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Matéria-prima: o sebo ainda é visto com desconfiança


Edição de Abr / Mai 2012 - 19 abr 2012 - 16:04 - Última atualização em: 24 abr 2012 - 16:39
O sebo tem potencial para ampliar sua participação no mercado de biodiesel e se tornar uma estrela mundial, mas antes precisa superar os desafios impostos pela sua própria natureza

Por Cátia Franco, de São Paulo

O Brasil possui um dos maiores rebanhos bovinos do mundo, o que naturalmente nos transforma em um produtor potencial de sebo. A matéria-prima é disputada por diversos segmentos industriais, entre eles, o de biocombustíveis. Atualmente, a gordura animal é a segunda fonte mais usada pelas usinas, tendo sido responsável por cerca de 13% do biodiesel produzido no país no ano passado.

Mas não é só a ampla oferta de matéria-prima que torna o sebo tão interessante. O insumo detém outros atrativos, como seu alto aproveitamento para produção de biodiesel, chegando bem perto do apresentado pelo óleo de cozinha com um índice de conversão que beira os 93%.

Além disso, aos olhos do rigoroso mercado europeu, com suas elevadas exigências de redução das emissões, o sebo é encarado como um passivo ambiental transformado em riqueza. “A Análise do Ciclo de Vida (ACV) do biodiesel de sebo é superior a quase todas as outras matérias-primas atualmente empregadas no mundo afora”, afirma o professor de engenharia química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e consultor da União Brasileira do Biodiesel (Ubrabio), Donato Aranda. Por conta disso, a moral do biodiesel de sebo no mercado internacional está em alta.

Então, por que apesar da ampla oferta e do forte apelo sustentável para a produção de biodiesel, o sebo não consegue ampliar sua já expressiva participação, deixando a soja reinar como líder absoluta no mercado?

Uma pesquisa abrangente realizada pelo economista Gabriel Levy como parte de uma dissertação de mestrado – que defendeu recentemente na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiros (Esalq) – traz algumas respostas para essa complexa questão. O estudo, um dos raros à disposição, revela que, embora haja uma grande capacidade de produção desse material (cada boi abatido rende aproximadamente 15 quilos de sebo), este é um mercado relativamente pouco explorado e mal estruturado. “Existe um grande excedente que não é aproveitado. É preciso montar as regras do jogo”, afirma o economista.

De acordo com Levy, é na inexistência de mercado organizado que reside a principal explicação para o biodiesel ainda não ser responsável por uma porcentagem maior das vendas de sebo. Um exemplo concreto disso é a ausência de formalização nas transações entre produtores de biodiesel e os frigoríficos e graxarias. “Não se encontra um perfil nessas transações, geralmente efetuadas por vias informais, ora com contratos de curto prazo, ora com contratos de longo prazo.”

Também falta padronização à matéria-prima empregada. Por essa razão, o economista sugere no estudo uma maior verticalização da indústria do sebo, o que resultaria num controle mais efetivo do insumo produzido e, consequentemente, em maior qualidade, evitando problemas como o relatado pelo Laboratório de Qualidade de Combustíveis da ANP à reportagem de BiodieselBR: “O biodiesel de sebo apresenta uma tendência a formar depósitos sólidos quando o processo de produção não é rigorosamente controlado. O fato é descrito na literatura e foi comprovado em estudos conduzidos nos laboratórios da ANP. Entretanto, observadas práticas adequadas de produção e manuseio, não há qualquer restrição no biodiesel de sebo”, afirma a agência.

Um problema de natureza

Mas não é bem por aí. O biodiesel de sebo, dada a especificidade de sua matéria-prima, possui, sim, um grande fator limitador: o ponto de entupimento de filtro a frio. Devido à sua composição de cadeias mais saturadas, o biocombustível feito de sebo se torna sólido a temperaturas relativamente amenas e isso pode ocasionar o entupimento de motores e dificuldades no escoamento do produto durante a etapa de distribuição, quando é manuseado ou transportado a temperaturas um pouco mais baixas (leia mais sobre o assunto na reportagem “Passaporte para o frio” publicada na edição 23 de BiodieselBR).

O problema gera muita controvérsia dentro do setor, desanima aqueles que cogitam investir na produção de biodiesel de sebo e causa bastante constrangimento para quem já produz biocombustível a partir dessa matéria-prima. Talvez essa seja a explicação para que nenhuma das cinco usinas que produzem biodiesel a partir de sebo, procuradas por esta reportagem, tenha topado falar sobre o assunto. Uma delas alegou que o biodiesel à base de gordura animal não é o carro-chefe de sua produção. Outra, uma grande produtora de biodiesel de sebo de São Paulo, sequer deu retorno às ligações e e-mails. Outro usineiro contatado disse que estava indisponível para falar porque se encontrava viajando pela Região Norte.

