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Futuro: biodiesel em 2020


Edição de Ago / Set de 2011 - 15 ago 2011 - 15:02 - Última atualização em: 19 jan 2012 - 16:15
Embora EPE preveja crescimento absolutamente irrisório para o biodiesel pela próxima década, uma olhada mais cautelosa revela indícios de que poderemos ter investimentos intensos no setor

Fábio Rodrigues, de São Paulo

Apenas 0,02%. É mais ou menos isso o que a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) imagina que o biodiesel vai representar no total de R$ 1 trilhão em investimentos que a geração e distribuição de energia movimentarão pela próxima década. Em moeda sonante, isso daria cerca de R$ 200 milhões. As previsões foram publicadas em junho na mais recente versão do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE), que alinhava cenários até o ano de 2020.

Não é que a equipe do EPE tenha cometido alguma barbeiragem. Tem uma pedra no caminho que os pesquisadores não têm como contornar: a falta de um cronograma oficial para novos aumentos na mistura obrigatória. Sem isso, não há muito o que fazer e os pesquisadores acabam amarrados à suposição de que ficaremos no B5 até 2020. Nas páginas do PDE 2020, o biodiesel se limitará a acompanhar o crescimento do óleo diesel, que deve sair de 45,8 bilhões de litros em 2011 até chegar em 70,2 bilhões de litros em 2020. Com isso, a demanda de biodiesel vai subir de 2,5 bilhões de litros até chegar a 3,8 bilhões.

Sem um aumento forte na demanda, o PDE 2020 acabou não descobrindo investimentos sendo feitos na área, apesar de muitas esmagadoras estarem entrando no mercado.

Aumento da demanda

De qualquer maneira, chega a surpreender que a EPE espere tão pouco do biodiesel. De acordo com o diretor executivo da União Brasileira do Biodiesel (Ubrabio), Odacir Klein, a meta oficial é chegar ao B20 até o final da década. “No meu entendimento, não há a menor possibilidade de que a mistura obrigatória fique em 5%. Tem que haver uma mudança do marco regulatório que permita o aumento: há capacidade produtiva instalada, há matéria-prima, há as oleaginosas alternativas acontecendo para isso”, defende.

Em outras palavras, na opinião dos produtores não existe nenhum impedimento real para que o governo autorize novos aumentos, não fosse por um detalhezinho à toa: o medo dos reflexos que isso teria na inflação.

Segundo Klein, um aumento gradativo na mistura não deve ajudar a atiçar o dragão inflacionário. O estudo “Biodiesel e sua contribuição ao desenvolvimento brasileiro”, elaborado pela FGV Projetos por encomenda da Ubrabio, calculou que, escalonando o B20 em dez anos, o impacto inflacionário direto ficaria entre 0,00021 e 0,00034 ponto percentual ao ano.

O governo não está tão convencido. Em 14 de julho, o Senado Federal realizou uma audiência pública na qual o diretor do Departamento de Combustíveis Renováveis do Ministério de Minas e Energia, Ricardo Dornelles, disse que “não é lógica” a afirmação de que o biodiesel não aumenta a inflação. Como o preço do diesel está embutido no custo dos transportes, qualquer aumento causa estragos. “O impacto direto do óleo diesel na inflação é mínimo, lá na terceira ou quarta casa decimal. O impacto indireto, este sim, tem um valor considerável”, explicou.

Uma coisa está bem clara: qualquer novo aumento na mistura depende tanto das condições técnico-econômicas quanto dos dividendos políticos que o governo espera obter. E é bem aqui que o debate parece prestes a espanar. O Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB) foi desenhado para ser a locomotiva que puxaria uma série de iniciativas voltadas à melhoria de renda no campo e ao desenvolvimento regional. O Selo Combustível Social, que oferece vantagens aos usineiros que compram parte de sua matéria-prima da agricultura familiar, foi criado por causa disso. Mas os resultados ficaram aquém do esperado, e o MDA teve que revisar as metas para baixo enquanto o PNPB evoluiu rapidamente e as metas de produção foram inclusive adiantadas. A falta de transparência e publicidade do órgão também preocupa (Leia mais sobre o assunto na reportagem “A problemática do selo social” desta edição). Ainda assim, o coordenador geral de Agroenergia do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Denilson Ferreira, ressalta que o biodiesel tem gerado resultados promissores. “Na canola, por exemplo, o salto foi tremendo”, comemora.

Números da Conab revelam que a área plantada com canola vai chegar a 46 mil hectares na safra 2010/2011, um salto de 50% sobre os 31 mil hectares da safra 2009/2010. “Esse crescimento é fruto do programa do biodiesel. Na safra de canola passada, uma única usina foi responsável por fomentar 15 mil hectares, metade da produção do período”, informa Ferreira.

E tem mais vindo por aí, especialmente nos Estados da Região Norte onde os grandes projetos de dendê ligados ao Programa de Produção Sustentável de Palma de Óleo (Propalma) estão em execução. No ano que vem a Biovale, subsidiária da mineradora Vale, deve fazer a primeira colheita de um projeto que deverá produzir meio milhão de toneladas de óleo de palma por ano a partir de 2016. Em 2013, será a vez da Petrobras Biocombustível começar a colher dendê no Pará e, um ano depois, a Oleoplan fará o mesmo em Roraima. E há vários outros projetos em andamento.

