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Entrevista: Roberto Rodrigues


Edição de Abr / Mai 2012 - 19 abr 2012 - 11:55 - Última atualização em: 24 abr 2012 - 16:39
Ministro da Agricultura na época do lançamento do PNPB, Roberto Rodrigues continua um fervoroso defensor da agroenergia como fator determinante para as mudanças na geopolítica global

Fábio Rodrigues, de São Paulo

O engenheiro agrônomo Roberto Rodrigues esteve às voltas com a agricultura a vida inteira. Filho de fazendeiro, ele se tornaria uma das principais cabeças no processo de formação do moderno agronegócio brasileiro. Embora sua atuação hoje seja mais acadêmica – é professor da Unesp em Jaboticabal e coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV) – seu currículo é extenso demais para ser descrito em detalhes aqui.

Se dá para tirar o todo por uma parte, então basta dizer que seu envolvimento com os movimentos cooperativistas em meados dos anos 60 levaram Rodrigues à presidência da International Co-operative Alliance (ICA), organização com sede na Suíça que é a voz mais relevante do cooperativismo em nível global, pela qual ele rodou 79 países.

Uma atuação tão destacada que, mesmo sem jamais ter se envolvido com política partidária na vida, fez com que ele fosse convidado em 2003 pelo presidente Lula para assumir o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Nesse posto, foi um dos responsáveis por fazer da agroenergia um dos temas estratégicos para o governo. É sobre essa história toda que ele conversou com BiodieselBR.

Revista BiodieselBR – O senhor foi o ministro da agricultura na época do lançamento do PNPB. Como foi o seu envolvimento pessoal com o desenho do programa?
Roberto Rodrigues – Essa é uma história comprida. Logo no comecinho de 2003, eu procurei o presidente Lula para conversar sobre a importância da agroenergia. A minha tese é que a agroenergia pode mudar a geopolítica. Alimento, você consegue plantar até na Sibéria: você monta uma estufa lá e planta comida. Economicamente não vai ser competitivo, mas dá para fazer. Agora, agroenergia você só produz com eficiência entre os trópicos de Câncer e de Capricórnio, ou seja, na América Latina, África Subsaariana e parte da Ásia. Eu levei essa ideia para o presidente e disse que o Brasil poderia impulsionar um novo modelo energético renovável que revolucionaria a geopolítica mundial, valorizando os países tropicais. O presidente Lula gostou da ideia e se transformou em um grande promotor da agroenergia no mundo.

E essa sua visão sobre agroenergia já incluía o biodiesel?
Roberto Rodrigues – No passado, já tinha havido experiências com a ideia de produzir diesel a partir de óleos vegetais, que nunca foram para frente por falta de uma estratégia. Eu discuti muito isso com a Dilma [Rousseff], que na época era ministra de minas e energia. Levei muito para ela uma ideia do biodiesel a partir da experiência do etanol. O Proálcool foi formidável para o setor sucroalcooleiro porque permitiu que ele tivesse mais de um produto industrial a partir da cana-de-açúcar. O biodiesel poderia fazer o mesmo pelas oleaginosas. Essa era a minha ideia, mas, como o governo tinha uma visão muito importante sobre a questão social, a ênfase acabou passando para o fomento à agricultura familiar nas regiões mais pobres. Então, quem conduziu a montagem do programa foi mais o MDA [Ministério do Desenvolvimento Agrário] do que o Mapa.

Foi uma mudança grande em relação à sua visão inicial. Como senhor viu essa dimensão social do biodiesel?
Roberto Rodrigues – O conceito de você usar o biodiesel para desenvolver as áreas mais necessitadas é muito interessante e positivo. Eu apoio essa ideia. Se não funcionou direito até agora é porque o processo não se completou. Para funcionar adequadamente, a agricultura familiar exige organizações mais fortes, como, por exemplo, cooperativas. A experiência do óleo de palma na Amazônia tem tudo para ser um grande sucesso desde que as políticas sejam mais amplas. Não basta só financiar o plantio.

