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A indústria do biodiesel precisa diversificar


Edição de Abr / Mai 2012 - 19 abr 2012 - 16:48 - Última atualização em: 24 abr 2012 - 16:37

Não é segredo para ninguém que a estruturação da cadeia produtiva do biodiesel foi muito rápida, demonstrando mais uma vez que a agricultura brasileira tem uma grande vocação para atender não somente o setor alimentício, mas também de fornecer insumos para atender outros mercados, como o de energia. Também não é segredo que a implantação de capacidade industrial para produção de biodiesel foi muito acima do que era necessário para a meta de substituir 5% do diesel de petróleo fixada no marco regulatório que introduziu este biocombustível na nossa matriz energética. De fato, hoje a capacidade instalada de produção de biodiesel é suficiente para atender o dobro do consumo nacional, gerando uma ociosidade que se situa perigosamente em patamares acima de 50%.

Esta situação é extremamente delicada, pois o aumento de consumo de diesel no Brasil está na faixa dos 10%, o que em tese levaria a ociosidade da indústria para patamares mais confortáveis em apenas três anos ou mais. Como consequência, o setor está se movimentando no sentido de pressionar o governo para alterar o marco regulatório na direção de um aumento imediato do teor de biocombustível no diesel. No entanto, como já discuti nesta coluna, não acredito que em médio prazo o governo ceda a essa pressão. O meu principal argumento é a viabilidade econômica do biodiesel. Apesar de todo o crescimento da indústria, e a consequente economia de escala, ainda os preços praticados na venda de biodiesel se situam bem acima do preço do diesel. Ou seja, um aumento no teor significará um aumento direto do preço ao consumidor, o que, devido à importância do diesel na economia brasileira, resultará numa inevitável pressão inflacionária que provavelmente o governo não vai querer provocar.

Se não é possível contar em curto prazo com um aumento do teor de biodiesel, que alternativas o setor poderia procurar para aumentar o seu mercado? Um caminho natural seria a exportação, mas que não parece ser muito promissor devido à situação econômica dos países desenvolvidos, que são os principais mercados consumidores. Outra opção, que me parece mais viável no momento, seria encontrar mercados alternativos ao de combustível, como a indústria de biodiesel dos Estados Unidos já vem fazendo há algum tempo. Um exemplo é o mercado de solventes e desengraxantes. A indústria americana percebeu que os ésteres metílicos, principais componentes do biodiesel, são excelentes solventes para graxas e gorduras. Assim, eles são substitutos naturais para os solventes derivados do petróleo usados em diversas áreas industriais e já são comercializados como limpadores de pias e fogões, removedores de tinta (inclusive para limpar pichações), solventes para tintas e adesivos, entre muitos outros usos. Só para exemplificar, uma estimativa de 2008 já apontava um consumo de 20 milhões de litros de ésteres metílicos nos EUA, o que ainda era considerada uma fatia pequena do mercado total de solventes (aproximadamente 5 bilhões de litros). Além disso, se pensarmos na possibilidade de modificar quimicamente o biodiesel, outros mercados também podem ser abertos. Em suma, acredito que uma alternativa viável no curto prazo para a indústria do biodiesel seja garimpar novos mercados que possibilitem um aumento imediato do consumo de ésteres metílicos no Brasil.

Paulo Suarez é professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ-UnB) e foi vencedor do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia em 2005.