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Pesquisas com a glicerina


BiodieselBR.com - 05 jun 2010 - 09:40 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 10:35
Pesquisas
Há tanta produção de glicerina que os mercados tradicionais já não estão dando conta de absorvêla. Para dar conta desse desafio, é necessário inventar novos usos para o produto, e existem tantas idéias promissoras no horizonte que não faltam motivos para manter o otimismo. No 3º Congresso da Rede Brasileira de Tecnologia do Biodiesel (RBTB), realizado em novembro passado, foi possível visualizar a efervescência da comunidade científica em torno do tema: foram 135 trabalhos técnicos desenvolvidos somente em 2009.

Há quem aposte que a glicerina abundante esteja prestes a provocar uma pequena revolução em diversos segmentos da petroquímica. A Copenor, por exemplo, tem como carro-chefe o metanol produzido a partir de gás natural importado. Mas a empresa tem tido bastante dificuldade em se manter competitiva. Em meados de 2008, a companhia pagava US$ 10 por milhão de BTU (British Thermal Units) de gás natural, bem mais do que os US$ 2 que os seus concorrentes do Chile e da Venezuela desembolsavam. “Uma eventual inviabilização da produção nacional de metanol poderia deixar o mercado de biodiesel refém do suprimento internacional, o que é de todo indesejável”, diz João Bezerra, diretor-presidente da Copenor.

O executivo logo se encantou com as possibilidades da glicerina. “A molécula do glicerol possibilita a geração de três moléculas de metanol. Além disso, o aumento da oferta da glicerina loura tornou-a uma matéria-prima competitiva”, anima-se, sublinhando ainda que a troca do metanol fóssil por um produto derivado da glicerina tornaria o biodiesel brasileiro 100% verde.

E não pára por aí. Há pouquíssimo tempo, a petroquímica Quattor e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) anunciaram um processo capaz de transformar glicerina em propeno, substância cujo mercado mundial potencial está na casa dos 70 milhões de toneladas ao ano – 60% dos quais consumidos na forma de polipropileno, um dos plásticos mais largamente usados no planeta. Sozinha, essa aplicação poderia dar cabo de toda a glicerina extra que a indústria do biodiesel tem produzido. E há outros compostos típicos da indústria petroquímica que podem ser sintetizados através da glicerina (veja box).

Cláudio Mota, professor do Instituto de Química da UFRJ que participou ativamente do desenvolvimento laboratorial dessa novidade, alerta que ainda falta um bom tempo antes que o propeno de glicerina entre em produção. “Até o final do ano, a gente tem a esperança de ter uma planta piloto funcionando. Uma planta com capacidade industrial não deve sair antes de 2013”, avisa. Segundo ele, as empresas do mercado de plásticos, por seu tamanho, não conseguem dar agilidade a esse processo. “Isso depende de investimentos muito elevados, que não são para qualquer um. Para conseguir fazer seu projeto chegar à fase piloto você precisa atrair empresas de grande porte que tenham os recursos necessários”, avisa o pesquisador.

No lado positivo, contudo, o segmento de plásticos está entre os mais vorazes do mundo no que diz respeito à sua capacidade de produção. Fazer 100 mil toneladas ao ano de propeno – meta modesta, considerando que o Brasil fabrica 1,5 milhão de toneladas do material – poderia absorver até 200 mil toneladas de glicerina. “Seria o suficiente para absorver praticamente toda a glicerina do B5, com possibilidade até de precisarmos importar material da Argentina”, conclui Mota.

Além do trabalho com a Quattor, Claudio Mota também desenvolve pesquisas para o aproveitamento da glicerina como aditivo de combustíveis, aplicação que é muito mais simples do que a produção de plásticos. De acordo com o pesquisador, em alguns testes realizados com a adição à gasolina de 5% de um derivado de glicerina houve melhora na octanagem do combustível e no rendimento do motor. Mas o resultado mais importante foi a redução na quantidade de goma produzida – uma borra que se acumula nos bicos injetores e pode acabar danificando o motor. “Também temos estudado derivados de glicerina que funcionam como antioxidantes do biodiesel. Houve casos em que conseguimos subir o tempo de oxidação do biodiesel de seis para 18 horas”, garante.

Ainda estamos a anos-luz de qualquer coisa vagamente capaz de aposentar a velha petroquímica fóssil. Mesmo assim, não deixa de ser um alento descobrir que a desvalorizada glicerina de biodiesel pode ajudar o setor petroquímico a se tornar mais verde. “A substituição de matérias-primas não-renováveis por renováveis é uma demanda irreversível da sociedade, e eu acho que a glicerina é um elemento importantíssimo nesse processo”, diz Bezerra. A molécula do glicerol, ressalta, é muito simpática do ponto de vista químico. “Ela pode dar origem a diversos outros materiais mais complexos se você tiver a tecnologia certa”, anima-se, informando que a intenção é deixar a petroquímica para transformar a empresa em uma plataforma para a química verde.
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