de 25 milhões de hectares para 27 milhões em apenas um ano.

A Associação Brasileira das Indústrias de Óleo Vegetal (Abiove) faz previsão semelhante sobre a expansão da área cultivada e o aumento da margem de lucro para os agricultores. “A coincidência de problemas climáticos causou sobrepreço no mercado mundial. Este ano atípico gerou um quadro de escassez de soja em todo o mundo. Por esse motivo, trata-se de uma oportunidade excepcional para o Brasil”, avalia Fábio Trigueirinho, secretário executivo da Abiove.

A variação do preço

Sem bola de cristal, mas com base na conjuntura atual e nas previsões de produção e demanda, é possível prever que o preço da soja, ao menos internamente, não vai seguir a famosa regra do mercado de baixa no preço conforme cresce a oferta. “O valor de compra interno se baseia no mercado internacional. Não se pode aplicar o raciocínio simplista de que, em razão da previsão de uma safra recorde, o preço será baixo”, justifica França Junior, da Safras & Mercado. A explicação é simples: há falta do produto no mercado internacional, o que aumenta a sua demanda e mantém o preço em um patamar elevado. “Os valores atuais refletem a menor oferta da soja na América do Sul, que sofreu com baixa umidade em boa parte das áreas no início deste ano, e nos Estados Unidos, que também sofreram com a influência climática negativa”, explica Lucilio Rogério Aparecido Alves, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) para as áreas de grãos, algodão e mandioca. A produção global de soja na safra 2011/12 foi de 237 milhões de toneladas e a previsão para a próxima é de 260 milhões, mas o volume é menor que o das safras de 2009/10 e 2010/11 [veja gráfico].

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Fonte: United States Department of Agriculture (USDA)


Atualmente, a saca da soja de 60 kg custa aproximadamente US$ 43, segundo os valores apurados pelo Cepea, e esse patamar de preço deve se sustentar até março de 2013, quando se espera o ingresso da possível supersafra brasileira no mercado mundial. “Com isso, claramente uma produção maior da América do Sul no primeiro semestre de 2013 poderá pressionar os preços em relação aos níveis atuais”, avalia Alves, que também é professor do Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP).

De acordo com o pesquisador, os primeiros negócios indicam preços entre US$ 35 e US$ 37,50 para a saca de 60 kg, o que implicaria uma queda aproximada de 23% em comparação com os valores atuais. “Mesmo assim, os preços ficariam em patamares superiores aos observados nos primeiros meses de 2012”, analisa. A avaliação de Alves segue a adotada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), conforme e-mail enviado pela assessoria de imprensa do órgão em resposta aos questionamentos de BiodieselBR. “Os preços devem continuar altos, acima da média dos últimos anos, mas menores do que os praticados na última safra”, informa o comunicado.

Com base na mesma linha de raciocínio, Trigueirinho entende que a lógica tradicional de preço do grão será alterada. Normalmente, os valores dos produtos se iniciam em patamares mais baixos e vão subindo aos poucos em uma curva ascendente. O que se prevê para 2013 é o oposto: uma curva descendente. “A Bolsa de Valores de Chicago é o termômetro. Já se espera uma queda de preços, mas não de forma considerável”, analisa o secretário executivo da Abiove. Ou seja, mesmo com a possível baixa de preço, os patamares de negociação da soja estarão próximos dos valores recordes deste ano.

Antecipação De olho no aumento do lucro com os atuais preços, boa parte dos agricultores acelerou o processo de venda antecipada da safra. “Nosso último levantamento mostra que 43% da safra de 81 milhões de toneladas já estariam comprometidos entre osdiversos tipos de negociação”, analisa França Junior. De acordo com a Safras & Mercado, a média de negociação prévia em anos anteriores foi de 16%. “Essa negociação está muito acelerada em razão dos preços altos, fazendo com que o produtor tente aproveitar o momento e os bons preços para garantir a compra de insumos e aumentar a margem de lucro”, explica.

Secretário executivo da Abiove, Trigueirinho tem uma estimativa mais conservadora. Para ele, ao menos um terço do total da safra de soja será negociado de forma antecipada. “Neste ano, com certeza, houve aceleração desse processo para garantir os bons preços”, diz. Se os agricultores estão lucrando, as indústrias não. No entanto, o temor de ficar sem o produto faz com que aceitem negociar com base em preços que possam ser considerados elevados no futuro.

