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André Pompeo e Ricardo da Costa: futuro do biodiesel


Edição de Ago / Set de 2010 - 15 ago 2010 - 13:55 - Última atualização em: 19 jan 2012 - 12:16
Revista BiodieselBR Vocês apontaram a exportação como grande impulso à produção, com a especificação européia como uma barreira técnica. Mas mesmo sem essa barreira, o biodiesel brasileiro não é competitivo internacionalmente. Seria necessário subsídio para exportação?
André Pompeo
Mendes Um subsídio só mascararia uma baixa competitividade, e no longo prazo seria insustentável. O setor deve buscar ser intrinsecamente competitivo tanto no mercado nacional quanto no mercado externo de combustíveis. Uma das grandes frustrações do setor atualmente é a impossibilidade ou dificuldade de exportar o biodiesel nacional para os grandes consumidores internacionais – Europa principalmente. Essa frustração cria o desafio para o Brasil de insistir na discussão, em sua agenda externa, do fim dos subsídios realizados pelos países europeus, sem os quais a produção de biodiesel nesses países não se viabilizaria. Outra forma de tentar exportar o biodiesel sem incorrer nos problemas de logística e de infra-estrutura de distribuição, seria não exportar o biodiesel puro (B100), mas tentar exportar para alguns países o B5, por exemplo, quando o Brasil se tornar exportador de diesel após a conclusão das novas refinarias da Petrobras no Nordeste, o que provavelmente ocorrerá dentro de alguns anos. Vale destacar que qualquer país que possua matéria-prima em abundância ou que tenha facilidade de importação de óleo vegetal a um custo competitivo poderá se tornar um país produtor de biodiesel, uma vez que a usina de biodiesel não é intensiva em capital. Portanto, mesmo que o biodiesel se torne uma commodity internacional, alguns países poderão adotar a estratégia de importar o óleo vegetal em vez do biodiesel. Esse seria mais um desafio a ser superado.

Até que ponto um segmento industrial pode se sustentar ocupando menos da metade de sua capacidade?
Ricardo da Costa
Esse é um ponto de preocupação. No ano de 2009, o fator de utilização médio do setor foi de cerca de 34%, porém algumas empresas operaram com fator acima de 65%. Devido a esse fator de utilização baixo, algumas passaram por dificuldades, outras não, por serem empresas integradas que atuam no agronegócio de uma forma ampla, sendo o biodiesel apenas um negócio complementar ao seu negócio principal. Para o ano de 2010, após a introdução do B5, espera-se que o fator de utilização médio do setor vá para 51%. Mesmo assim, é um fator baixo.

Além desta questão do preço do biodiesel, o que impede novos aumentos no uso deste biocombustível, como o B20 metropolitano?
André Pompeo
Primeiro os fabricantes de motores a diesel teriam de se pronunciar sobre se uma nova mistura comprometeria a performance e a vida útil dos motores a diesel e componentes. Novos percentuais de mistura precisariam ser testados, e levaria tempo para saber se haveria a necessidade de modificar ou não alguns componentes dos motores atuais, lembrando que a idade média de nossa frota de caminhões é elevada e que há muitos motores antigos em utilização, especialmente dos caminhoneiros autônomos. Ao aumentar a mistura, o custo do diesel se elevaria para os consumidores e, por conseqüência, cresce o custo de produção de diversos produtos nacionais, uma vez que o principal modal de transporte brasileiro é o rodoviário. Por fim, a produção de biodiesel compete com a produção de alimentos, podendo fazer com que os preços de alguns alimentos aumentem devido à menor oferta para esse propósito ou ao maior custo da terra e de logística. Dessa forma, esse aumento impactaria no custo da cesta básica e no custo de frete rodoviário, o que por conseqüência aumentaria a taxa de inflação nacional e por fim levaria a um aumento da taxa de juros por entrevista André Pompeo e Ricardo da Costa parte da autoridade monetária, a fim de combater um possível aumento de inflação. Um aumento demasiado na mistura do diesel comercializado afetaria a economia nacional como um todo. Por isso, uma decisão dessas precisa estar muito bem estruturada e coordenada com os diversos atores envolvidos no processo.

O dendê é apontado como a única matéria-prima que poderia diminuir a hegemonia da soja na produção de biodiesel. Quais são os obstáculos para a utilização dessa matéria-prima?
Ricardo da Costa
Não restam dúvidas de que os produtores da cadeia produtiva da soja exerceram papel fundamental para o êxito do programa. O setor já produzia em escala, estava consolidado, apresentava alta performance e era competitivo no mercado internacional. Apesar dessas vantagens, a soja não deve permanecer dominante como a principal matéria- -prima de produção do biodiesel devido à baixa produtividade de óleo por área plantada. Já o dendê possui uma produtividade muito superior à da soja, entretanto a experiência do dendê na Malásia não foi muito boa, considerando o aumento do desmatamento. E essa é uma das preocupações aqui no Brasil. Partindo de que o produtor de dendê será ambientalmente responsável, ainda assim há alguns desafios em relação à capacitação técnica, o porte do produtor, a necessidade de elevado capital de giro, a escassez de infra-estrutura, e questões fundiárias e de logística, pois a região adequada para sua plantação é a região Norte, a qual é extremamente carente em infra-estrutura e logística.

Até que ponto esses problemas já conhecidos no Norte podem atrapalhar os investimentos em biodiesel de dendê já iniciados pela Vale e pela Petrobras na região?
André Pompeo
A Petrobras e a Vale são as duas maiores empresas do país. Portanto, elas têm condições técnicas e fôlego financeiro para superar essas dificuldades. É uma opção de longo prazo. Se ambas conseguirem superar essas dificuldades técnicas e econômicas com sucesso, elas poderiam se tornar as empresas produtoras de biodiesel de maior produtividade do país.