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Qualidade: deu certo?


Edição de Out / Nov 2012 - 30 out 2012 - 16:15 - Última atualização em: 13 dez 2012 - 10:39
materia deu certo
Para resolver problemas na qualidade, a ANP alterou a especificação do biodiesel. BiodieselBR ouviu diversos agentes do mercado para saber o resultado dessas medidas até agora


Renata Alves, de Curitiba

Parte do suspense que vinha envolvendo o setor há vários meses foi finalmente encerrado em 18 de maio, quando a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) anunciou novos padrões de qualidade para o biodiesel. O setor foi praticamente unânime em comemorar a mudança como um desenvolvimento positivo. Só que, sob a linha d’água, persistia a dúvida: deu certo? Passados cinco meses desde o anúncio, essa questão ainda não está resolvida.

Isso porque ainda não foi possível mensurar devidamente os resultados das mudanças propostas pela agência. A expectativa é que uma melhoria nos índices de qualidade do biocombustível justifique o contentamento demonstrado pelas entidades envolvidas com o setor.

Entre as mudanças, as mais expressivas e polêmicas envolveram o teor de água e o ponto de entupimento do filtro. Em relação à primeira, a ANP decretou uma redução gradativa, isto é, os produtores têm até janeiro de 2014 para se adequar à nova resolução, com o teor de água passando de 500 partes por milhão (ppm) para 200 ppm. De acordo com a assessoria de imprensa da ANP, essa redução pretende diminuir problemas com formação de borras e proliferação de micróbios no fundo dos tanques de biodiesel.

“As mudanças na especificação do biodiesel estão em consonância com a nova realidade de toda a cadeia de produção e distribuição do produto, considerando sua mistura com o diesel fóssil no teor de 5%. Essas alterações visaram, especialmente, a agregar melhorias ao combustível final em relação a desempenho, emissões e durabilidade”, declarou a agência por meio de sua assessoria.

Tempo de maturação

Com essa redução, quem ficou num impasse foram as distribuidoras, ao mesmo tempo satisfeitas e preocupadas com as mudanças. Segundo o diretor de abastecimento e regulamentação do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom), Luciano Libório, o baixo teor de água do produto vai fazer com que uma atenção maior seja voltada para o sistema de transporte de combustíveis, pois o biodiesel pode absorver bastante água dependendo do ambiente em que se encontra. “É preciso observar o quanto o transporte de outros produtos pode afetar a qualidade do biodiesel. Carregamentos em caminhões-tanque ou vagões-tanque com carga prévia de etanol hidratado, por exemplo, vão exigir mais ensaios para indicar que cuidados específicos serão exigidos para que seja cumprida a nova especificação do biodiesel”, explica Libório, acrescentando que essa sucessão de procedimentos pode encarecer o processo de produção e transporte do material.

Cruzando a fala do Sindicom com as opiniões da Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil (Aprobio) e da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), fica aparente que a nova especificação é mais a linha de partida do que a de chegada. Se alguns produtores precisam fazer apenas mudanças operacionais para chegar ao novo patamar, outros terão de investir em novos equipamentos. Sem esses novos investimentos, será difícil ter certeza dos resultados. Para Donato Aranda, consultor técnico da Ubrabio, a possível redução dos problemas de qualidade do biodiesel esbarra na demora da ANP em aprovar os ajustes necessários nas fábricas. “As unidades sabem exatamente como proceder mediante a instalação de novos equipamentos, mas mudanças na planta da fábrica exigem a visita de técnicos da ANP, o que não ocorre de forma tão rápida, dado o pequeno quadro de funcionários disponíveis frente à quantidade de usinas que devem ser vistoriadas”, observa.

Erasmo Battistella, presidente da Aprobio, relata que as mudanças técnicas foram muito positivas e importantes para manter a evolução do setor. As usinas já estão investindo nos processos necessários para atendê-las, mas ele deixa claro que a responsabilidade pelamanutenção da qualidade é de toda a cadeia produtiva, desde a usina processadora até o posto de revenda de combustíveis. “Não basta a indústria investir para aprimorar o produto e ele sofrer alterações em sua composição nas etapas de transporte, distribuição e armazenamento, até que chegue à bomba de combustíveis”, afirma Battistella.