A escolha da mamona também não deu muito certo, não é verdade?
Roberto Rodrigues – A mamona não funcionou direito por causa do custo e da competição por seu óleo, que possui outros usos como na fabricação de lubrificantes. Isso sem falar na questão agrícola; faltaram sementes de variedades de mamona mais adequadas ao plantio. As indústrias montadas para trabalhar com a planta também enfrentaram dificuldades financeiras que complicaram a questão da comercialização do óleo. Tropeços como esse também aconteceram no Proálcool. Ao contrário do que muita gente acha hoje, ele não saiu voando logo que foi criado. Se não tivéssemos tido subsídios fortes para as usinas de etanol e para o setor canavieiro, o programa não teria caminhado.

Até agora, o PNPB não estimulou a diversificação de matérias-primas como se esperava, e a soja ainda reina. Esse quadro pode ser revertido?
Roberto Rodrigues – A soja, aliás, acabou interferindo no sucesso do biodiesel. Desde que a China começou a comprar soja em grandes quantidades, o preço subiu e inviabilizou a competição com o diesel de petróleo. Mesmo assim, a soja é muito importante para o biodiesel, até por uma questão de alternativa de mercado. Digamos que a China resolva não comprar mais soja do Brasil, a indústria de biodiesel poderia ser uma solução. O Brasil é um país plural que precisa ter espaço para todo mundo, então o biodiesel pode ser uma grande saída para produtos da agricultura familiar sem que isso seja um problema para a soja. São coisas que se somam para compor uma alternativa integrada ao diesel fóssil.

O que, na sua opinião, ainda falta para que o biodiesel repita o sucesso do etanol?
Roberto Rodrigues – Vai depender de duas coisas. O problema central é que ainda falta encontrar a matéria- prima certa. Eu acredito no óleo de palma. Ele não só é um bom produto para o biodiesel, como também pode ser cultivado com muita competência por agricultores familiares da região amazônica. A palma vai permitir que estados que hoje não fabricam biodiesel se tornem grandes produtores. A segunda questão é melhorar a tecnologia. Durante minha gestão no Ministério da Agricultura, eu criei a Embrapa Agroenergia, que hoje está muito empenhada nessa discussão.

Uma das críticas ao biodiesel é que ele continua mais caro que o diesel fóssil, mas as externalidades positivas não superam o impacto na inflação?
Roberto Rodrigues – Essa é precisamente a base do meu argumento. As externalidades da agroenergia incluem a mitigação do aquecimento global, a geração de empregos e a redução nas importações de energia fóssil. São tantas as vantagens que não tenho a menor dúvida de que não passa de uma questão de tempo para que o setor decole. Ou você acha que empresas como Bunge, Cargill e Dreyfus estão investindo em usinas de etanol só porque querem um pedaço do mercado brasileiro? Elas estão trabalhando uma estratégia muito mais ampla. E o biodiesel também vai ser um componente muito importante nisso. E não é só a energia, a química verde está chegando e terá escala monumental. Ela pode até substituir a petroquímica. É claro que o império do petróleo vai resistir, mas já dá para começar a ver as petrolíferas se associando à agroenergia. A Petrobras é uma líder nisso, mas tem outras empresas de petróleo chegando no mercado. Não tenho dúvidas de que teremos a agroenergia brilhando e mudando o paradigma da energia mundial.

Há muito entusiasmo a respeito do potencial do Brasil no mercado global de biocombustíveis. Estamos mesmo com essa bola toda?
Roberto Rodrigues – Esse entusiasmo se baseia em nossa competência tecnológica na área e em nosso território. Então, acho que estamos com essa bola toda, sim. Infelizmente, nos últimos anos a estratégia ficou meio solta. O setor público e o privado deixaram a coisa na base do laissez- -faire e isso causou um prejuízo sem tamanho para a indústria do etanol. Tanto é que estamos importando dos Estados Unidos o que, há cinco anos, seria inimaginável. Tivemos seca? Sim, tivemos! Mas estamos falando de agricultura, tem que ter alguma estratégia para lidar com essas eventualidades. Acredito que ainda temos um horizonte monumental pela frente e que poderemos liderar, mas, por uma total falta de estratégia, estamos perdendo a dianteira do mercado.

