Eu costumo diversificar os temas que abordo aqui na minha coluna, não só para não me tornar repetitivo, mas principalmente para tentar discutir um maior leque de assuntos. Há duas edições, escrevi sobre uma série de problemas associados à produção em larga escala de biodiesel a partir de microalgas, e não pensava em voltar a este assunto tão cedo. No entanto, dois fatos me fazem voltar às microalgas.
Em primeiro lugar, acredito que fui bastante mal interpretado, pois recebi alguns e-mails reclamando do teor da minha coluna. Em segundo lugar, uma notícia veiculada em BiodieselBR. com, sobre o fato de a Shell ter abandonado seu programa de desenvolvimento de tecnologia para biodiesel de microalgas.
Primeiramente, gostaria de deixar clara a minha posição a respeito das microalgas como fonte oleaginosa para a produção de biodiesel. Não há dúvida que as algas são a única fonte oleaginosa potencial para que o mundo possa embarcar num programa sustentável de biocombustível, seja biodiesel, etanol, BTL (hidrocarbonetos pelo processo de Fischer-Tropsh, etc). Esta afirmação é facilmente justificada pelo fato de as microalgas apresentarem uma enorme produtividade de biomassa (celulose e outros sacarídeos e óleos) por área, e ainda pela possibilidade de produção em regiões áridas e não aproveitáveis para agricultura. No entanto, acredito que ainda estamos muito longe de conseguir processos viáveis e competitivos para a produção de óleos como matéria- prima para biodiesel.
Nos Estados Unidos, principalmente na Califórnia, uma visita rápida a um supermercado nos permite observar que já se tem disponível uma miríade de produtos que utilizam microalgas na sua composição. Comercialmente, hoje é fácil encontrar diversos alimentos, sucos ou suplementos alimentares feitos com microalgas ou misturas de microalgas com frutas, legumes ou verduras. Ou seja, já existe nos Estados Unidos uma indústria jovem, porém estabelecida, para a produção comercial de microalgas. De fato, estados como Havaí, Califórnia ou Colorado já produzem industrialmente microalgas em larga escala usando diversos tipos de biorreator. No entanto, assim como a Shell abandonou seus projetos com microalgas, não há nenhuma empresa que tenha conseguido passar da escala piloto para a escala industrial na utilização desta fonte.
Mas qual a razão para o sucesso das microalgas na indústria de alimentos e os diversos fracassos na indústria de biocombustíveis? A resposta a essa pergunta é bastante simples: viabilidade econômica. No caso da indústria de alimentos e suplementos alimentares, tem-se um alto valor agregado aos produtos comercializados associado a uma simplicidade no processo, pois as algas são utilizadas in natura ou desidratadas. Por exemplo, um suco de microalgas numa embalagem de 250 mL pode ser encontrado na gôndola com preços superiores a US$ 5. Cápsulas com pequenas quantidades de espirulina ou outra alga desidratada têm valores bem maiores do que isso. Em contraste, para ser usado na indústria do biodiesel o óleo de microalgas deve ser extraído e purificado (neutralização e secagem), para então passar pelo processo de transesterificação. O biodiesel, após purificação e possível adição de aditivos para atender aos parâmetros de qualidade exigidos, tem hoje um valor de mercado de no máximo R$ 2,50 o litro.
O Brasil aprendeu com o álcool que durante o amadurecimento de uma indústria, a otimização de processos pode diminuir drasticamente os custos de produção e viabilizá-lo economicamente. Praticamente em duas décadas, a indústria do etanol passou de uma situação de inviabilidade econômica, que dependeu de subsídios para sobreviver, para uma situação confortável de rentabilidade.
Pelo fato de a Shell e outras grandes companhias terem abandonado seus projetos de microalgas, é possível suspeitar que tenham concluído que, mesmo em um país onde já existe uma indústria estabelecida de microalgas, o atual desenvolvimento tecnológico ainda está longe de permitir viabilizar o seu uso na indústria de biodiesel. A conclusão simples é que ainda precisamos de muitos breakthroughs até que o potencial das algas se transforme numa realidade na indústria de combustíveis.
Acredito que no Brasil deveríamos incentivar o início de uma produção industrial de algas para uso alimentício e financiar pesquisas para aumentar o conhecimento científico e tecnológico na área. Ou seja, devemos ter a clareza de que o potencial de uso das microalgas ainda pode estar longe de chegar ao mercado de combustíveis e que isto irá exigir um grande esforço de cientistas e técnicos, além, é claro, de um contínuo e efetivo financiamento dessas pesquisas para desenvolvermos uma tecnologia nacional competitiva e viável.
