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Mercado sem os leilões: sobram incertezas


BiodieselBR.com - 19 fev 2007 - 13:28 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 10:45
Sobram incertezas
Há também segmentos importantes do mercado que ainda se preocupam com a sobrevivência do próprio setor na ausência dos leilões. Entre os produtores do Mato Grosso existe uma posição praticamente unânime em defesa da continuidade dos leilões. “A verdade é que não sabemos direito qual seria o impacto do fim dos leilões em nossos negócios, por isso eu não acho que essa seja a hora certa de jogar todo mundo no fogo para descobrir quem consegue sobreviver ou não. Essa hora virá, cedo ou tarde, mas se o impacto for muito ruim podemos acabar inviabilizando usinas e arriscando o abastecimento”, resume Rodrigo Guerra Prosdócimo, sócio da Bio Óleo Biocombustível, usina de pequeno porte localizada nas redondezas de Cuiabá.

Considerando que o Mato Grosso é o Estado que tem o maior número de usinas de biodiesel do país (são 27 fábricas instaladas e 1,17 bilhões de litros ao ano de capacidade produtiva), seria no mínimo prudente ter certeza de que elas continuarão economicamente viáveis antes de se tomar qualquer decisão mais séria que possa modificar de vez o balanço do setor. O problema é que, enquanto não aparecerem novas matérias-primas para aposentar o ineficiente óleo de soja, a palavra de ordem capaz de dividir vencedores e perdedores em um mercado aberto é “logística”. Quem tiver melhores condições de frete sai alguns passos na dianteira na corrida pelo mercado. Acontece que essa não é uma das vantagens mais notórias do Mato Grosso.

“O preço do frete pode variar bastante em função da localização de cada usina em relação às bases das distribuidoras. O custo de trazer um metro cúbico de B100 de uma usina do Rio Grande do Sul ou do Centro-Oeste aqui para a Grande São Paulo varia entre R$ 130 e R$ 140”, calcula o diretor comercial da Bioverde, Alexandre Pereira da Silva. À primeira vista, 13 ou 14 centavos por litro podem não parecer tanta coisa, mas no mercado hipercompetitivo de combustíveis faz um mundo de diferença. A Bioverde é capaz de fazer seu biodiesel sair de Taubaté e chegar até o pólo distribuidor de Guarulhos por mais ou menos R$ 35, uma diferença gritante. “Sem leilões, a Bioverde poderia vender sua produção diretamente para as distribuidoras e receber por esse diferencial”, completa.

Descobrir como o fim dos leilões afetaria as usinas localizadas em Mato Grosso é uma das missões do Sindicato dos Produtores de Biodiesel do Mato Grosso (Sindibio), primeiro sindicado patronal do setor. “Estamos fazendo um levantamento das vantagens e desvantagens de se fabricar biodiesel aqui no Estado”, informa Prosdócimo, da Bio Óleo, que ocupa a cadeira de primeiro secretário da entidade.

Claro que fazer o biodiesel chegar aos tanques dos consumidores finais é só o elo final de uma corrente bem mais longa. Estar perto das áreas fornecedoras de matéria- prima pode compensar, com vantagem, a distância dos grandes mercados consumidores, mas esse é um cálculo que ainda precisa ser feito em todos os detalhes. “Pode até ser que a usina seja beneficiada no mercado sem leilões”, diz.

Para tornar a resposta um pouco mais difícil, além de resolver a já complicada questão logística, os produtores ainda teriam que encontrar seu caminho através do complicado cipoal de tributos federais e estaduais a serem pagos no mercado livre: no sistema de leilões, as complicações relativas à tributação só começam a ser sentidas quando o biodiesel é repassado pela Petrobras para as distribuidoras. “As usinas de biodiesel não são substitutas tributárias até o consumidor final, então é possível que se reproduzam as distorções tributárias do mercado de etanol que geram as oscilações de preço ao consumidor final”, explica Abou-Rejaile, do Brasilcom.

A questão fiscal também preocupa a Bio Óleo. “Cada Estado tem suas políticas tributárias e seus mecanismos de incentivo fiscal. Esse é outro fator importante que não pode ser ignorado durante a discussão do modelo de comercialização”, resume Prosdócimo.

Com tantos pontos em aberto, o mais importante é não perder de vista os fundamentos. “Cada empresa precisa se estruturar para ser tão competitiva quanto conseguir, independente do sistema, porque, seja ele qual for, vai ser igual para todo mundo”, opina Martins, da Fertibom.

Ninguém realmente acredita que os leilões vão durar para sempre, mas por enquanto não há o menor indício de que eles estejam para acabar. Marco Antônio Almeida informa que o MME ainda não tem nenhum cronograma ou meta para o fim da comercialização de biodiesel por meio de leilões. “Ainda não percebemos que exista uma tendência clara sobre a questão da comercialização livre. A avaliação do comportamento e da maturidade do mercado é o que determinará as ações a serem adotadas”, encerra o secretário.