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Álcool: Mercado em crescimento


Edição de Abr / Mai de 2011 - 31 mai 2011 - 14:56 - Última atualização em: 19 jan 2012 - 10:26

Mercado em crescimento

É difícil saber a quantidade exata que a indústria de biodiesel anda consumindo desse material porque a relação exata entre álcool e óleo pode variar bastante em função de uma porção de fatores, como eficiência dos processos industriais, tipo de óleo, maquinário empregado etc. Mas se tudo estiver funcionando como deveria, o gasto de metanol equivale a em torno de 12% do volume produzido de biodiesel.

Isso quer dizer que para fabricar os 2,4 bilhões de litros de biodiesel que a ANP contabilizou no ano passado foram necessários pelo menos 288 milhões de litros de metanol. Como a densidade desse álcool é de 0,79 g/mL, foram usadas 227,5 mil toneladas apenas para fazer biodiesel no ano passado. Sozinho, o setor consumiu mais do que toda a produção brasileira da substância, estimada em 206 mil toneladas pela Abiquim.

Segundo o diretor comercial da GPC Química, Sérgio Melchert, mesmo sendo o maior consumidor da América Latina, o mercado brasileiro ainda é relativamente modesto frente a uma demanda global que supera 40 milhões de toneladas anuais. Mas as perspectivas são boas, graças às projeções de crescimento no segmento de biodiesel e de outros mercados consumidores para os próximos anos. As 770 mil toneladas consumidas pelo Brasil em 2010 já representam um salto de 35% em relação às 567 mil toneladas comercializadas no ano anterior, e de 45% sobre os níveis médios de consumo registrados entre 2000 e 2009. “Há uma expectativa de que o mercado brasileiro supere 1 milhão de toneladas em 2015”, anima-se o executivo da maior fabricante brasileira de metanol.

Embora o crescimento do mercado seja relevante para os fabricantes brasileiros, a importância da demanda criada pelo biodiesel é apenas relativa. Como o mercado de biodiesel é novo e os produtores brasileiros de metanol são antigos, a maior parte do metanol brasileiro tem outro destino. Na GPC, 60% do metanol é usado na fabricação de formol para outras empresas do grupo e o restante, segundo Melchert, é vendido para “indústrias químicas e de solventes, produção de formol, resinas, defensivos agrícolas, celulose, biodiesel e para entidades de pesquisa”. Já para a Copenor, a indústria de biodiesel representa metade dos negócios no segmento de metanol, enquanto os outros 50%, nas palavras de João Bezerra, “são usados internamente como matéria- prima para outros produtos”.

É Bezerra quem conta que a indústria brasileira precisa equacionar uma dificuldade nada trivial se quiser ampliar sua capacidade de produção para aproveitar melhor uma nova oportunidade de negócio: o gás natural a preços competitivos. “Ampliar a capacidade produtiva é um pensamento permanente, mas a questão chave é o preço da matéria-prima. Nossos concorrentes estão instalados no Chile e na Venezuela, que são países onde o gás não tem mercado e por isso acaba sendo muito barato”, informa o executivo.


Importação

Na falta de produção nacional, há gente graúda de olho nesta janela de oportunidade. A Methanex é o principal produtor e comercializador de metanol do mundo e segundo seu vice-presidente de marketing e logística para a América Latina, Juan Enrique González, o mercado brasileiro tem grande potencial. Methanex é o principal produtor e comercializador de metanol do mundo. Além de ações de relacionamento com seus clientes, ela também vem investindo em capacidade logística, especialmente na ampliação da capacidade de armazenamento nos terminais brasileiros e na logística do transporte marítimo de seus produtos. “Nós podemos atender de maneira segura as necessidades de nossos clientes a partir de qualquer de nossas unidades produtoras em nível global”, completa González.

A disposição de empresas estrangeiras em trazer o metanol para o Brasil acabou sendo uma ótima saída para o setor. Alguns produtores de biodiesel ainda lembram da dificuldade que era conseguir metanol e um bom atendimento dos fabricantes nacionais no começo do programa. O suprimento internacional só deve passar a ter menos importância em dezembro de 2015, quando a Petrobras deverá inaugurar o Complexo Gás-Químico de Linhares. Com capacidade prevista para fabricar até 790 mil toneladas de metanol por ano, Linhares deixará o Brasil à beira da autossuficiência.


Metanol renovável

Enquanto isso, há um bom bocado de gente trabalhando para viabilizar o metanol renovável, contudo ainda deve levar um bom tempo antes dos primeiros resultados importantes chegarem ao mercado. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) do Estado de São Paulo está iniciando a construção de uma planta experimental de gaseificação de bagaço de cana. O projeto custará R$ 80 milhões ao longo de cinco anos.

De acordo com o diretor de inovação do IPT, Fernando Landgraf, a gaseificação é um processo de queima em condições controladas que transforma a biomassa no chamado gás de síntese, que pode então ser convertido em energia, biocombustíveis e biomateriais – incluindo o metanol. Segundo o pesquisador, o processo pesquisado é um dos fundamentos de uma química verde que, no limite, tem a capacidade de substituir uma parte considerável da petroquímica convencional. Mas, antes de qualquer coisa, é preciso determinar se os investimentos na área vão mesmo valer a pena. “Não estamos nem perto de conseguir responder se a produção a partir da gaseificação de biomassa será economicamente viável. A proposta desse projeto é justamente avaliar a viabilidade financeira desse tipo de operação”, resume.

A Copenor também tem pesquisado métodos de produção de metanol renovável. O que torna o esforço particularmente interessante é o fato de a companhia estar partindo de um dos subprodutos da fabricação do biodiesel: a glicerina. “O interessante deste processo é que ele gera um ciclo virtuoso: você faz biodiesel com metanol e faz metanol com o subproduto do biodiesel. Do ponto de vista atual, esse ainda é um processo caro, mas ele tem tantas vantagens ambientais que vale a pena continuar investindo nele”, assegura Bezerra.