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Algas: pesquisa e integração


BiodieselBR.com - 24 fev 2010 - 14:33 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 10:58
O país tem boas notícias vindas das pesquisas com microalgas. A Petrobras está investindo em escala maior, o governo está interessado, as universidades estão trabalhando. E tudo isso pôde ser visto no primeiro grande encontro para debater o tema no Brasil

Rosiane Correia de Freitas, de Curitiba

As microalgas estão entre as mais promissoras opções para o fornecimento de energia no futuro. Que elas podem ser fundamentais para o desenvolvimento do biodiesel, todo mundo que trabalha na área sabe. No entanto, há diversos problemas a serem resolvidos antes que os motores recebam um combustível fabricado a partir desses microorganismos. Alguns deles são mais difíceis de resolver, outros só dependem de uma boa idéia, ou de uma boa interação.

O primeiro Simpósio Brasileiro do Potencial Energético das Microalgas, realizado no mês de outubro em Natal (RN), foi um exemplo típico de como resolver um desses problemas. Para se fazer biodiesel a partir de microalgas, por exemplo, é preciso envolver o pessoal da área de biologia, que não entende nada de engenharia de motores ou de tecnologia industrial. E é preciso também envolver os engenheiros químicos e mecânicos, que não sabem como fazer o cultivo das algas. Qual a solução? Juntar todos os lados numa sala e botá-los finalmente para conversar (não esquecendo também de reunir no mesmo ambiente os empresários e o governo – que são fundamentais para financiar tudo isso).

Pode parecer pouco, já que esse certamente é um dos problemas mais fáceis de resolver. Mas não é: no simpósio, muita coisa ficou clara para quem vem fazendo pesquisas nos dois lados. E as notícias, ao que tudo indica, são bastante boas.

A grande novidade no setor parece estar em um município vizinho de Natal. Extremoz é a sede do maior e mais importante projeto de biodiesel a partir de microalgas no Brasil. Trata-se da nova etapa da pesquisa realizada pela Petrobras. A diferença entre esse e os demais projetos feitos no Brasil atualmente é a escala. E, na pesquisa de microalgas, o tamanho definitivamente é importante.

A maior parte dos pesquisadores que tentam descobrir como tornar o biodiesel de algas viável ainda está trabalhando em laboratórios. Os recipientes usados para medir o crescimento da cultura e para ver a quais nutrientes as algas respondem melhor são de tamanhos variados, mas em geral são como grandes aquários: têm de 10 a 100 litros. No mundo das microalgas, esse tipo de ambiente controlado é chamado de fotobiorreator. É uma experiência válida, claro, mas tratase apenas do pontapé inicial.

A pesquisa da Petrobras em Extremoz vai mais longe. Agora as microalgas serão cultivadas em sistemas abertos, ou seja, tanques sem tanto controle e de grande capacidade. O centro de pesquisas da estatal, o Cenpes, não abre o jogo sobre o tamanho dos recipientes que usará. “Mas devemos multiplicar por dez o tamanho que usamos no Sul”, antecipa Leonardo Bacellar, coordenador do projeto.

A pesquisa do Sul a que ele se refere foi realizada em Santa Catarina, em parceria com duas grandes instituições de ensino, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Lá, a Petrobras trabalhou com culturas de 2,5 mil litros. Agora, no Rio Grande do Norte, deverá usar tanques (ou equivalentes) de pelo menos 20 mil litros. “A idéia é confirmar em uma escala maior os dados que já obtivemos”, afirma Bacellar. Mas ele próprio admite que para tornar a produção comercialmente viável ainda se está falando de uma escala bastante pequena. E a pesquisa também está apenas em seu início.

“Por enquanto, apenas a estrutura de laboratório está montada, onde estão sendo feitos ensaios preliminares”, conta a professora Juliana Espada Lichston, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), uma das responsáveis por executar o projeto em Extremoz. “A fase de produção dos tanques, onde as microalgas serão depositadas e expostas à radiação solar, será iniciada em breve. A equipe executora do projeto acredita que em um ano teremos dados que solucionem parte das dúvidas e entraves que cercam a produção de microalgas para biodiesel”, afirma.

O projeto todo no Rio Grande do Norte deve levar cerca de dois anos e meio, talvez mais. Depois, deve vir uma pesquisa com escala ainda maior. E só num futuro um pouco mais distante pode-se pensar em combustíveis de microalgas realmente saindo de bombas em postos brasileiros.

Mais pesquisas
O que mais é necessário para que o Brasil se aproxime de dominar a tecnologia do biodiesel de algas? A resposta é simples: mais pesquisas. E, apesar de o levantamento em grande escala ser fundamental, os trabalhos de laboratório também são tremendamente importantes. Nesse sentido, a grande notícia tem sido o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para os laboratórios das universidades. Em 2008, um edital liberou R$ 4,5 milhões para projetos de pesquisa nacionais. Foram contratados 11 trabalhos, com limite de R$ 500 mil cada um.

Orlando Jorquera Cortes, que trabalha em um dos projetos aprovados (e que também fez uma apresentação sobre sistemas de cultivo fechado no simpósio de Natal), conta que uma das atividades que os pesquisadores estão fazendo na Universidade Federal da Bahia (UFBA) tem a ver com a redução de custos para a produção das microalgas – um dos grandes empecilhos para que a produção comercial se torne viável. Atualmente, de acordo com a literatura científica, um litro de biodiesel de microalgas teria um custo variável de US$ 7 a US$ 15. Um valor irreal para competir com o diesel mineral ou mesmo com o biodiesel de outras matérias-primas. Isso só não assusta os investidores porque o potencial das microalgas é grande. Algumas espécies podem gerar mais de 90 mil litros de biodiesel por hectare ao ano.

“O edital do CNPq nos permitiu trabalhar com sistemas fechados de 40 litros no laboratório. Estamos trabalhando com a clorela, uma das microalgas mais promissoras para o mercado de combustíveis, para ver a reação a diferentes tipos de cultura”, afirma o bioquímico Jorquera. Assim como os demais trabalhos contratados pelo edital do CNPq, o da UFBA deverá apresentar seus resultados em dois anos.

“Foi o primeiro edital desse gênero no país”, afirma Rafael Menezes, coordenador de Ações de Desenvolvimento Energético do Ministério da Ciência e Tecnologia. Menezes, que representou o governo federal no evento em Natal, diz que Brasília aposta muito no desenvolvimento dos combustíveis vindos das microalgas. “É uma tecnologia muito promissora e que não é excessivamente complexa. As microalgas já estão sendo utilizadas no mundo todo. E o Brasil tem interesse em se desenvolver também nesta área”, diz.
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