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Laboratórios: Qualidade Garantida


Edição de Abr / Mai de 2011 - 07 jun 2011 - 13:19 - Última atualização em: 19 jan 2012 - 10:33
Análise do biodiesel envolve testes caros e complexos, como o do número de cetano

Ari Silveira, de Curitiba


A preocupação com a qualidade é um dos pilares da credibilidade do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB). Todo o biodiesel destinado à comercialização em território nacional precisa atender às especificações estabelecidas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O produto só recebe a certificação de qualidade se for aprovado em análises feitas por laboratórios cadastrados e certificados. Em todo o Brasil, 39 instituições estão credenciadas pela ANP para testar a qualidade do biodiesel produzido e comercializado no país. Alguns desses laboratórios pertencem a usinas, mas ainda há ensaios que só podem ser feitos em instituições independentes, seja do setor público ou da iniciativa privada.

De todos os testes, o de maior custo é o do número de cetano, principal indicador da eficiência do combustível em motores de ciclo Diesel, da mesma forma que a octanagem aponta os melhores combustíveis para os motores de ciclo Otto. Dos laboratórios cadastrados, somente dois oferecem o ensaio do número de cetano: a ASG do Brasil, no Rio, e o Laboratório de Análise de Combustíveis Automotivos (Lacaut), da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba. “Além do alto custo dos equipamentos, existe a dificuldade de encontrar pessoal experiente, especializado, com know-how”, afirma o diretor da ASG, Roberto Exel. “Os tempos e os manuais precisam ser observados rigidamente.”

Até 2006, o instrumento usado para medir o número de cetano era o motor CFR, um equipamento que na época custava cerca de US$ 500 mil. O custo operacional da máquina também era alto. Os testes eram complexos, demorados e caros, exigindo uma cuidadosa calibragem da máquina. Um ensaio de número de cetano em motor CFR não sai por menos de R$ 1.500, podendo consumir até 12 horas de trabalho.

A partir de 2007, a popularização de um equipamento canadense chamado Ignition Quality Tester (IQT) revolucionou o mercado. Com uma câmara de combustão de volume constante que simula as condições de alta pressão e temperatura de um motor, o novo instrumento fornece resultados precisos em apenas 20 minutos. O IQT custa apenas US$ 150 mil. Tem baixo custo de manutenção e precisa de uma amostra pequena de combustível, de menos de 100 ml, para chegar a resultados confiáveis. O custo do ensaio no equipamento é de apenas R$ 450. Com a concorrência do IQT, o preço do motor CFR despencou para a metade.

O biodiesel puro (B100) costuma apresentar uma média do número de cetano em torno de 60, maior que o do diesel fóssil, que normalmente oscila entre 48 e 52. De acordo com a engenheira química Tatiana Bittencourt de Souza, gerente técnica do Lacaut, o número varia conforme a matriz utilizada: 49 para a soja, 50 para a mamona, 55 para o nabo forrageiro e o óleo de fritura, 62 para a gordura animal, 65 para a palma e 76 para o babaçu.

A ANP é a principal cliente do laboratório da UFPR, que também recebe para análise amostras enviadas por particulares, embora em menor escala, pois muitos testes de alta complexidade já estão disponíveis nos laboratórios das usinas. “As análises de cromatografia, para a determinação de teor de éster, glicerol livre e total, monoglicerídeos, diglicerídeos e triglicerídeos, demandam tempo e custos elevados. Os ensaios de contaminação total, de estabilidade a oxidação e de cinzas sulfatadas podem demandar mais de um dia de análise”, diz Tatiana. Os exames de cromatografia podem custar de R$ 120 a R$ 400.

“O maior desafio em ter o credenciamento da ANP é mantê-lo, uma vez que este deve ser renovado anualmente”, analisa Tatiana. “Como o Lacaut tem a acreditação da ISO 17025, este credenciamento não tem apresentado dificuldades.” Por já estar adequado à norma, o laboratório está em conformidade com as exigências da agência para 2013.

De acordo com a gerente técnica do Lacaut, após a obtenção da acreditação, os custos são altos porque as calibrações são frequentes, os materiais de referência certificados geralmente são importados e o pessoal técnico tem que estar sempre em treinamento. “Deve-se manter sempre atualizados os registros da qualidade, o trabalho é diário para a manutenção do sistema”, ressalta.

A parceria do laboratório com a ANP rendeu bons frutos. Ao longo de dez anos de participação do Lacaut no Programa Nacional de Monitoramento da Qualidade dos Combustíveis (PMQC), o índice de não conformidade dos combustíveis foi reduzido de 20% para os atuais 2%. O trabalho também contribuiu para que o ensaio do número de cetano no IQT fizesse parte das especificações do diesel e do biodiesel, revisadas respectivamente em 2008 e 2010.

No caso do biodiesel, os exames do Lacaut raramente têm apontado algum problema com o combustível. “As amostras em geral estão dentro das especificações da ANP”, garante Tatiana. Na ASG, Exel diz considerar surpreendente a qualidade do biodiesel analisado. “A média das amostras não é ruim”, avalia a engenheira. “Há exceções, que apresentam impurezas ou água, o que muda o perfil do produto. Mas há algumas que nem é preciso abrir para fazer análise, só ao olhar o técnico já vê que é inviável.”