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Glicerina: risco de afogamento


BiodieselBR.com - 05 jun 2010 - 09:40 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 10:33
Fábio Rodrigues, de São Paulo

Um problemão. Em seu formato resumido, é esse o significado da enxurrada de glicerina que a indústria de biodiesel continua despejando no mercado. E não importa o quanto os fabricantes possam torcer o nariz para o fato, a verdade é que mais ou menos 10% de todo biodiesel processado sai da usina na forma de glicerina. No ano passado, quando a indústria gravitou entre o B3 e o B4, essa fatura fechou em 160 milhões de litros, e se tudo correr bem com o B5, em 2010 teremos que dar conta de uns 230 milhões de litros de glicerina. É muita coisa.

O tamanho do desafio fica mais claro se levarmos em conta as dimensões modestas do mercado brasileiro para este produto. Segundo a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), em 2008 a capacidade instalada da indústria nativa do setor de glicerina estava na casa dos 41,5 milhões de litros para uma demanda que não passava dos 30 milhões de litros. Mesmo sem a intromissão inoportuna da indústria do biodiesel, o mercado nacional já estaria perfeitamente bem servido.

Entender como se montou a armadilha da glicerina não é complicado. Com a oferta do petróleo na corda bamba e o aquecimento global mostrando os dentes, o apoio à utilização de biocombustíveis – biodiesel incluído – tem crescido tanto que ninguém deu bola para os danos colaterais que essa nova indústria poderia provocar. Todo mundo sabia que um crescimento explosivo na indústria de biodiesel catapultaria a produção de glicerina a níveis que beiravam a irresponsabilidade e, embora os pesquisadores tenham se debruçado sobre o tema, a indústria não se preocupou em pensar no que fazer com a glicerina que entraria no mercado da noite para o dia.

“Minha impressão é que as empresas entraram no setor de biodiesel sem estudar opções de mercado para a glicerina, sem antecipar que o aumento na escala de produção levaria a um colapso nos preços”, lamenta o professor Luiz Pereira Ramos, do Departamento de Química da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Desvalorização
Desde o começo, já estava perfeitamente claro que a oferta adicional de glicerina tinha calibre o bastante para abater as cotações. Restava saber qual seria o tamanho da queda. Os preços da glicerina kosher (uma das mais valorizadas do mercado) têm despencado ao longo da última década – no último trimestre de 1999, uma tonelada do produto podia ser vendida acima de 1.700 euros. Já em setembro de 2009, ela não chegava a 400 euros.

Os preços pouco atraentes foram um banho de água fria nos planos dos industriais que esperavam engordar um pouco o faturamento vendendo glicerina. Os preços baixos têm levado vários fabricantes a estocarem grandes volumes da substância sem saber direito o que fazer. Na visão de Ramos, essa é uma opção inteiramente equivocada. “Além de você ter um passivo ambiental nas mãos, tem gente que acumula glicerina com teores elevados de metanol, criando também um problema de segurança”, alerta.

Não demorou quase nada para que diversos empresários do ramo começassem a olhar para a glicerina com uma dose de desrespeito, como se ela não passasse de um efluente industrial. O medo de muita gente é que, com os tanques abarrotados e sem ter como vendê-la a valores que compensem o esforço, alguns empresários comecem a se sentir tentados a se livrar da glicerina por meios nada ortodoxos. “Se não dermos um destino para esse excesso o mais rápido possível, corremos o risco de ter gente despejando glicerina nos rios. Como a glicerina é tóxica, se você jogar ela num rio – mesmo que em pequenas quantidades – você mata centenas de peixes”, preocupa-se o pesquisador Rogério Rodrigues, do Centro de Tecnologia Industrial (Cetind) do Senai.
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