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Algas: Caminhos e desafios


BiodieselBR.com - 22 dez 2007 - 15:39 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 10:58
Caminhos e desafios
No mundo todo – inclusive no Brasil – as microalgas têm sido cultivadas como suplemento alimentar para homens e animais. A dificuldade, justamente, é viabilizá-las para a produção de biodiesel. Sabe- se que um dos maiores desafios a serem solucionados pelos pesquisadores é o desenvolvimento (ou aprimoramento) de sistemas de separação da biomassa em larga escala. Separar os microorganismos da água e depois extrair seu óleo tem sido uma tarefa de alto custo. Por isso, algumas empresas (incluindo a gigante do petróleo, Exxon Mobil) estão investindo na manipulação genética das microalgas para que estas possam secretar automaticamente o óleo. Algumas espécies até poderiam secretar hidrocarbonetos diretamente, eliminando toda a etapa de fabricação do biodiesel.

O professor Roberto Derner – um dos mais experientes pesquisadores de microalgas no Brasil, com 20 anos de trabalho na área – desembarcou em Natal com muita bagagem: mostrou tanto aos biólogos como engenheiros os imensos problemas que todos, juntos, ainda terão para resolver nos próximos anos.

“Estamos progredindo bem. Mas mesmo os projetos de grande escala que temos ainda estão longe de produzir o suficiente para que as microalgas se tornem comercialmente viáveis para a produção de biodiesel”, afirma ele, que foi o responsável pelo projeto anterior da Petrobras na UFSC. A pesquisa da estatal em parceria com os catarinenses começou devido ao interesse no seqüestro de carbono. De lá, rumou para os biocombustíveis.

Para Derner, ampliar a escala é um dos desafios, e a nova etapa de trabalho da Petrobras é um avanço nesse sentido. Baratear os custos da cultura de microalgas é o outro imenso gargalo que necessariamente terá de ser enfrentado. E aqui, segundo ele, a melhor saída são ainda os co-processos.

“Precisamos fazer com que o carbono, necessário à criação das algas, venha de alguma fábrica que produza dióxido de carbono em excesso. Baratearia o processo e eliminaria rejeitos altamente poluentes”, afirma. O mesmo pode ser feito com os nutrientes. “O próprio esgoto das cidades pode e deve ser usado para substituir nutrientes mais caros”, acrescenta.

Apesar dos problemas, que continuam basicamente os mesmos de alguns anos atrás, o evento em Natal mostrou que há muita gente trabalhando no mesmo sentido. E que os avanços, embora não permitam falar em combustível de microalgas para amanhã cedo, dão a entender que estamos indo no rumo certo. Qual caminho deve ser seguido para viabilizar as algas? As respostas parecem se restringir a apenas duas: mais pesquisas e mais integração entre os diferentes elos da cadeia.

Investimento é o desafio
Juliana Espada Lichston, pesquisadora da UFRN, é uma das responsáveis pelo projeto de cultivo de microalgas em Extremoz. E foi também ela quem presidiu o I Simpósio Brasileiro do Potencial Energético das Microalgas. Veja abaixo trechos da entrevista concedida à BiodieselBR:

Revista BiodieselBR Quais as principais novidades apresentadas no simpósio? Como as pesquisas vêm avançando no último ano?
Juliana Lichston
O simpósio foi o primeiro evento no Brasil para tratar exclusivamente de um assunto de grande evidência na pesquisa e no mercado mundial. Foram proporcionados espaços para discussões sobre mercado, viabilidade e pesquisas com biodiesel produzido a partir de microalgas. Além de renovação de conhecimentos, troca de experiências e posicionamento frente aos novos desafios que se apresentam. Foram evidenciadas as excelentes perspectivas do cultivo de microalgas no Brasil visando à produção de biodiesel e os grandes desafios desta cultura. No próximo ano, faremos um novo simpósio em Natal, por volta de agosto ou setembro.

O Nordeste é realmente o local de onde mais se pode esperar novidades nessa área?
Juliana Lichston
Sim, o Nordeste brasileiro, mais especificamente o Rio Grande do Norte, mostra-se como uma das regiões do planeta mais propensas ao cultivo de microalgas. Vários fatores contribuem para isso, principalmente a luminosidade e a temperatura, que são elevadas durante o ano todo. Devemos levar em consideração, ainda, a vasta extensão de áreas improdutivas e em processo de desertificação no SemiÁrido nordestino, região muito propensa para a implantação do cultivo de microalgas. Essa atividade certamente levará emprego e renda para a população local e diminuirá as desigualdades sociais. As microalgas possuem grandes vantagens para o meio ambiente, já que são responsáveis por mais de 50% da fotossíntese do planeta. Temos que aproveitar o potencial do Rio Grande do Norte para conseguir desenvolver esse projeto inédito, que trará grandes benefícios para a economia nacional e para o meio ambiente.

Quais as diferenças das pesquisas feitas no Brasil e em outros países?
Juliana Lichston
Uma das grandes deficiências da pesquisa brasileira sobre esse tema está no investimento financeiro. Sem dúvida, esse é um dos principais desafios enfrentados pelos pesquisadores: fazer pesquisa científica de qualidade com pouco investimento financeiro e estrutura física debilitada. Neste sentido, estamos em grande defasagem quando comparados com o exterior. Temos pesquisadores de excelência no nosso país e estamos confiantes de que esta situação mudará em breve. Temos visto uma maior preocupação e incentivo do governo federal na pesquisa com biocombustíveis, o que, sem dúvida, tem nos dado grande esperança e contribuído para o crescimento da pesquisa. A produção nacional de artigos com o tema geral “biodiesel” equipara-se à de países como França, Alemanha e Itália, mas o baixo número de patentes internacionais originadas em nosso país reflete a dificuldade de converter ciência em tecnologia, gerando uma dependência tecnológica dos outros países. Precisamos mudar esta situação. O investimento privado e governamental, aliado à capacidade científica dos pesquisadores brasileiros, certamente fará com que novos saltos sejam dados, inserindo o Brasil como uma das grandes potências mundiais no agronegócio dos biocombustíveis.