Problema resolvido?

Pelo menos no que diz respeito ao ponto de entupimento, o problema parece ter sido satisfatoriamente resolvido pela adoção de uma tabela de referência com temperaturas diferentes ao longo do ano para cada grupo de estados. Essa medida, na opinião de Libório, foi a principal conquista obtida pelas nova especificação do biodiesel.

Por outro lado, o que o preocupa é a questão da estabilidade à oxidação, que na visão do Sindicom deveria ser aumentada para 8 horas (o valor aprovado foi de 6 horas no teste Rancimat). Libório ressalta que a entidade não tem recebido reclamações de suas associadas, mas ainda é preciso fazer um bom acompanhamento nos próximos meses para saber se vai haver uma melhora efetiva ou simplesmente uma estabilização do índice de problemas de qualidade. Embora ressalte que os efeitos ainda precisam ser mais bem mensurados, o diretor institucional do Sindicato das Distribuidoras Regionais Brasileiras de Combustíveis (Brasilcom), Ricardo Menezes, diz que “de uma forma geral percebemos redução nas ocorrências”.

Já o diretor de postos de rodovia da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis), Ricardo Hashimoto, é mais conservador ao afirmar que ainda não foi possível detectar nenhuma mudança decorrente da nova especificação do biodiesel, seja porque as usinas ainda não tiveram tempo para se ajustar, ou pelo fato de não ter passado tempo suficiente para uma avaliação. “Acreditamos que ainda sejam necessários mais alguns meses para podermos constatar qualquer alteração efetiva propiciada pela nova especificação”, comenta Hashimoto.

Outro ponto complicado é como distinguir a influência do biodiesel nos resultados de não conformidade do óleo diesel. Nesse ponto, a assessoria da ANP defende que o biodiesel não tem culpa no cartório. “As não conformidades do diesel registradas no período de 2012 foram decorrentes principalmente do [parâmetro] aspecto, que sempre foi um dos principais tipos de não conformidade desse combustível, mesmo antes da obrigatoriedade da adição do biodiesel.”

Como forma de precaução, o Comitê Técnico de Biodiesel da ABNT está trabalhando em uma nova norma que tratará da especificação do aspecto do biodiesel, uma vez que algumas entidades ainda alegam que a falta de um padrão pode afetar a avaliação do óleo diesel.

Problemas

Ainda que o esperado pela ANP seja que a cada avaliação os índices de não conformidade sejam reduzidos, em março deste ano os indicadores voltaram a se elevar. Por três meses seguidos, ficaram próximos aos piores já registrados desde a introdução da mistura obrigatória em 2008 [veja gráfico].

grafico incoformidade
Fonte: ANP

Ao analisar o diesel, a ANP leva em conta sete tópicos, dos quais dois são sempre problemáticos. Na aferição de junho (data do último Boletim Mensal do Monitoramento dos Combustíveis Líquidos Automotivos) não foi diferente: o aspecto – que lidera as irregularidades deóleo diesel – atingiu a marca de 53,7%, e o teor de biodiesel chegou a 18,6% no referido mês [veja gráfico].

grafico nao conformidade
Fonte: ANP

Enquanto algumas empresas apresentam em média 8,6% de não conformidade, outras tiveram índices nulos. É o caso da Petrosul, distribuidora que já enfrentou problema com a qualidade de seu produto, mas desde julho de 2011 vem mantendo seu indicativo zerado. O gerente de suprimentos da empresa, Marcel Pacor Rodrigues, atribuiu o feito à troca do fornecedor de biodiesel. “Antes a distribuidora trabalhava com biodiesel de origem animal. Agora, com a mudança, estamos trabalhando com um de origem vegetal”, comenta Rodrigues.

Outra que vem mantendo seu índice de inconformidade zerado desde janeiro de 2012 é a Petrobahia. Apesar do setor estar em franca ascensão e de a distribuidora ter atingido as expectativas de qualidade, o gerente de negócios Claudio Leal ressalta a importância de que a nova especificação resolva os problemas. “Se com 5% de biodiesel adicionado, o setor apresenta problemas, imagina se quisermos colocar um teor maior”, afirma.

