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Logística: Os passeios do biodiesel


Edição de Out / Nov de 2010 - 15 out 2010 - 07:37 - Última atualização em: 19 jan 2012 - 11:41
Produção das usinas viajou grandes distâncias pelo Brasil através de uma logística atrapalhada em 2008. A situação melhorou em 2009 e 2010, mas o percurso pelas estradas nacionais ainda pode durar mais de uma semana e custar caro para o bolso do consumidor

Núria Saldanha, de São Paulo


Mais de 3 mil quilômetros separam o Estado do Rio Grande do Sul da cidade de Candeias, na Bahia. Esta foi a distância percorrida no ano passado por 6,15 milhões de litros de biodiesel produzidos em solo gaúcho, destinados ao abastecimento da região metropolitana de Salvador. Uma viagem longa a bordo de caminhões-tanques bitrens por meio de estradas muitas vezes sucateadas.

Dados divulgados recentemente pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) desenham o mapa do transporte de biodiesel no Brasil e retratam o tamanho do desafio logístico do setor. De acordo com o levantamento do órgão, as origens mais freqüentes do biodiesel são Rio Grande do Sul e Mato Grosso, os dois principais Estados produtores, que concentram a maioria das usinas brasileiras. O maior importador do combustível é o Estado de São Paulo, o mais populoso da federação e onde está localizado o maior pólo industrial do país. E é entre esses três Estados que se concentra o maior fluxo de transporte de biodiesel no Brasil.

No mesmo relatório divulgado pela ANP são evidenciadas diversas distorções, como a da cidade baiana de Candeias, que recebeu biodiesel gaúcho em 2009. Isso não seria problema se o Estado não tivesse exportado 29 milhões de litros. A cidade possui uma usina da Petrobras Biocombustível, que produziu naquele ano 39 milhões de litros de biodiesel.

Segundo Neuto Gonçalves dos Reis, coordenador técnico da NTC Logística, um bitrem tem velocidade comercial média de cerca de 60 km/h, já computadas paradas para refeições, abastecimento e outras necessidades. Considerando que o veículo tenha um só motorista empregado, e que roda no máximo dez horas por dia (o limite legal da CLT), ele vai percorrer 600 quilômetros em um dia. Portanto, fará os 3 mil quilômetros do Rio Grande do Sul à Bahia em cinco dias. Isso sem contar o tempo de coleta do produto e o do retorno do veículo.

Matheus Andrich, diretor industrial da usina Olfar, localizada em Erechim (RS), acredita que metade dos 13,5 milhões de litros de biodiesel produzidos mensalmente pela empresa vai para outros Estados. Apesar de saber que o produto que fabrica pode estar atravessando o Brasil, Andrich diz que o processo logístico não chega a interferir no negócio da usina. “Não tem problema, a gente vende no leilão e os compradores vêm aqui retirar”.

A Olfar é uma usina nova no mercado, comercializa biodiesel há pouco mais de três meses. Assim como ela, novos pontos de produção vêm surgindo gradativamente no país, mas a indústria de biodiesel ainda está muito concentrada nas regiões Centro-Oeste e Sul. E para atender a mistura obrigatória de 5% de biodiesel no diesel, o produto precisa ser deslocado às bases distribuidoras espalhadas pelo país. “O maior problema são as grandes distâncias percorridas. A região Sudeste precisa buscar o produto no Centro-Oeste, com tempo de entrega que pode chegar a até cinco dias em alguns casos”, ressalta Eduardo Dominguez, diretor de operações interino da distribuidora ALE Combustíveis.

O diesel corresponde à metade dos produtos comercializados mensalmente pela ALE, e o biodiesel representa aproximadamente 2,5% do negócio. A empresa coleta o biodiesel nas unidades produtoras e transporta o produto até suas bases e terminais, onde é misturado com o diesel para ser comercializado – tudo realizado por modal rodoviário. “Quando juntamos esses fatores com as longas distâncias, temos um custo maior, que acaba sendo repassado para o preço final ao consumidor”, diz Dominguez. Ele acrescenta ainda que se o percentual da mistura obrigatória aumentar, os custos de logística do biodiesel também serão maiores. “Todo aumento na mistura do percentual de B100 no diesel representa um aumento na quantidade de coletas, reduzindo a oferta de transportadores”.

A distância média percorrida pelo biodiesel entre as associadas do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom) é de 1.403 km. Segundo o diretor de abastecimento e regulação do sindicato, Fábio Marcondes, o tempo médio desde a coleta na usina até a entrega nas bases primárias é de quatro dias e meio. “Temos um país de dimensão continental, então a logística de entrega, independentemente de ser biocombustível ou combustível, é desafiadora. O biodiesel já é mais caro que o diesel, e essa logística para viabilizar o B5 tem impacto no preço, principalmente por usar modal rodoviário”, diz o diretor.
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