Soja

Nada disso significa que o reinado absoluto do óleo de soja esteja com os dias contados. Ano passado, a soja foi matéria-prima de 83% do biodiesel brasileiro. Superar essa dependência vai demorar.

As projeções da FGV indicam uma queda gradual da participação da soja enquanto oleaginosas alternativas ganham terreno. No estudo da FGV, a configuração do mercado em 2020 seria: 70% do óleo de soja; 20% de uma soma de dendê, amendoim, canola, girassol e mamona; e os 10% restantes estariam divididos entre sebo e óleo de algodão. Admitindo a ideia do B20 em 2020 e assumindo que as projeções do PDE 2020 para o consumo de diesel estejam corretas, o mercado de biodiesel vai consumir 14 bilhões de litros de óleos e gorduras por ano.

As oleaginosas alternativas contribuiriam com 2,8 bilhões de litros – é mais óleo do que a indústria consumiu no ano passado inteirinho. Mas a soja ainda entraria com 9,8 bilhões de litros. Para fechar essa conta seria preciso esmagar cerca de 54,5 milhões de toneladas de soja. Esse valor pode ser difícil de alcançar se forem levadas em consideração as previsões do estudo “Projeções do Agronegócio 2010/2011 a 2020/2021”, da Assessoria de Gestão Estratégica do Mapa. Nele a safra de soja 2020/2021 será de no mínimo 86,5 milhões de toneladas, das quais 40,7 milhões serão exportadas na forma de grão, com pouquíssimo valor agregado. Nesse cenário, só seria possível aumentar a mistura de biodiesel caso o Brasil revertesse seus padrões de exportação e passasse a vender mais farelo e proteína de soja, o que não seria inédito. Em 1996, 40% do mercado global de farelo pertencia ao Brasil, mas desde então o produto nacional vem perdendo espaço. Em 2010, ficamos com 24%. Retomar o ímpeto exigiria algumas correções importantes (Leia mais sobre o assunto na entrevista de Carlo Lovatelli publicada nesta edição).

Crescimento

Há motivos para crer que o impasse entre governo e produtores esteja para terminar. José Luiz Olivério, vice-presidente de tecnologia e desenvolvimento da Dedini, uma das maiores fabricantes de equipamentos para o setor, conta que vêm acontecendo reuniões entre membros da Comissão Executiva Interministerial do PNPB e representantes da cadeia produtiva. “A expectativa é que haja um escalonamento com um cenário objetivando o B20. Existe perspectiva de que em um mês ou dois saia alguma proposta”, revela. No entanto. os problemas do etanol podem acabar prejudicando a criação de um novo marco regulatório contemplando o biodiesel.

Enquanto governo e produtores tentam acertar os ponteiros, é possível ir fazendo algumas contas. O setor vai precisar mais que dobrar de tamanho para chegar em 2020 com capacidade de produzir 14 bilhões de litros por ano. Isso significa mais – e maiores – usinas. Segundo informações da Dedini, uma unidade capaz de produzir 100 milhões de litros custa cerca de US$ 30 milhões. Assim, seria preciso investimentos de US$ 2,34 bilhões para acrescentar os 7,8 bilhões de litros necessários para fazer do B20 uma realidade. É mais de onze vezes os mirrados R$ 200 milhões previstos no PDE 2020. E esses números levam em consideração apenas os investimentos em usinas, sem contar todo o investimento indireto que precisará ser feito em logística, no campo e nas indústrias que fornecem produtos para usinas.

Os empresários não estão exatamente sentados à espera da boa vontade governamental para começar os investimentos. Consultando as autorizações emitidas na ANP, é possível constatar que há nove usinas novas sendo construídas no país e dez em processo de ampliação. Quando estiverem prontas, essas obras devem acrescentar 1,64 bilhão de litros à capacidade produtiva. Além disso, a assessoria de imprensa da agência revela que existem 18 projetos novos na fila por uma autorização de construção, e 11 usinas esperam um aval para ampliar sua capacidade. Ou seja, o setor continua a todo vapor e ostenta novatas de luxo como Bunge, Cargill e Noble (Veja box na página ao lado).

Olivério diz que o entusiasmo do empresariado nacional não arrefeceu e que a Dedini tem vários projetos engatilhados. “São 5 a 8 oportunidades de negócios bem trabalhadas e que vão acontecer assim que o investidor sentir que o marco está mais perto”, anima- -se. Um número representativo dessas novas unidades são de última geração, com tecnologias que facilitam a operação com diferentes matérias-primas. “Isso permite aproveitar oportunidades sazonais”, completa o executivo.

Enquanto os aumentos na mistura vão sendo costurados pelos bastidores, os produtores tentam encontrar outros caminhos para turbinar as vendas. O B20 metropolitano é uma dessas alternativas. “Há uma situação muito propícia que é o B20 metropolitano, porque ele tem a simpatia de governos estaduais e já há empresas fazendo”, diz Odacir Klein, da Ubrabio. Nas contas da entidade, a mistura de 20% de biodiesel no diesel S50 – diesel com baixo teor de enxofre vendido nas grandes cidades – bastaria para criar um mercado adicional superior a 600 milhões de litros.

Seja qual for o caminho, o mercado vai crescer. E não vai ser pouco.