Paulo Suarez é professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ-UnB) e foi vencedor do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia em 2005.
Em primeiro lugar, acredito que fui bastante mal interpretado, pois recebi alguns e-mails reclamando do teor da minha coluna. Em segundo lugar, uma notícia veiculada em BiodieselBR. com, sobre o fato de a Shell ter abandonado seu programa de desenvolvimento de tecnologia para biodiesel de microalgas.
Primeiramente, gostaria de deixar clara a minha posição a respeito das microalgas como fonte oleaginosa para a produção de biodiesel. Não há dúvida que as algas são a única fonte oleaginosa potencial para que o mundo possa embarcar num programa sustentável de biocombustível, seja biodiesel, etanol, BTL (hidrocarbonetos pelo processo de Fischer-Tropsh, etc). Esta afirmação é facilmente justificada pelo fato de as microalgas apresentarem uma enorme produtividade de biomassa (celulose e outros sacarídeos e óleos) por área, e ainda pela possibilidade de produção em regiões áridas e não aproveitáveis para agricultura. No entanto, acredito que ainda estamos muito longe de conseguir processos viáveis e competitivos para a produção de óleos como matéria- prima para biodiesel.
Nos Estados Unidos, principalmente na Califórnia, uma visita rápida a um supermercado nos permite observar que já se tem disponível uma miríade de produtos que utilizam microalgas na sua composição. Comercialmente, hoje é fácil encontrar diversos alimentos, sucos ou suplementos alimentares feitos com microalgas ou misturas de microalgas com frutas, legumes ou verduras. Ou seja, já existe nos Estados Unidos uma indústria jovem, porém estabelecida, para a produção comercial de microalgas. De fato, estados como Havaí, Califórnia ou Colorado já produzem industrialmente microalgas em larga escala usando diversos tipos de biorreator. No entanto, assim como a Shell abandonou seus projetos com microalgas, não há nenhuma empresa que tenha conseguido passar da escala piloto para a escala industrial na utilização desta fonte.
Mas qual a razão para o sucesso das microalgas na indústria de alimentos e os diversos fracassos na indústria de biocombustíveis? A resposta a essa pergunta é bastante simples: viabilidade econômica. No caso da indústria de alimentos e suplementos alimentares, tem-se um alto valor agregado aos produtos comercializados associado a uma simplicidade no processo, pois as algas são utilizadas in natura ou desidratadas. Por exemplo, um suco de microalgas numa embalagem de 250 mL pode ser encontrado na gôndola com preços superiores a US$ 5. Cápsulas com pequenas quantidades de espirulina ou outra alga desidratada têm valores bem maiores do que isso. Em contraste, para ser usado na indústria do biodiesel o óleo de microalgas deve ser extraído e purificado (neutralização e secagem), para então passar pelo processo de transesterificação. O biodiesel, após purificação e possível adição de aditivos para atender aos parâmetros de qualidade exigidos, tem hoje um valor de mercado de no máximo R$ 2,50 o litro.
O Brasil aprendeu com o álcool que durante o amadurecimento de uma indústria, a otimização de processos pode diminuir drasticamente os custos de produção e viabilizá-lo economicamente. Praticamente em duas décadas, a indústria do etanol passou de uma situação de inviabilidade econômica, que dependeu de subsídios para sobreviver, para uma situação confortável de rentabilidade.
Pelo fato de a Shell e outras grandes companhias terem abandonado seus projetos de microalgas, é possível suspeitar que tenham concluído que, mesmo em um país onde já existe uma indústria estabelecida de microalgas, o atual desenvolvimento tecnológico ainda está longe de permitir viabilizar o seu uso na indústria de biodiesel. A conclusão simples é que ainda precisamos de muitos breakthroughs até que o potencial das algas se transforme numa realidade na indústria de combustíveis.
Acredito que no Brasil deveríamos incentivar o início de uma produção industrial de algas para uso alimentício e financiar pesquisas para aumentar o conhecimento científico e tecnológico na área. Ou seja, devemos ter a clareza de que o potencial de uso das microalgas ainda pode estar longe de chegar ao mercado de combustíveis e que isto irá exigir um grande esforço de cientistas e técnicos, além, é claro, de um contínuo e efetivo financiamento dessas pesquisas para desenvolvermos uma tecnologia nacional competitiva e viável.
Paulo Suarez é professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ-UnB) e foi vencedor do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia em 2005.