Aliás, o possível crescimento da venda de soja para o mercado internacional pode fazer com que o complexo adquira um novo peso dentro da balança de exportação brasileira. Dados da Secretaria de Comércio Exterior, órgão vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, apontam o produto como o quarto mais significativo entre as exportações, atrás de minérios, petróleo e material de transporte [veja gráfico]. De acordo com Trigueirinho, a safra de 2012/13 deve transformar esse panorama, em função tanto do aumento de preço quanto do aumento da área cultivada.

Abastecimento interno

Neste ano, especialmente na região Sul, algumas indústrias foram obrigadas a importar soja em razão da escassez da matéria-prima no mercado interno. As secas causarambaixa produtividade nas lavouras de Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. “Até a chegada da nova safra, a disponibilidade do produto será pequena, uma vez que a demanda externa continua firme e as negociações foram antecipadas. Essa baixa produtividade não deve se repetir”, explica o pesquisador Lucilio Alves, do Cepea.

Mesmo com a intenção de muitos produtores em buscar o mercado externo para aproveitar os altos preços de venda, o abastecimento interno do Brasil não está em perigo. De acordo com a Secretaria de Comércio Exterior, até o momento o país comprou 22 mil toneladas de soja, e até o fim do ano não deve ultrapassar 50 mil toneladas, seguindo uma tendência observada em anos anteriores, conforme a Conab. “Não há de se falar em desabastecimento de soja, mas há a possibilidade de os estoques chegarem perto do limite, embora haja soja suficiente para a demanda interna”, diz o órgão.

Para a indústria do biodiesel, a preocupação está no valor do óleo de soja, já que o preço dos subprodutos se altera na mesma proporção do cobrado pela soja em grão. “Trata-se de uma dificuldade que as indústrias vão ter de enfrentar, sejam as de alimentos ou as de biodiesel”, avalia França Junior. Ele alerta que, apesar da boa safra, a demanda crescente pelo óleo de soja pode fazer com que os estoques do produto cheguem próximos da escassez.

Na avaliação de Trigueirinho, da Abiove, o setor do biodiesel não deve se preocupar com uma possível falta de matéria-prima. “Em 2013 haverá certamente oferta excelente de farelo e óleo. Inclusive, há capacidade para aumentar a mistura do B5 para o B6, por exemplo, dando um passo a mais rumo à evolução do setor”, analisa.

O CAMINHO ATÉ OS PREÇOS RECORDES

“Seca” e “quebra”. Nunca antes duas palavras, na ordem apresentada, explicaram uma situação que conseguiu afetar o mundo como um todo. Os problemas climáticos derrubaram a produção de soja em cerca de 10% – de 83,2 milhões de toneladas em 2011/12 para 71,6 milhões em 2012/13. O impacto dessa queda foi sentido em todo o mundo, já que os Estados Unidos está no topo da lista dos principais países produtores da matéria-prima no mundo.

Pior: a seca e a consequente quebra da safra aconteceram em um ano particularmente ruim para a cultura de soja nos EUA: boa parte dos agricultores havia resolvido apostar no milho ao invés da soja. As estimativas do USDA indicam que houve aumento de 4,3% para a primeira cultura, atingindo 38,8 milhões de hectares plantados. Por outro lado, a soja sofreu uma queda de 1,3% em sua produção, totalizando cerca de 22,6 milhões de hectares.

A troca dos americanos ocorreu devido a uma avaliação sobre o estoque de grãos do país. Enquanto, em março, o milho contava com uma reserva 7,8% menor do que a encontrada no mesmo período de 2011, a soja apresentava uma reserva 9,8% superior. Portanto, os agricultores norte-americanos fizeram suas apostas de acordo com a demanda do país. Para complicar, o clima resolveu interferir e uma safra que já tinha a tendência de estar abaixo da média sofreu perdas ainda maiores.

Para compensar a queda americana, o mercado internacional contava com um aumento da produção de outros países, como Brasil e Argentina. Mas as secas registradas na safra passada também afetaram a produção dos latino-americanos, enquanto a demanda pelo grão, especialmente por parte da China, continuou a crescer. Resultado: preços recordes.