Teores de enxofre

Uma preocupação é com os novos tipos de diesel com baixo teor de enxofre que estão entrando no mercado, o S50 e o S10. Como o enxofre tem efeito antimicrobiano, em tese as misturas com biodiesel ficariam mais vulneráveis. Mas, segundo Libório, o Sindicom não tem visto nas operações de suas associadas nada que indicasse que o S50 exija mais cuidados em relação aos que já eram tomados com o diesel comum.

Quanto ao S10, Libório explica que o Sindicom espera que sejam adotadas pela ANP medidas de adequação ao novo teor. “O intuito é criar um consenso em torno da necessidade de tolerâncias para o teor de enxofre na cadeia”, comentou.

Para Hashimoto, apesar dos dois teores serem altamente sensíveis a contaminação, o S10 é o produto que mais preocupa, pois pode facilmente sair da especificação. “Além disso, o baixíssimo teor de enxofre abre espaço para aumento da proliferação microbiana, a principal causadora das famosas borras.” Ainda segundo o diretor da Fecombustíveis, é preciso misturar um aditivo antiestático ao combustível, cujos efeitos são uma preocupação a mais. “Essa adição deve ser feita ainda na etapa de refino, para evitar ignição espontânea no manu-seio do produto. O inconveniente é que esse componente quebra a interface entre o óleo e a água, eventualmente presente, fazendo com que ela fique no produto sob forma de emulsão, podendo causar a turbidez do produto e o aumento da proliferação microbiana”, enfatiza.

A logística do S10 ainda é uma incógnita no mercado brasileiro, mas supõe-se que, por causa dos baixos volumes iniciais, todo o transporte do produto deverá ser feito por caminhões, elevando assim as chances de contaminação. “Por isso, os agentes da cadeia estão agora empenhados em realizar estudos para verificar como o S10 irá se comportar, para evitar surpresas a partir de janeiro”, diz Hashimoto.

Para Battistella, o S10 exigirá mais ou menos os mesmos cuidados que o biodiesel. “Isso se não forem ainda maiores os cuidados com o S10, em especial na segregação de linhas e equipamentos para evitar a possibilidade de contaminação com os produtos com alto teor de enxofre. Neste quesito, acreditamos que o biodiesel seja o único produto que possa compartilhar linhas e bombas com o S10”, finaliza o presidente da Aprobio.

DIVERSIDADE DE MATÉRIAS-PRIMAS

Na opinião de Eduardo Cavalcanti, pesquisador do Instituto Nacional de Tecnologia (INT), o Brasil é um país privilegiado pela ampla diversidade de matérias-primas. Embora o óleo de soja, o algodão e o sebo bovino predominem, o pesquisador afirma que não seria necessário depender isoladamente de nenhuma delas.

No intuito de solucionar problemas com o uso de matérias-primas de origem animal, Cavalcanti sugere que sejam feitos blends. “Misturar soja e sebo é uma boa saída, por exemplo, para se superar as limitações de estabilidade oxidativa e de fluidez a frio que cada um desses biodieseis apresentam”, comenta. É importante ressaltar que qualquer alternativa somente é válida se respeitados os parâmetros fixados na especificação.

“Mesmo o biodiesel de mamona pode se apresentar como uma boa alternativa para a região nordestina, como elemento de blenda ao de algodão ou ao de soja, rejeitando-se as limitações de viscosidade e de estabilidade oxidativa de cada um”, afirma Cavalcanti.

A Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em parceria com o INT, tem conduzido experimentos de adição de biodiesel de mamona – conhecido por sua alta viscosidade – ao de soja, em proporções de até 30%, que mostraram resultados positivos.

Essas podem ser possibilidades interessantes para as distribuidoras que continuam apresentando dificuldades no uso de matéria-prima de origem animal. Segundo o Sindicom, o uso do sebo tende a ter maior incidência de problemas de qualidade no que tange a resíduos e ponto de entupimento.

“Verificamos isso principalmente quando movimentado em regiões com temperatura mais baixa, como no Centro-Sul, mesmo em épocas em que as temperaturas não caem tanto, como primavera e verão”, afirma o diretor de abastecimento e regulamentação da entidade, Luciano Libório.