Essa reação sinaliza que a questão do ponto de entupimento ainda constitui um grande dilema para o setor, sendo responsável por boa parte das queixas relacionadas à qualidade do biodiesel de sebo. “A indústria avançou bastante na questão da acidez. Eu diria que isso já não é problema. Entretanto, a questão do ponto de entupimento ainda é complicada”, reconhece o professor Aranda.

Esforços têm sido envidados para amenizar o problema. A Evonik está entre as empresas da área química que vêm se dedicando ao desenvolvimento dos chamados anticongelantes – produtos que atuam no ponto de congelamento e, na teoria, teriam o poder de melhorar a performance do biodiesel de sebo em regiões mais frias, evitando a formação de cristais. Carlos Araújo, coordenador de negócios da companhia de origem alemã, informou que os testes realizados em laboratório com amostras fornecidas por produtores apresentaram resultados positivos após o uso do aditivo fabricado pela empresa. “Houve uma redução de 3 a 5 graus no ponto de congelamento, o que traz segurança não só para o transporte até o terminal de mistura como para o transporte até os postos de abastecimento”, afirma Araújo. Ele faz a ressalva de que esse resultado depende da quantidade de sebo utilizado e se o produto é ou não usado em blends com biodiesel de oleaginosas.

Contudo, há quem afirme que, na prática, os resultados não são tão satisfatórios. “Não existe um aditivo que dê uma tranquilidade para trabalhar com o biodiesel de sebo em qualquer região e temperatura”, diz Luís Emílio Freire, gerente de Abastecimento e Regulamentação do Sindicado Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom).

Só em clima tropical

Segundo o Sindicom, para tentar atenuar o problema com o ponto de entupimento do biodiesel, a ANP capitaneou um acordo não oficial para que as usinas não comercializassem o biodiesel produzido integralmente com gordura animal em regiões do país que tradicionalmente apresentam baixas temperaturas no inverno. “Nas cidades mais frias, como as do Rio Grande do Sul, ficou combinado que o biodiesel fosse feito com 70% a 80% de soja ou outra oleaginosa e 30% ou 20% de sebo. Isso foi tentado e até melhorou a situação, mas não se tornou algo normatizado”, conta Freire.

Agora a ANP decidiu regulamentar a questão por meio da criação de uma tabela, que propõe que o ponto de entupimento seja estabelecido de acordo com a região onde o biodiesel será utilizado, a exemplo do que já ocorre hoje com o óleo diesel B (veja tabela).

Mas o que os distribuidores, principais afetados pelo processo de cristalização do biodiesel de sebo, acham dessa resolução? Para o Sindicom, não é o ideal, mas representa uma “evolução”, principalmente quando não se tem nenhum parâmetro.

Ainda assim, o fato de o biodiesel se solidificar em baixas temperaturas continuará a ser encarado como uma limitação para um consumo maior dessa matéria-prima. “Por mais bem especificado e confeccionado, o biodiesel de sebo terá restrições de uso por conta das propriedades físico-químicas que lhe são inerentes. Isso não quer dizer que seja mal feito. Apenas existe a necessidade de se especificar o uso em função da temperatura”, argumenta o presidente do Sindicom, Alísio Vaz, para quem os produtores de biodiesel de sebo são “até que muito responsáveis”.

Vaz enfatiza que grande parte das queixas que chega até o conhecimento do sindicato decorre de problemas com o ponto de entupimento. Relatos de distribuidores que encontraram pelos de animais em biodiesel de sebo são classificados como fatos isolados, um “ponto fora da curva”.

Mais atenção

A despeito das barreiras eriçadas por conta do ponto de entupimento, Donato Aranda, da Ubrabio, aposta num maior consumo de biodiesel de sebo. Não que ele ignore os problemas existentes, mas crê que com o investimento em soluções tecnológicas, é possível contornar complicações relacionadas ao ponto de congelamento de filtro a frio e à fluidez a baixa temperatura.

Entusiasmo semelhante demonstra o economista Gabriel Levy. Foi justamente o fato de o sebo ser relevante para a indústria do biodiesel e, ao mesmo tempo, haver tão pouca informação a respeito dessa matéria-prima, que fez com que desenvolvesse sua dissertação de mestrado em cima da questão.

O economista alerta que, por ser uma matéria-prima interessante ao Programa Nacional de Produção de Biodiesel, o sebo precisa de uma atenção maior. Ele defende ainda que antes de transformá-lo em biodiesel sejam estabelecidos parâmetros para o insumo, como perecimento, nível de água, de acidez etc.

A criação de uma maior consciência para o aproveitamento de recursos naturais ou matérias-primas resultantes de atividades econômicas para as quais o país tem uma vocação natural, como a pecuária, ainda representa um grande desafio para o Brasil. Exige organização e estruturação do setor em questão, padronização de processos e procedimentos visando à qualidade do que se é produzido e investimento em pesquisa e tecnologia para a solução de problemas.

O sebo, dada a sua rica oferta, poderia ser uma boa experiência para a construção desse caminho. E como bem observa Levy, não somente a indústria de biodiesel se beneficiaria disso, mas também “outros setores que utilizam o sebo como matéria-prima”.