E o que falta para ocuparmos uma posição mais efetiva de liderança nesse setor?
Roberto Rodrigues – Há muitos anos eu defendo a criação de uma secretaria nacional de agroenergia com status de ministério. Temos 12 ministérios que tratam de agroenergia e tem gente muito séria e patriótica lutando, mas falta articulação. Um dos motivos do Proálcool ter sido um sucesso foi que tivemos um ministro da indústria e comércio que era um grande visionário, o João Camilo Penna, que criou a Comissão Executiva Nacional do Álcool. Todos os esforços relacionados ao álcool estavam dentro de uma única instituição. Precisamos nos convencer que a agroenergia é um projeto extraordinário e que pode mudar a geopolítica global. Não estou falando só do governo federal, mas também dos estados, do parlamento e da sociedade como um todo.

O setor parece estar caminhando na direção dos biocombustíveis de segunda geração. Estamos bem posicionados nessa área?
Roberto Rodrigues – Eu diria que a visão existe. A Embrapa vê muito claramente que precisamos avançar os biocombustíveis de segunda geração e também a química verde. O problema é que os recursos para pesquisa ainda são escassos. Para transformar isso em realidade precisamos de recursos orçamentários, gente preparada e estratégia definida. Ainda não temos isso.

Onde o senhor se situa na polêmica biocombustível versus alimentos, que surge de tempos em tempos?
Roberto Rodrigues – Isso é uma falácia! Esse é um tema que a gente já deveria ter superado, mas que, infelizmente, ainda aparece muito por aí e deve aparecer bastante agora na Rio+20. O Brasil, aliás, dá um exemplo bem claro de que dá para crescer em tudo. A gente aumentou enormemente na produção de carnes, grãos, alimentos, florestas plantadas e energia sem que um produto perturbasse o outro. Evidente que países pequenos não conseguem fazer o mesmo. Eles não têm terra para fazer tudo ao mesmo tempo e é por isso que a agroenergia deveria ser discutida em nível regional, por blocos.

Recentemente o setor de biocombustíveis começou a ser acusado de estimular o desmatamento, o que, segundo os críticos, faria dos biocombustíveis emissores líquidos de carbono. O senhor acha que o setor deveria tomar mais cuidado com o ambiente?
Roberto Rodrigues – Acho. O setor agrícola precisa olhar para a sustentabilidade com mais carinho. Podemos encontrar respostas a todos os desafios técnicos que vierem a aparecer desde que a questão seja tratada com a necessária boa vontade. O meio ambiente não é um problema, mas uma oportunidade para o agronegócio. No caso do plantio de palma na Amazônia, por exemplo, o fato é que temos tantas áreas desmatadas que o reflorestamento com palma seria até uma solução. No setor canavieiro, ainda outro dia vieram me perguntar sobre o restilo que antes era despejado nos rios e causava poluição e, agora, está sendo aproveitado como adubo. Tudo na vida é assim, tem duas faces. Basta boa vontade e tecnologia adequada que o problema vira solução.

O setor de biocombustíveis está atraindo o interesse de multinacionais. O Brasil não corre o risco de ficar para trás no jogo que começou?
Roberto Rodrigues – Temos grandes empresas globais que realmente vieram para cá para aprender a fazer biocombustíveis e vão levar isso para fora. Cedo ou tarde, a agroenergia vai virar uma commodity e essa transformação “virá conosco ou sem nosco”, que é como dizem lá na roça [risos]. O Brasil pode liderar o processo porque temos um know-how que vai além de plantar cana ou oleaginosas e transformar isso em biocombustível; também já temos marcos regulatórios, compreensão de como funciona o crédito para o setor, controle de estoques, logística etc. É um monte de coisa que aprendemos a duras penas e vale uma barbaridade. Só que não estamos sabendo tirar proveito disso direito. Falta estratégia. Nossa visão tem sido muito pequenininha e pode ser que de condutor do processo acabemos virando um copiloto.

Ao deixar o ministério em 2006, o senhor tentou articular um fundo de investimentos em agroenergia. Com os níveis de ociosidade da indústria do biodiesel de hoje, o senhor recomendaria um investimento na área para seus clientes?
Roberto Rodrigues – Esse fundo foi um projeto que não evoluiu. Então, minha resposta é só teórica. Essa é uma pergunta complicada de resolver porque, embora hoje todo mundo diga que esses investimentos não valeriam a pena porque o mercado não está rentável, se você fizer um trabalho industrial e agrícola bem feito, conseguir os parceiros e a tecnologia adequados e tiver uma gestão moderna, eu acho viável. Particularmente, eu continuo achando que vale a pena investir em biocombustíveis.