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O gigante asiático e a queima de carvão - parte 2


Edição de Fev / Mar 2012 - 08 mar 2012 - 17:06 - Última atualização em: 11 mar 2012 - 22:01

Na minha última coluna abordei de forma sucinta um tópico bastante delicado, que é a questão ambiental associada ao uso de combustíveis fósseis. Basicamente, falei sobre poluição do ar na China, a qual é associada à queima de combustíveis fósseis, principalmente o carvão mineral. No entanto, diversas notícias veiculadas na mídia me fazem retornar este mês ao tema ambiental.

Enquanto estava escrevendo sobre a poluição do país asiático, não cessavam as notícias na mídia sobre os perigos do vazamento de quase 400 mil litros de petróleo em um poço explorado por uma multinacional na bacia de Campos. No entanto, a notícia que mais me chamou a atenção chegou às minhas mãos uma semana após o vazamento no litoral fluminense ter sido contido. Casualmente, estava em Porto Alegre no dia 27 de novembro de 2011, quando a edição dominical do jornal gaúcho Correio do Povo trazia matéria de capa bastante intrigante. O título da matéria falava que os “vazamentos de óleo crescem em ritmo alarmante”. Imediatamente, minha curiosidade me levou a ler a matéria para tentar entender o porquê do uso do plural, pois até onde tinha conhecimento apenas um vazamento de óleo havia ocorrido no Brasil. Na matéria não apareciam notícias sobre grandes vazamentos, como esse que acabava de ser controlado, os quais costumam atrair a mídia, os órgãos ambientais, grupos de ambientalistas, cooperativas de pescadores etc. A notícia tratava de um processo silencioso, que está poluindo os mares do mundo inteiro sem fazer alarde. Relatava-se ali que acontecem corriqueiramente muitos pequenos vazamentos pelo litoral brasileiro, e obviamente de todo país produtor de petróleo no mar. Ao contrário dos grandes vazamentos, como o acontecido poucos anos atrás no golfo do México com uma companhia inglesa e que deixou comunidades inteiras de pescadores do sul dos Estados Unidos sem atividade econômica, esses pequenos vazamentos são rapidamente controlados e passam despercebidos, sendo que na maioria das vezes o óleo não é retirado do ambiente. Segundo dados da matéria, em 2010 a quantidade total de óleo que vazou no litoral brasileiro foi o dobro do derramado no acidente recente no Rio.

A indústria de biocombustíveis não está isenta do risco de derramamento de seus insumos ou produtos. Mesmo a jovem indústria brasileira do biodiesel já foi protagonista de alguns derramamentos líquidos no ambiente, como de biodiesel, glicerina ou óleo. Seria ingenuidade pensar que por serem derivados de biomassa esses três líquidos não seriam poluentes. No entanto, sua biodegradabilidade, ou seja, a capacidade de serem consumidos pelos micro-organismos existentes no meio ambiente, é largamente superior à do petróleo.

Em um ano em que ocorrerá mais uma conferência mundial sobre o clima, desta vez em território brasileiro, e que se discute no Congresso Nacional uma alteração do marco legal visando um aumento no teor de biodiesel adicionado ao diesel, certamente este é mais um argumento que deve ser levado em conta. Ou seja, além de todos os pontos que associam o biodiesel com a diminuição de emissão de poluentes durante a queima de combustível nos motores, devemos também considerar a diminuição da poluição associada às duas cadeias produtivas (a do biocombustível e a do petróleo). Se decidirmos realmente avançar para uma sociedade sustentável, a busca por tecnologias de produção menos agressivas à natureza tem de estar sempre na pauta. E, neste caso, os processos de produção de biocombustíveis são certamente os menos agressivos.

Paulo Suarez é professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ-UnB) e foi vencedor do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia em 2005.