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Mamona: Empecilhos e preços


BiodieselBR.com - 19 fev 2007 - 14:14 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 10:42
3) Empecilhos técnicos
Alguém poderia alegar, vendo que até agora as coisas não deram certo para a mamona, que tudo deve mudar em breve, que se trata apenas de uma questão de circunstância. Mas não parece ser esse o caso. Especialistas afirmam que, desde o começo, a mamona era o material errado para se colocar em uma usina de biodiesel. O problema maior está na viscosidade do óleo. “Segundo a argumentação da ANP, a mamona não atende os parâmetros técnicos suficientes para a produção de biodiesel”, afirma Sebastian Schlossarek, consultor de agronegócios do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura no Brasil. “Pelo alto grau de viscosidade, é indicado para aplicações mais nobres”, diz ele.

Ou seja: por um lado, o material é viscoso demais para fazer combustível; por outro, é viscoso o suficiente para ter um preço alto no mercado de cosméticos. Na verdade, não houve até agora quem conseguisse fazer um biodiesel 100% extraído da mamona atendendo a nova especificação da ANP.

A produção também não facilita as coisas. “Outro aspecto importante é que não se conseguiu incrementar a produção de mamona para atender toda a demanda atual. O próprio governo decidiu restringir, já na revisão do projeto em dezembro de 2004, a importância da mamona para o Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel”, conta Schlossarek.

Por fim, fazer biodiesel de mamona, para alguns técnicos, não parece nem mesmo uma idéia muito inteligente. “Fazer biodiesel de mamona é um desperdício, uma ignorância”, afirma o engenheiro mecânico e professor da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) Luiz Horta Nogueira. Segundo ele, um dos motivos para sua opinião radical é o balanço energético. “Na produção de biodiesel de mamona se consome praticamente a mesma quantidade de energia que se produz. Ou seja, troca-se seis por meia dúzia”, afirma.

Para o professor, a orientação do governo para que se fizesse biodiesel de mamona mostra como o programa brasileiro nasceu “torto”. “Realmente é muito difícil ver sentido no biodiesel de mamona. É apenas um reflexo claro de como o programa de biodiesel no Brasil foi implantado sem uma orientação técnica consistente, preocupado apenas com o lado social”, diz.

Mas é importante salientar que se o biodiesel da planta for misturado com o de outras matérias-primas, até o limite de 30%, pode-se atender a especificação da ANP. Esse limite pode variar de acordo com os outros óleos escolhidos para o mix. Mas apesar da dificuldade de produzir um biodiesel de qualidade com o óleo de mamona, a questão da especificação parece não ser um limitante para o biodiesel, uma vez que antes e depois da nova especificação da ANP o uso efetivo da mamona no biocombustível foi virtualmente zero.

4) O preço é inviável
Se tecnicamente o biodiesel de mamona não parece ser uma boa idéia, pior ainda é o aspecto econômico do negócio. Primeiro, é preciso lembrar que existe toda uma indústria, conhecida como ricinoquímica, baseada no óleo da mamona. E essa indústria paga caro pelo óleo que compra. “O óleo de mamona é um produto nobre, de alto valor, com um elevado teor de ácido ricinoléico, com boa estabilidade térmica e excelentes propriedades lubrificantes”, afirma o professor Horta, que já chegou a dizer que usar mamona para fazer biodiesel é como queimar pau-brasil como lenha.

Hoje o óleo de mamona está cotado no mercado interno a US$ 1.040 a tonelada, ao passo que o óleo de soja é vendido a US$ 858,91.

Com o incentivo à planta, a expectativa era que a área plantada e a oferta de mamona aumentassem com força, fazendo com que os preços chegassem a um patamar aceitável para as usinas. Mas com a falta de tecnologia de muitos agricultores, a produtividade se manteve baixa e a área plantada não cresceu, de forma que o óleo permanece mais caro que o próprio biodiesel.

Para complicar um pouco mais a questão, o aproveitamento dos subprodutos do esmagamento das sementes de mamona não é tão simples quanto na soja ou em outras oleaginosas. Se a torta e o farelo da soja, por exemplo, têm usos simples e altamente conhecidos, a torta da mamona, que representa 60% do que é extraído da planta, tem propriedades tóxicas e antinutricionais. Pode até ser usada na ração de animais, mas precisa passar por um processo de desintoxicação antes, o que novamente encarece o processo.

5) O certo pelo incerto
Dadas todas as circunstâncias, o uso da mamona poderia se justificar se ela fosse o único material de onde o Brasil pudesse extrair biodiesel. Mas a verdade está longe de ser essa: não só há matériasprimas totalmente consolidadas – como é o caso do sebo, da soja e do algodão –, como ainda existem várias opções que estão sendo estudadas e que têm tudo para se tornar viáveis: dendê, óleo de cozinha, macaúba, pinhão-manso e microalgas.

Para que a mamona se equiparasse a alguns desses materiais em competitividade, quem entende do assunto diz que seria necessário investir ainda mais dinheiro e tempo. “O governo precisaria desembolsar subsídios para estimular a utilização da mamona”, afirma Schlossarek.

Mesmo na área social, que era a que mais interessava ao governo federal quando ele começou a defesa da mamona como matéria- prima para biodiesel, a planta não é a única opção. A macaúba, o dendê e outras oleaginosas também podem dar renda a pequenos agricultores.